Poucas atividades ensinam tanta paciência quanto a pesca. Você prepara o equipamento, escolhe o ponto, lança a linha e espera. Nem sempre o peixe vem. E quando vem, a alegria é grande justamente porque houve espera. Esse é o valor de levar a vara para uma saída de campo do Clube: a pesca treina o caráter tanto quanto treina a mão.
Este guia foi feito para você, Desbravador de 10 a 15 anos, e para o Conselheiro ou pai que vai junto. Vamos do básico ao prático: montar vara e molinete, escolher anzol, chumbada e isca, dar os nós que seguram o peixe, ler a água, ficar seguro na margem e no barco, e devolver o peixe com respeito. Nada de decoreba: cada passo você vai usar de verdade.
E tem um fio espiritual aqui. Jesus chamou pescadores para segui-Lo e prometeu transformá-los em "pescadores de homens" (Mateus 4:19). A pesca, para o cristão, é lição e é convite. Pegue a vara com atenção e com gratidão.
Por que pescar é atividade de Clube
A pesca é uma das habilidades clássicas do escotismo e do Clube de Desbravadores. Ela junta natureza, técnica e espera em uma coisa só. Você não controla o peixe, nem o vento, nem a água. Aprende a preparar bem o que depende de você e a aceitar o resto com calma. Isso é maturidade, e é difícil de ensinar dentro de uma sala.
Para muitas Unidades, a pesca também é ponte para uma Especialidade e para uma saída de campo memorável. Um sábado à tarde ou um domingo à beira de um lago rende mais amizade e conversa do que muita reunião fechada. O Conselheiro que sabe pescar tem nas mãos uma ferramenta simples de aproximação com os adolescentes.
Há ainda um sentido mais profundo. Quando Jesus chamou os primeiros discípulos, homens que viviam da pesca, disse: 'Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens' (Mateus 4:19, NVI). Ele pegou o que aqueles pescadores já sabiam fazer e deu um propósito maior. A pesca, para o cristão, vira lembrete de que Deus usa aquilo que já está nas suas mãos. Aqui apresentamos essa leitura com respeito; você não precisa ser adventista para pescar bem com o Clube, mas vale conhecer o porquê de a Bíblia aparecer tanto à beira d'água.
Montando o equipamento: vara, molinete e linha
Comece pela vara. Para quem está aprendendo, uma vara de ação média, de 1,8 a 2,1 metros, é a mais fácil de controlar. Vara muito longa cansa o braço do Desbravador e engancha nos galhos; vara curta demais dificulta o lançamento. Encaixe as partes firmemente e alinhe os passadores (os anéis por onde a linha corre) em uma linha reta, todos para o mesmo lado.
O molinete prende embaixo da vara, no carretilho. Para iniciante, prefira o modelo de carretel fixo (chamado de molinete, com a linha saindo pela frente): ele embaraça menos que a carretilha. Passe a linha por dentro de todos os passadores, sem pular nenhum, antes de amarrar no carretel. Um passador esquecido faz a linha estalar e arrebentar no primeiro peixe grande.
A linha tem 'libragem', que é a resistência dela. Para pescarias de lago e rio no clube, linha de 0,20 a 0,30 mm (mais ou menos 8 a 12 libras) atende bem. Deixe o carretel cheio até quase a borda, não além, senão a linha salta sozinha. Um detalhe que muda o dia: regule o freio do molinete (o botão da frente ou de trás) para ceder linha quando o peixe puxar forte. Freio travado demais arrebenta; frouxo demais deixa o peixe fugir. Teste puxando a linha com a mão antes de lançar.
Anzol, chumbada e isca: o kit da ponta da linha
O anzol tem numeração que funciona ao contrário do que parece: quanto maior o número, menor o anzol. Anzóis de número 8 a 12 servem para peixes pequenos e médios, os mais comuns numa pescaria de aprendizado. Sempre que puder, use anzol sem farpa ou amasse a farpa com um alicate: ele machuca menos o peixe e sai muito mais fácil se enganchar em um dedo. Essa é a primeira regra de segurança da pesca.
A chumbada é o peso que leva a isca até a profundidade certa e ajuda no lançamento. Comece leve: chumbo de mais afunda tudo no fundo e assusta o peixe; de menos deixa a isca boiando à toa. Uma montagem simples é a chumbada corrediça (o peso desliza pela linha, com uma continha e um girador segurando embaixo). O girador, aquela peça giratória de metal, evita que a linha torça e vire um novelo.
Sobre a isca, há duas escolhas. A isca natural, como minhoca, milho ou pequenos pedaços de massa, é a mais fácil e pega bem. A isca artificial, como colheres e iscas de plástico, exige mais técnica, mas dá menos sujeira e permite devolver o peixe mais rápido. Para uma primeira saída da Unidade, minhoca no anzol resolve. Guarde a isca viva à sombra e em local ventilado; no calor ela morre depressa.
Leia tambémComo montar um acampamento: guia para iniciantesNós essenciais: o que segura o peixe
O nó é o elo mais fraco da linha. Não adianta vara boa e molinete caro se o nó escorrega na hora do peixe grande. Três nós resolvem quase tudo na pesca esportiva, e todos você molha com saliva ou água antes de apertar, para o atrito não queimar e enfraquecer a linha.
O nó clinch (ou clinch melhorado) prende o anzol ou o girador na linha: passe a ponta pelo olhal, dê de cinco a sete voltas em torno da linha, volte pela primeira alça e feche. É o nó do dia a dia. O nó palomar é ainda mais forte e mais simples de acertar: dobre a linha, passe a alça pelo olhal, dê um nó simples e passe o anzol por dentro da alça. Ótimo para quem está começando. Já o nó de sangue (blood knot) serve para emendar dois pedaços de linha de espessura parecida, útil quando a ponta arrebenta e você precisa reaproveitar o carretel.
Se você quer treinar os dedos e a paciência para nós, a pesca conversa direto com a habilidade de amarração do Clube. Vale revisar a base em nós e amarras: quem já domina volta simples, meia-volta e cote pega os nós de linha muito mais rápido. Treine em casa, com linha grossa e boa luz, antes de tentar amarrar um anzol pequeno na beira do rio com o dedo frio.
Ler a água e escolher o ponto
Peixe não fica espalhado por igual. Ele se junta onde há comida, sombra e proteção. Por isso, ler a água é meio caminho para não voltar de mãos vazias. Procure estruturas: galhos submersos, pedras, raízes na margem, pilares de ponte. Ali o peixe se esconde e caça. Em lago, as bordas com vegetação e as sombras costumam render mais que o meio aberto e ensolarado.
Observe o movimento. Uma correnteza que encontra água parada cria uma zona rica em comida, e o peixe se posiciona logo depois dela, esperando o alimento passar. Bolhas, marolas e pequenos saltos na superfície indicam atividade. Cedo da manhã e fim de tarde, com luz fraca, o peixe se aproxima mais da margem e morde melhor; no meio do dia quente, ele desce para o fundo mais frio, então aumente a chumbada.
Vento e clima também contam. Vento batendo em uma margem empurra insetos e microcomida para lá, e o peixe segue. Depois de uma chuva, a água mais turva pode agitar a pescaria. Nada disso é regra absoluta, mas ensina o Desbravador a observar a criação com atenção, em vez de simplesmente jogar a linha em qualquer lugar e esperar sorte.
Segurança na margem, no barco e com o anzol
A margem engana. Pedra molhada, barranco de terra e capim escondem o risco de escorregar para dentro da água. Ande devagar, teste o chão antes de firmar o pé e mantenha uma distância segura da borda ao lançar. O lançamento é o momento de mais acidente: antes de jogar a linha para trás, olhe quem está atrás de você. Um anzol voando acerta orelha, rosto e olho com facilidade. Combine com a Unidade um espaço mínimo entre cada pescador.
Se a pescaria for de barco, o colete salva-vidas é inegociável. Pela norma da Marinha do Brasil, embarcações precisam ter colete para cada pessoa a bordo, com tamanho adequado para as crianças, e o uso é obrigatório em barcos a motor. No Clube, a regra é simples: ninguém entra no barco sem o colete vestido e afivelado, sem exceção, mesmo quem sabe nadar, porque uma pancada na cabeça ao cair tira a capacidade de nadar. Vale reforçar tudo o que você aprende em segurança na água antes de qualquer saída perto de rio ou represa.
E se o anzol fisgar um dedo? Não puxe de volta, isso rasga. Se o anzol tem farpa e está fundo, é caso de atendimento médico; não force. Enquanto isso, lave o local com água limpa e mantenha a calma. Todo esse cuidado com ferimentos e afogamento é conscientização, não substitui um curso de primeiros socorros nem o socorro profissional. Em emergência de verdade, ligue 192 (SAMU). Ter um adulto responsável, um kit de primeiros socorros e o telefone carregado é parte do equipamento tanto quanto a vara.
Ética, defeso, pesque-e-solte e o peixe na mesa
O pescador cristão devolve mais do que tira. O pesque-e-solte é a prática de soltar o peixe com vida, e ele funciona quando feito com cuidado: use anzol sem farpa, molhe as mãos antes de tocar o peixe (a mão seca tira a camada que o protege), tire o anzol rápido, evite deixá-lo muito tempo fora da água e devolva com delicadeza, segurando até ele nadar sozinho. Um peixe maltratado e solto morre depois; isso não é pesque-e-solte, é desperdício.
Respeite o defeso. Defeso é o período em que a lei proíbe pescar certas espécies porque elas estão se reproduzindo, garantindo que haja peixe no futuro. No Brasil, o principal é o defeso da piracema, que restringe a pesca nas bacias dos rios em boa parte da estação de chuvas; as datas variam por estado e por espécie. Pescar no defeso é crime ambiental, com multa alta e apreensão do equipamento. Antes de qualquer saída, o Diretor ou Conselheiro confere as regras locais no órgão ambiental. Cuidar da criação é responsabilidade cristã, não detalhe.
Se a intenção é comer o peixe, faça isso com respeito e higiene. Abata o peixe rápido, limpe-o à sombra, mantenha-o gelado e cozinhe bem: peixe malcozido pode transmitir parasitas. Ensine a Unidade a não desperdiçar. E lembre da segunda cena bíblica da pesca: quando os discípulos trabalharam a noite toda sem pegar nada e, obedecendo a Jesus, lançaram de novo a rede, 'pegaram tal quantidade de peixe que as redes começaram a rasgar-se' (Lucas 5:6, NVI). A lição não é que sempre haverá fartura, mas que vale confiar, tentar de novo e agradecer pelo que vem. Leve todo o seu lixo de volta e deixe a margem melhor do que a encontrou.