Fecha os olhos e morde uma fatia de pão quente, daqueles que saem do forno numa manhã de acampamento. O calor, o cheiro que sobe, o gosto que se espalha na boca: em menos de um segundo, dois sentidos diferentes se juntaram para produzir aquela sensação inteira. O paladar cuidou do gosto na língua. O olfato, sem você perceber, cuidou de quase todo o resto.

A gente costuma tratar comer como algo automático, uma tarefa entre uma atividade e outra do Clube. Só que, por baixo desse automático, existe uma engenharia fina demais para ter surgido por acaso. Cerca de dez mil papilas na boca, um nariz capaz de separar uma enormidade de cheiros, e uma ligação direta entre aroma e memória que nenhum outro sentido tem.

Este é o terceiro texto da nossa trilogia dos sentidos. Depois do olho e do ouvido, o paladar e o olfato fecham a série com um recado difícil de ignorar: esses sentidos vão muito além de manter você longe da fome. Eles existem para o deleite, e o deleite tem assinatura.

A língua e os cinco gostos

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Coloque uma rodela de laranja na boca e repare no que acontece. Existe uma acidez que dá aquele aperto, mistura de doce, e um fundo mais complexo que você nem sabe nomear. Quem faz essa leitura são as papilas gustativas, aquelas pontinhas ásperas espalhadas pela língua, pelo céu da boca e pela garganta. Um ser humano tem por volta de dez mil delas, segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, e dentro de cada uma há células sensoriais que se renovam sozinhas ao longo da vida.

O gosto se organiza em cinco categorias básicas: doce, salgado, azedo, amargo e umami. As quatro primeiras você já conhece de nome. O umami é o gosto mais discreto e mais difícil de explicar, aquele sabor encorpado e satisfatório que aparece no caldo de galinha, no queijo curado, no tomate maduro. Foi identificado há pouco mais de um século, e hoje ninguém duvida de que ele existe.

Cada gosto tem uma função de sobrevivência clara. O doce avisa que há energia disponível. O salgado repõe minerais. O azedo e o amargo funcionam como alarmes contra alimentos estragados ou venenosos, por isso a careta involuntária diante de algo muito amargo. Repare como um sistema tão pequeno, do tamanho de uma língua, carrega ao mesmo tempo um cardápio de prazeres e um serviço de segurança embutido.

O nariz distingue muito mais do que se pensava

Durante quase um século, os livros repetiram que o nariz humano distinguia mais ou menos dez mil cheiros. O número era antigo, dos anos 1920, e nunca tinha sido medido de verdade. Em 2014, pesquisadores da Universidade Rockefeller resolveram testar isso a sério. Eles montaram misturas com dezenas de moléculas de odor e pediram a voluntários que dissessem quais eram iguais e quais eram diferentes.

O resultado, publicado na revista Science, foi surpreendente: pela conta dos pesquisadores, o olfato humano seria capaz de separar mais de um trilhão de odores distintos. O número virou manchete no mundo todo. Vale um cuidado honesto aqui, porque outros cientistas depois questionaram esse cálculo, e alguns sugeriram valores bem menores, de modo que a cifra exata continua em aberto. O que quase ninguém contesta é o essencial. A antiga marca de dez mil cheiros era baixa demais, e o nariz humano é um instrumento de precisão muito mais fino do que se imaginava.

Pense num Desbravador chegando ao acampamento. Antes de ver a fogueira, ele já sente a fumaça. Antes de abrir a barraca da cozinha, já sabe se tem café passando. O olfato trabalha à distância, no ar, captando pistas químicas invisíveis. Para uma capacidade dessas ter aparecido por tentativa e erro, sem projeto, seria preciso uma dose de fé bem maior do que a de quem crê num Criador cuidadoso.

Por que a comida perde o gosto com o nariz entupido

Todo mundo que já pegou uma gripe forte conhece a cena: você está com fome, prepara algo gostoso, e a comida parece papelão sem tempero. A língua continua funcionando, as papilas estão intactas, e mesmo assim o prato virou uma decepção. O motivo é uma das descobertas mais curiosas sobre os sentidos.

Aquilo que a gente chama de sabor quase não vem da boca. Estimativas de institutos de saúde colocam em torno de 80% a fatia da experiência de sabor que é conduzida pelo olfato. Quando você mastiga, aromas sobem por um canal que liga o fundo da garganta ao nariz, por dentro. O cérebro junta essa informação de cheiro com o gosto da língua e monta a sensação completa. Com o nariz entupido, esse canal fecha, e sobra só o esqueleto do gosto: doce, salgado, azedo, amargo, umami, sem nenhuma da riqueza por cima.

Isso explica por que o chocolate, o morango e o café têm sabores tão distintos, se na língua todos passam por caminhos parecidos. A diferença mora no nariz. Sabendo disso, dá para entender melhor por que cuidar do corpo importa tanto, tema que o Clube trata na Especialidade de Temperança. Sentidos bem cuidados são sentidos que continuam entregando o presente que foram feitos para entregar.

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Um cheiro que traz a lembrança inteira

Existe uma experiência que quase todo mundo já viveu. Você sente um cheiro específico, o perfume de alguém, o aroma de bolo assando, o mato molhado depois da chuva, e de repente uma lembrança inteira volta com força, com emoção e tudo. Não é uma memória qualquer. É como se o cheiro abrisse uma porta direta para uma cena antiga.

Isso acontece por causa de um detalhe na fiação do cérebro. A informação do olfato segue por um caminho curto até o sistema límbico, a região ligada à emoção e à memória, passando por estruturas como a amígdala e o hipocampo. Os outros sentidos fazem escalas antes de chegar lá. O cheiro chega quase direto. Por isso ele mexe com o sentimento antes de a razão entender o que está acontecendo.

Para o Clube, essa é uma ferramenta poderosa. O cheiro da fogueira, o aroma do culto de pôr do sol, o perfume de um acampamento no campo: essas memórias se gravam fundo e voltam anos depois, muitas vezes com a fé associada a elas. Um adolescente pode esquecer o que foi falado numa reunião, mas o cheiro daquele sábado à noite pode acompanhá-lo pela vida. Quem projetou a memória para funcionar assim sabia exatamente o que estava fazendo.

"Provai e vede que o Senhor é bom"

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Não é coincidência que a Bíblia use o paladar para falar de algo tão profundo quanto conhecer a Deus. O Salmo 34:8 traz o convite: "Oh! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia" (ARA). Repare no verbo. O salmista não diz apenas olhe ou pense. Ele diz prove.

Provar é diferente de saber de longe. Você pode ler tudo sobre uma laranja, ver fotos, ouvir alguém descrever o gosto, e ainda assim não ter a menor ideia de como ela é até morder. O sabor exige experiência direta, contato, um pouco de coragem para colocar na boca. O texto sugere que conhecer a Deus funciona do mesmo jeito. Ninguém entende a bondade divina só por ouvir falar. Em algum momento, é preciso experimentar.

Para um Desbravador, isso é um convite concreto. Provar pode ser tentar orar pela primeira vez, participar de um projeto de serviço, abrir a Bíblia com honestidade em vez de repetir o que os outros dizem. O Clube existe, entre outras coisas, para criar essas oportunidades de provar. E, como todo bom sabor, o que se descobre costuma ser melhor do que a descrição prometia.

O bom perfume de Cristo

Se o paladar aparece no convite para conhecer a Deus, o olfato aparece na missão de quem já o conhece. O apóstolo Paulo escreveu: "Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem" (2 Coríntios 2:15, ARA). A imagem é forte. O cristão é comparado a um cheiro que se espalha por onde passa.

Um perfume tem uma característica interessante: ele não precisa se anunciar. Você entra num ambiente e sente antes de qualquer palavra. É discreto e, ao mesmo tempo, impossível de esconder. Paulo diz que a vida de quem segue Jesus funciona assim, deixando um rastro que as pessoas percebem sem que seja preciso um sermão em cada esquina.

No Clube, isso é bem prático. O jeito como um Conselheiro trata um Desbravador difícil, a honestidade numa competição, a disposição de ajudar sem plateia: tudo isso é perfume. Ninguém precisa gritar que é cristão quando o cheiro já chegou antes. E, assim como o nariz distingue uma infinidade de odores, as pessoas ao seu redor têm um faro apurado para saber quando o perfume é verdadeiro.

Feitos para o deleite, não só para sobreviver

Junte tudo o que vimos e uma pergunta fica no ar sobre o projeto por trás desses sentidos. Para simplesmente não morrer de fome, o corpo não precisaria de nada tão sofisticado. Bastaria distinguir comida boa de comida estragada. Um único gosto de alarme resolveria o problema da sobrevivência.

Só que a realidade é generosa demais para caber na sobrevivência. São cinco gostos, uma variedade enorme de cheiros, e um sistema que amarra aroma a memória e emoção. Nada disso é estritamente necessário para continuar vivo. Isso é o que a gente encontra quando alguém projeta algo pensando não só na função, mas também na alegria de quem vai usar. É a diferença entre uma refeição que só nutre e um jantar que a família lembra por anos.

A mensagem de saúde adventista, que o Clube valoriza e você pode conhecer melhor em como surgiu a mensagem de saúde, caminha nessa mesma direção: cuidar do corpo é uma forma de honrar quem o fez. Sentidos bem cuidados provam a bondade de Deus todos os dias, na fatia de laranja, no pão quente, no cheiro da chuva. Basta prestar atenção para perceber que o deleite não é acidente. É presente, e presente tem quem dá.