Jesus contou uma história curta que ainda incomoda depois de dois mil anos. Dois homens sobem ao templo de Jerusalém na hora da oração. Um é respeitado por todos, cumpre a lei, dá o dízimo, jejua. O outro é odiado, trabalha para os romanos, tem fama de ladrão. Todo mundo que ouvia sabia quem era o "bom" e quem era o "mau".

Aí vem a reviravolta. Jesus diz que o homem desprezado foi para casa em paz com Deus, e o religioso exemplar, não. A parábola do fariseu e do publicano está em Lucas 18:9-14, e ela fala do que acontece dentro do peito na hora de falar com Deus.

Se você já sentiu que a sua oração precisa impressionar, ou já se pegou pensando "pelo menos eu não sou como fulano", este texto é para você.

Dois homens, o mesmo templo, dois corações

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Jesus abre a cena explicando para quem ele estava falando. O texto diz: "Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros" (Lucas 18:9, ARA). Guarde essa frase. Ela é a chave de tudo o que vem depois.

Os dois personagens não poderiam ser mais diferentes aos olhos da época. O fariseu era um homem religioso de verdade, estudioso da lei, pontual no templo, admirado na cidade. O publicano era um cobrador de impostos, visto como traidor porque trabalhava para o império romano e costumava cobrar a mais para ficar com a diferença. Se você perguntasse na rua quem estava mais perto de Deus, ninguém apontaria o publicano.

Por isso a história choca. Quem escutava esperava que o herói fosse o fariseu. Jesus inverte o final de propósito, para mostrar que Deus não olha o crachá, o uniforme ou a lista de tarefas cumpridas. Ele olha o coração que se aproxima.

A oração do fariseu: um currículo em vez de um pedido

Veja como o primeiro homem reza: "O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano" (Lucas 18:11, ARA). Repare em uma expressão fácil de passar batido: ele orava de si para si mesmo. Começa dizendo "ó Deus", mas na prática está conversando com o próprio reflexo.

O problema não são as coisas boas que ele fez. Jejuar e dar o dízimo são atos sinceros de fé. O problema é o uso que ele faz disso. As boas ações viram um espelho onde ele se admira e uma régua que ele usa para medir os outros por baixo. "Não sou como os demais homens", ele diz, e ainda aponta: "nem ainda como este publicano". A oração dele virou um currículo.

Isso acontece com gente boa até hoje. Quando a sua conversa com Deus vira uma lista do quanto você é dedicado, do quanto você é melhor que o colega que faltou, do quanto o seu clube é mais organizado que o outro, a oração parou de subir. Ela ficou girando em torno de você mesmo.

O publicano: sete palavras batendo no peito

Agora o segundo homem: "O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!" (Lucas 18:13, ARA). Tudo nele mostra consciência da própria necessidade. Fica longe, não ergue os olhos, bate no peito, um gesto que naquela cultura significava dor profunda e arrependimento.

A oração inteira dele cabe em uma frase. Nada de lista, nada de comparação com ninguém. Ele não se compara para cima nem para baixo. Só se enxerga diante de Deus e reconhece o que é: alguém que precisa de misericórdia. Essa é a diferença de altura entre os dois. O fariseu olhava para os lados; o publicano olhou para dentro e depois para o alto.

A Bíblia já dizia que é esse tipo de coração que agrada a Deus: "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:17, ARA). Contrito quer dizer partido de tristeza pelo próprio erro. Deus não despreza quem chega assim, de mãos vazias e coração aberto.

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"Desceu justificado": o veredito de Jesus

Então Jesus dá a sentença que ninguém esperava: "Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado" (Lucas 18:14, ARA). O publicano foi para casa justificado. A palavra significa ser declarado em paz com Deus, considerado justo diante dele. E isso não foi comprado com méritos. Foi recebido de graça.

Esse é o coração da mensagem cristã, e a fé adventista a apresenta com clareza: a salvação é um presente da graça, recebido pela fé. Ninguém a ganha juntando pontos. O publicano recebeu justamente o que não conseguia produzir sozinho. A humildade abre a porta, porque só quem admite que precisa aceita ser ajudado.

O orgulho faz o contrário. Ele tranca a porta por dentro. A Bíblia resume: "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (Tiago 4:6, ARA). Deus não resiste ao fariseu porque as boas obras dele sejam ruins. Ele resiste porque quem se acha completo não deixa espaço nenhum para a misericórdia entrar.

A religião de aparência dentro do Clube

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Autojustiça não é coisa só de gente antiga. No Clube, ela pode aparecer no Desbravador que sabe todas as respostas, tem todas as Especialidades, nunca falta e faz questão de que todos vejam isso. Essas conquistas são boas e merecem reconhecimento. O perigo mora no dia em que elas viram espelho e régua, como no fariseu.

Dá para reconhecer a religião de aparência em cenas concretas. É o cochicho "eu nunca faria isso" quando um colega erra na frente de todos. É a oração comprida e alta feita mais para os ouvidos da Unidade do que para Deus. É o uniforme impecável de fora e o coração duro por dentro, sem espaço para perdoar quem escorregou.

Compare com o Desbravador que chega atrasado, meio perdido, e diz de forma simples: "desculpa, eu errei". Aos olhos humanos o primeiro parece mais perto de Deus. Segundo Jesus, é o segundo que desce justificado. Se você quer aprofundar a atitude por trás de uma oração sincera, vale ler também como orar com o coração, e não só com a boca.

Comparação nas redes e orgulho espiritual

A versão moderna do erro do fariseu tem tela e notificação. As redes sociais são uma máquina de medir você contra os outros o tempo todo. Você rola o feed e, sem perceber, começa a fazer contas: quem viajou mais, quem tem mais amigos, quem parece mais espiritual. É o mesmo "pelo menos não sou como fulano", agora digitado.

Existem duas armadilhas nessa comparação, e as duas machucam. Comparar para cima gera inveja e a sensação de que você não vale nada. Comparar para baixo gera aquele orgulho gostoso e enganoso de se sentir superior, que é exatamente o veneno do fariseu. Nos dois casos você tirou os olhos de Deus e grudou nas pessoas.

O orgulho espiritual é o mais disfarçado deles. Ele mede a própria fé pelas falhas dos outros e transforma devoção em vitrine. Posta o versículo para parecer santo, não para viver a mensagem. O antídoto é simples de dizer e difícil de fazer: parar de olhar para os lados e voltar a olhar para cima. A régua não é o colega. É a graça de Deus, que ninguém alcança sozinho.

Como orar de verdade: a atitude do coração

A grande notícia da parábola é que orar de verdade não depende de palavras bonitas. O publicano usou uma frase. Deus valoriza o coração honesto acima do discurso. A atitude importa mais que o vocabulário, e é por isso que qualquer Desbravador, de qualquer idade, pode falar com Deus agora mesmo.

Alguns passos ajudam a sair do modo fariseu e entrar no modo publicano:

  • Honestidade: diga o que é real, inclusive os erros, sem maquiar.
  • Humildade: chegue como quem precisa, não como quem faz favor a Deus.
  • Pare de comparar: a oração é entre você e Deus, ninguém mais está na conta.
  • Peça misericórdia: reconhecer que você depende da graça já é o começo da resposta.

A porta continua aberta para quem chega de mãos vazias, inclusive para o Desbravador que hoje se sente longe, envergonhado ou pequeno demais. Foi assim que o publicano voltou para casa em paz. Se você quer entender melhor o que sustenta tudo isso por dentro, veja também o que é a fé que confia mesmo sem ver.