Sexta à noite, seus pais te deixam na porta do clube e vão embora tranquilos. Já parou para pensar por quê? Não é sorte: é um sistema de regras escritas, pensado para que nada de errado aconteça com nenhuma criança — nem na reunião, nem no acampamento, nem na viagem para o campori. Neste artigo você vai conhecer essas regras, saber o que a lei brasileira exige e, o mais importante, descobrir para quem contar se algo sair do lugar.

Por que o clube tem regras de proteção infantil?

O Clube de Desbravadores é o programa da Igreja Adventista do Sétimo Dia para meninos e meninas de 10 a 15 anos. Toda semana, milhares de famílias confiam seus filhos aos líderes do clube. Essa confiança não fica no ar: ela está protegida por um livro de regras chamado Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, publicado pela Divisão Sul-Americana (DSA) — o escritório que coordena a igreja em oito países da América do Sul. Ele faz parte dos manuais oficiais que todo diretor precisa estudar.

Dentro do manual existe uma seção inteira dedicada ao assunto: a 2.10, "Prevenção de abuso". Ela declara um objetivo duplo: evitar e identificar qualquer forma de violência — física, emocional ou sexual — contra a criança ou adolescente, e também proteger os membros da direção de falsas acusações. Ou seja: as regras cuidam dos dois lados ao mesmo tempo.

Pense como num jogo online: as regras de moderação não existem para estragar a diversão, e sim para que todo mundo possa jogar em paz. No clube é igual. Aliás, o manual chama os desbravadores de "juvenis" — é só o jeito formal de dizer criança ou adolescente de 10 a 15 anos. Você vai ver essa palavra nas citações abaixo.

O que é normal no clube — e o que não é?

O manual define abuso como qualquer tratamento que ameace a segurança da criança ou do adolescente ou deixe marcas físicas ou emocionais. Ele separa três tipos: abuso físico (machucado que não foi acidente), abuso emocional (humilhar, xingar, usar apelidos que rebaixam, linguagem violenta) e abuso sexual (qualquer violação da privacidade sexual, por toque, palavra ou imagem). E atenção a um detalhe importante: o manual diz que o abuso também pode acontecer entre duas crianças ou dois adolescentes — não é coisa só de adulto.

O que é normal no clube: instrução dada na frente do grupo, brincadeira que todos toparam, ajuda de um líder com outros adultos por perto, bronca justa com outro adulto presente. O que não é normal: adulto que quer ficar sozinho com você, conversa que "precisa ficar em segredo", toque que constrange, apelido que humilha, qualquer castigo físico.

Regra de bolso: se alguém pede que algo fique em segredo de todos os outros adultos — pais, diretor, pastor —, isso não é normal. Segredo assim é sinal de alerta, e contar não é dedurar: é se proteger.

Quais são as regras de ouro que todo líder segue?

A parte mais citada da seção 2.10 responde a uma pergunta direta: como proteger a direção do clube de falsas acusações? A resposta virou o conjunto de regras que todo líder de desbravadores conhece de cor. A primeira delas é a mais famosa: líder não fica a sós com um desbravador. Nunca. A conversa mais séria do mundo acontece à vista de outras pessoas.

As outras seguem a mesma lógica de "sempre mais olhos": os desbravadores são supervisionados o tempo todo; ninguém aplica disciplina sem que outro adulto, ciente da situação, esteja vendo; qualquer forma de castigo corporal é proibida; e uma criança só recebe ajuda em instalações sanitárias se houver um segundo adulto por perto, sabendo o motivo. Na saída, o desbravador só é entregue ao pai, à mãe ou ao guardião legal — qualquer outro adulto precisa de permissão expressa e por escrito.

E a regra mais dura de todas, sem exceção: pessoas condenadas, acusadas ou reconhecidas como tendo cometido abuso físico ou sexual não podem trabalhar em nenhuma atividade ou programa promovido pela igreja para crianças, adolescentes ou adultos. Não é "depende do caso". É porta fechada.

Os líderes deverão evitar ficar a sós com um juvenil. Isso protege ambos de possíveis acusações.Manual Administrativo do Clube de Desbravadores (DSA)

Regra do Manual AdministrativoNa prática
Líder nunca fica a sós com um desbravadorConversas e atividades acontecem à vista de outras pessoas — protege a criança e também o líder
Supervisão o tempo todoNinguém fica sem um adulto responsável por perto, na reunião ou no acampamento
Disciplina só com outro adulto vendoNenhuma bronca a portas fechadas; castigo corporal é proibido em qualquer forma
Banheiro com segundo adulto por pertoCriança só recebe ajuda em instalações sanitárias com outro adulto ciente do motivo
Saída só com responsávelO desbravador só é entregue a pai, mãe ou guardião legal — outro adulto exige permissão expressa e escrita
Tolerância zero com histórico de abusoCondenados, acusados ou reconhecidos por abuso não trabalham em nenhum programa da igreja com crianças, adolescentes ou adultos

Regras da seção 2.10 (Prevenção de abuso) do Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, edição da DSA.

Como funciona a segurança no acampamento?

No acampamento, a proteção vira geografia. O manual determina que a ala feminina e a ala masculina fiquem separadas adequadamente — meninos e meninas nunca dormem na mesma área, muito menos na mesma barraca. E as barracas da direção (o diretor e os adultos que o ajudam) devem ficar estrategicamente posicionadas entre as alas e entre as barracas das unidades, nas palavras do manual, "para evitar distúrbios e garantir a segurança física e emocional dos meninos e meninas".

Traduzindo: os adultos dormem em barracas próprias, separadas das barracas dos juvenis, e ficam de olho em tudo — como o inspetor de corredor da escola, só que a céu aberto. A unidade, aliás, é o pequeno grupo de 6 a 8 desbravadores liderado por um conselheiro, um líder mais experiente que acompanha o grupo de perto durante todo o evento.

Essa disposição não é frescura de organização: é a mesma lógica do "sempre mais olhos" aplicada à noite, quando todo mundo está dormindo. Até o desenho do acampamento protege.

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Aconteceu algo errado: para quem contar?

Primeiro passo, sempre: conte para um adulto de confiança — seus pais, o conselheiro, o diretor ou o pastor. O manual é claro: qualquer comportamento que pareça abusivo ou inconveniente deve ser relatado ao pastor ou à administração da igreja. Você não precisa ter certeza absoluta nem provas: relatar uma suspeita já é o caminho certo.

E a coisa não para dentro da igreja. O manual afirma que, como previsto em lei, mesmo nos casos de suspeita, a notificação deve ser feita ao Conselho Tutelar — o órgão público que existe em cada cidade do Brasil para proteger crianças e adolescentes. Para os líderes, o manual não deixa margem: a notificação é obrigatória e a responsabilidade é intransferível, podendo ser cobrada na justiça se o líder se omitir.

O manual ainda ensina o líder a agir bem nesse momento: ouvir com calma e sem interromper, levar a sério tudo o que a criança disser, não prometer segredo antes de saber do que se trata, anotar o relato o quanto antes e proteger a identidade de quem contou. A denúncia pode ser feita por telefone, por escrito ou pessoalmente — e pode ser pública ou sigilosa: dá para denunciar sem revelar o próprio nome.

Canais de denúncia: Conselho Tutelar da sua cidade · Disque 100 (Direitos Humanos — ligação gratuita, funciona todos os dias e aceita denúncia anônima) · delegacias especializadas de proteção à criança e ao adolescente.

Por que o diretor pede papel de cartório antes do campori?

Imagine a cena: faltam duas semanas para o campori — o grande acampamento que reúne vários clubes de uma região (entenda o que é um campori) — e o diretor começa a cobrar um papel assinado em cartório de cada família. Parece burocracia chata, mas é lei federal.

O ECA — Estatuto da Criança e do Adolescente, a lei brasileira de 1990 que protege todo menor de 18 anos — diz no artigo 83 que menores de 16 anos não podem viajar para fora da comarca onde moram (a comarca é, na prática, a cidade e a região atendida pelo mesmo fórum) desacompanhados dos pais, a não ser em situações específicas. Foi a Lei 13.812, de 2019, que subiu essa idade: antes a exigência valia só para menores de 12 anos.

Como a caravana do clube viaja com líderes — que não são os pais —, cada desbravador menor de 16 anos precisa levar uma autorização escrita dos pais ou responsáveis com firma reconhecida em cartório (o cartório confirma que aquela assinatura é mesmo de quem assinou), indicando o adulto que acompanha a viagem. Há duas dispensas importantes: viajar com um parente adulto de até terceiro grau (avós, tios, irmãos maiores de 18 anos), comprovando o parentesco com documentos, ou viajar para uma comarca vizinha, no mesmo estado ou na mesma região metropolitana. E quem já fez 16 anos ganhou liberdade: para viagens nacionais, basta documento oficial com foto.

1990
ECA (Lei 8.069) é sancionado e cria as regras de proteção e de viagem para crianças e adolescentes
2019
Lei 13.812 altera o art. 83 do ECA: a exigência de autorização sobe de menores de 12 para menores de 16 anos
2025
CNJ decide que assinatura eletrônica simples do gov.br não substitui a firma reconhecida na autorização de viagem
SituaçãoO que a lei exige para viagem nacional
10 a 15 anos, viajando com os líderes do clubeAutorização escrita dos pais ou responsáveis com firma reconhecida em cartório (ou escritura pública), indicando o acompanhante
Menor de 16 com parente adulto até 3º grau (avós, tios, irmãos maiores de 18)Sem autorização — basta comprovar o parentesco com documentos
Menor de 16 totalmente sozinhoSó com autorização judicial da Vara da Infância e Juventude
Comarca vizinha (mesmo estado ou região metropolitana)Autorização dispensada
16 e 17 anosDocumento oficial com foto — nenhuma autorização é exigida

Regras do art. 83 do ECA (redação da Lei 13.812/2019), conforme TJSP, TJPR e Agência Brasil.

O que mais o ECA diz que protege o desbravador?

Além das viagens, alguns artigos do ECA valem diretamente para o dia a dia do clube. O artigo 232 torna crime submeter criança ou adolescente sob sua autoridade a vexame ou constrangimento, com pena de detenção de 6 meses a 2 anos. Tradução: trote humilhante, "brincadeira" que expõe alguém ao ridículo diante do grupo, não é brincadeira — é crime.

O artigo 243 proíbe vender, fornecer ou entregar, mesmo de graça, bebida alcoólica ou produtos que causem dependência a menores, com pena de detenção de 2 a 4 anos e multa. E o artigo 244-B pune a chamada corrupção de menores: induzir alguém com menos de 18 anos a cometer uma infração. Por isso eventos de desbravadores não têm trote pesado, álcool nem "teste de coragem" perigoso — e qualquer adulto que propuser algo assim está fora das regras do clube e da lei.

Como pais e clube trabalham juntos?

Proteção infantil não é desconfiança: é parceria. Pais podem — e devem — perguntar quem são os líderes, como funciona a supervisão, pedir para conhecer o Manual Administrativo e conferir se as autorizações e o seguro anual dos membros estão em dia. Um clube bem organizado responde a essas perguntas com orgulho, não com incômodo.

Se você é pai ou mãe avaliando o clube pela primeira vez, já respondemos a grande pergunta em detalhe: o Clube de Desbravadores é seguro? A resposta curta: sim, quando as regras deste artigo são seguidas — e agora você sabe exatamente quais são elas para cobrar, acompanhar e confiar.