Quando você pensa em país adventista forte na Ásia, talvez não pense primeiro na Coreia do Sul. Mas devia. A mensagem chegou ali há mais de 120 anos, criou escolas antes de criar igrejas grandes e alcançou os jovens tão cedo que o Manual Juvenil já circulava em coreano em 1925 — no mesmo grupo das primeiras traduções asiáticas.

Esta página não é sobre um evento único. É a história nacional: como a mensagem entrou, quem a trouxe, como o trabalho com crianças e jovens (o MV e o JMV, avós diretos do Clube de Desbravadores) botou raiz por ali, e por que hoje a Coreia do Sul aparece como sede natural de grandes camporis da região.

É também a primeira página asiática da nossa série de história. Cada nome, data e número abaixo vem de fonte oficial adventista — Enciclopédia da Igreja (ESDA), Anuário e agências de notícias da Igreja. Dados apurados em 22/07/2026.

Como a mensagem adventista chegou à Coreia?

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A história não começou com um missionário estrangeiro. Começou com dois coreanos.

Em 1904, Son Heung-jo e Lee Eung-hyun foram batizados em Kobe, no Japão, e se tornaram os primeiros adventistas coreanos. De volta à península, Son Heung-jo passou a organizar o trabalho, em parceria com Lim Gi-ban. Ou seja: a semente entrou pela iniciativa de gente da terra, não de fora.

O reforço estrangeiro veio logo depois. Em 1905, William Smith chegou como primeiro missionário. Em 1906 ele fixou a base em Soonan, na província de Pyongan do Sul, com um plano claro: abrir uma escola para formar obreiros. Pouco depois chegou Mimi Scharffenberg, a primeira missionária mulher, que ajudou a fundar a escola de formação em Soonan.

A organização veio em passos curtos e firmes. A Missão Coreana foi organizada em outubro de 1908, e em 1909 a sede se mudou para Seul — o que abriu caminho para a mensagem descer ao centro-sul da península. Os dois primeiros pastores coreanos ordenados foram Lee Keun-ok e Jeong Mun-gook; este último liderou a Igreja no país por cerca de duas décadas.

Guarde esse detalhe: em menos de dez anos, o movimento saiu de dois batismos no exterior para uma missão organizada, com sede, escola e liderança nativa. É uma base rápida — e ela explica muita coisa do que veio depois.

Por que uma escola veio antes das igrejas grandes?

Porque, no jeito adventista de plantar a mensagem, escola e igreja andam de mãos dadas. E na Coreia a escola veio muito cedo.

Em 10 de outubro de 1906, nasceu em Soonan a Escola Euimyung, pensada para formar obreiros do evangelho. As aulas começaram em 9 de dezembro de 1907, com 11 alunos — cinco meninos e seis meninas. Um começo minúsculo. Mas essa escolinha de Soonan é a semente do que hoje é a Universidade Sahmyook, em Seul.

E aqui vem um dado que surpreende quem não conhece a Coreia adventista: a Sahmyook é, hoje, a maior universidade de propriedade da Igreja Adventista no mundo. Não é a mais antiga nem a mais famosa lá fora — é a maior. Uma instituição que começou com onze crianças em uma província que hoje fica na Coreia do Norte.

Por que isso importa para um Desbravador? Porque a mesma lógica que sustenta o clube — formar caráter e serviço desde cedo, com disciplina e propósito — foi a lógica que fez a Igreja coreana investir em educação antes de tudo. Não é coincidência que o trabalho com a juventude tenha florescido tão rápido por ali.

É verdade que o Manual Juvenil saiu em coreano já em 1925?

É. E esse é, talvez, o dado mais bonito desta página para quem gosta de Desbravadores.

Antes de existir a palavra "Desbravadores", existia o trabalho juvenil da Igreja, com dois nomes que você precisa conhecer: MV e JMV. O MV — Missionary Volunteers, ou Voluntários Missionários — foi a sociedade de jovens organizada em 1907, sob a direção de Milton E. Kern. Em 1909, a Igreja pediu um programa parecido para as crianças mais novas: nasceu o JMV, o Junior Missionary Volunteer, o "MV Júnior". É desse tronco que, mais tarde, brotaram os clubes que hoje chamamos de Desbravadores.

O manual desse trabalho júnior — o Manual Juvenil (Junior Manual), escrito por Harriet Maxson Holton — foi aprovado em 1923, no congresso de Voluntários Missionários em Colorado Springs. E é aqui que a Coreia aparece na história global: já em 1925, edições resumidas desse manual foram publicadas em chinês, coreano, japonês e malaio. Quer dizer, quando o programa juvenil ainda estava engatinhando no mundo todo, o coreano estava entre as primeiras línguas asiáticas a recebê-lo.

Repare no tamanho disso. Não era um material antigo e consolidado sendo traduzido décadas depois. Era um manual novo, de dois anos, já chegando aos jovens coreanos. A Igreja na Coreia não esperou amadurecer para investir na juventude — investiu quase ao mesmo tempo que o resto do mundo.

Uma nota honesta de precisão: o nome "Pathfinders" (Desbravadores, em inglês) só apareceria bem depois, e os clubes no formato que você conhece se organizaram a partir de 1950. Então, em 1925, não havia "Desbravadores" na Coreia no sentido de clube. Havia o JMV — o programa que é o avô direto do clube. A distinção importa, e nós a respeitamos.

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A história começou no norte. Como ela virou 'Coreia do Sul'?

Essa é a parte que confunde muita gente, e vale a pena explicar com calma.

Repare nos lugares: Soonan, província de Pyongan do Sul. Esse território, onde a mensagem nasceu e onde ficava a primeira escola, hoje fica na Coreia do Norte. O berço do adventismo coreano está, geograficamente, do outro lado da fronteira.

A península foi dividida depois da Segunda Guerra Mundial, e a Guerra da Coreia (1950–1953) selou essa separação. Do lado norte, a atividade religiosa organizada foi praticamente extinta. Do lado sul, a Igreja se reorganizou, cresceu e concentrou suas instituições — a Universidade Sahmyook, por exemplo, hoje está em Seul, não mais em Soonan.

Por isso, quando falamos da "história adventista na Coreia do Sul", falamos de uma mensagem que entrou pelo norte, atravessou a divisão do país e floresceu no sul. É uma continuidade, não um recomeço. As raízes estão em Soonan; os frutos, hoje, estão sobretudo em Seul e no restante do território sul-coreano.

Quão forte é a presença adventista na Coreia do Sul hoje?

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Forte o suficiente para ser referência na Ásia. Vamos aos números oficiais.

A administração adventista no país é a União Coreana (Korean Union Conference), com sede em Seul. Ela reúne cinco associações e uma missão. Os dados de 2020 dão a dimensão da coisa:

Indicador (União Coreana, 2020)Número
Membros260.729
Igrejas699
Pastores846
Professores412
Campos (associações + missão)5 associações + 1 missão

Para comparar de longe: são mais de um quarto de milhão de membros em um país do tamanho aproximado de um estado brasileiro médio. Some a isso a maior universidade adventista do mundo, uma rede de escolas e hospitais, e uma tradição juvenil que, como você viu, é quase tão antiga quanto o próprio programa mundial.

Isso ajuda a entender por que a Coreia do Sul não é só um país com adventistas. É um país com estrutura adventista — a base física, humana e financeira que permite sediar um evento do porte de um campori internacional.

Por que a Coreia do Sul virou sede de grandes camporis?

Junte tudo o que você leu — a mensagem antiga, a estrutura educacional, a juventude organizada desde cedo — e o resultado é natural: a Coreia do Sul se tornou um palco preferido para reunir Desbravadores da região.

A região aqui é a Divisão Norte-Asiático-Pacífica (NSD), que agrupa países como Coreia, Japão, Mongólia, China continental, Taiwan e Hong Kong. Em 2012, a Coreia do Sul sediou o primeiro campori de Desbravadores da NSD, reunindo cerca de 4.500 participantes de vários desses países, no campus da Universidade Sahmyook, em Seul. Foi um marco: a primeira vez que a divisão inteira se juntou em um campori.

Onze anos depois, a Coreia recebeu de novo. Em agosto de 2023, o campori regional voltou à Sahmyook, de 1º a 5 de agosto, com o tema "Focus on the Vision" (Foco na Visão). Mais de 2.300 Desbravadores e líderes de 14 países participaram, com cerca de 120 atividades de estande — de tiro com arco a nós e amarras, passando por escalada, tirolesa e oficinas de tecnologia. Cobrimos esse evento em detalhe na reportagem do campori NSD 2023.

Não é que a Coreia "ganhe" o campori por sorteio. É que ela tem o que um campori exige: um campus grande e preparado (a Sahmyook), uma igreja local numerosa para receber e servir, e uma cultura de Desbravadores madura o bastante para organizar tudo. A sede é fruto da história — não o contrário.

O que a trajetória coreana ensina ao Desbravador brasileiro?

Três lições, e nenhuma delas é sobre a Coreia. São sobre o clube.

Primeira: começar pequeno não é começar fraco. Onze crianças em Soonan viraram a maior universidade adventista do mundo. Nenhum clube nasce grande. O seu também não precisa.

Segunda: investir cedo na juventude compensa décadas depois. A Igreja coreana levou o Manual Juvenil para as crianças quase ao mesmo tempo que o resto do mundo, em 1925. Um século depois, colhe camporis internacionais. O trabalho com o júnior de hoje é o líder de amanhã.

Terceira: a mensagem atravessa fronteiras, guerras e mapas. A raiz coreana ficou do lado de lá de uma fronteira fechada, e ainda assim o fruto brotou do lado de cá. É o mesmo espírito que faz um clube em um bairro pequeno do Brasil formar gente que vai servir no mundo inteiro.

Se quiser continuar por essa trilha, vale conhecer também a origem mundial dos Desbravadores e como o MV e o JMV viraram o clube que você conhece. A Coreia é um capítulo dessa história maior — e um dos mais bonitos.