A vítima real de afogamento quase nunca grita, não bate os braços pedindo socorro e não faz o escândalo dos filmes. Ela fica de boca no nível da água, cabeça inclinada para trás, olhos vidrados, tentando puxar ar em silêncio. Em menos de um minuto, some.
Num acampamento de Clube, isso pode acontecer a poucos metros de você enquanto todo mundo brinca no rio. Saber o que fazer nos primeiros minutos, antes de a ambulância chegar, é o que separa um susto de uma tragédia. Este guia trata exatamente desses minutos.
Nada aqui substitui um curso presencial de primeiros socorros nem o atendimento médico. É informação para você reconhecer o perigo, agir com a cabeça fria e chamar ajuda depressa. No Brasil, a emergência atende pelo 192.
O afogamento é silencioso, e é por isso que engana
No cinema, quem se afoga grita, esperneia e afunda com estardalhaço. Na vida real acontece o contrário. Quando falta ar, o corpo entra no que os socorristas chamam de resposta instintiva de afogamento. Os braços empurram a água para os lados na tentativa de subir, a boca mal aparece na superfície, e não sobra fôlego nem coordenação para acenar ou chamar por socorro.
A vítima costuma ficar na vertical, sem chutar as pernas, com a cabeça baixa e o olhar vazio. Ela consegue lutar por vinte a sessenta segundos, no máximo, antes de submergir de vez. Quem está ao lado pode jurar que a criança está apenas boiando ou fazendo graça, e essa confusão custa vidas todos os verões.
No acampamento, o roteiro se repete: a molecada da Unidade toma banho de rio, a algazarra cobre qualquer barulho, e um Desbravador mais novo escorrega para uma parte funda. Ninguém ouve nada porque não há nada para ouvir. Fique de olho em quem parou de brincar de repente, em cabeças que aparecem e somem, em olhares perdidos. Cabeça baixa e silêncio perto da água pedem checagem na hora. Um bom hábito do Clube é combinar a regra dos pares e passar a lista de nomes de tempos em tempos, como você vê em segurança na água.
Antes de entrar na água: alcance, jogue, reme, vá
O instinto de pular para salvar é nobre e, com frequência, fatal. Uma pessoa em pânico se agarra em quem chega perto com uma força assustadora e afunda o socorrista junto. Muita gente boa morreu tentando salvar alguém que, no fim, sobreviveu. Guarde a sequência que a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático ensina: alcançar, jogar, remar e, só em último caso, ir.
Alcançar é estender algo firme sem sair do lugar seguro: um galho comprido, um remo, um bastão de barraca, uma corda. Deite-se ou ancore o corpo para não ser puxado. Jogar vem em seguida: atire qualquer coisa que flutue, uma boia, um colete, uma garrafa PET fechada, um isopor, um galão vazio. A vítima precisa de flutuação antes de qualquer outra coisa.
Remar significa usar um barco, caiaque ou prancha, quando houver, para chegar sem se molhar. Entrar na água nadando é a última opção, reservada a quem sabe nadar bem, conhece o local e leva um objeto flutuante na frente para a vítima se agarrar em vez de se agarrar em você. Num acampamento, deixe cordas e boias sempre à mão perto do ponto de banho. Improvisar corda de galho na hora do desespero raramente dá certo.
Retirar da água sem piorar o quadro
Trazida a vítima à margem, tire-a da água o quanto antes, mas com cuidado. Sustente a cabeça e o pescoço enquanto a puxa, mantendo o corpo o mais horizontal possível. Se houve mergulho de cabeça em água rasa e você suspeita de lesão na coluna, procure movimentar o pescoço o mínimo, alinhando cabeça e tronco. Ainda assim, respirar vem primeiro: uma via aérea aberta salva mais do que uma coluna imobilizada em quem não está respirando.
Coloque a pessoa deitada de costas em chão firme e seco, longe da beira. Chão duro é essencial para o caso de precisar de compressões depois. Areia fofa e colchonete atrapalham. Ganhe esses poucos metros de terra plana antes de qualquer avaliação mais demorada.
Não perca tempo tentando esvaziar o pulmão. Virar a pessoa de cabeça para baixo, apertar a barriga ou dar tapas nas costas para tirar água é ineficaz e perigoso: atrasa o socorro que importa e provoca vômito, que pode ir parar nos pulmões. A água que precisa sair, sai sozinha. Sua energia vai toda para avaliar e reanimar.
Leia tambémQueimaduras: primeiros socorros que todo Desbravador deveria saberAvaliar consciência e respiração, e ligar 192
Com a vítima deitada, chame-a alto e toque nos ombros. Se responde, tosse ou se mexe, mantenha-a de lado, aquecida, e chame ajuda mesmo assim. Se não responde, este é o momento de acionar o SAMU pelo 192 ou pedir a alguém para ligar enquanto você continua. Diga com calma o local exato, que se trata de afogamento e se a pessoa respira ou não.
Para checar a respiração, incline levemente a cabeça para trás, levante o queixo e observe o tórax por até dez segundos. Veja se sobe e desce, sinta o ar na sua bochecha, escute. Cuidado com o suspiro agônico, aquele arquejo raro e ruidoso de quem está em parada: isso não é respirar. Na dúvida, trate como se não estivesse respirando.
Enquanto um socorrista avalia, outro busca o desfibrilador externo automático (DEA), se o local tiver um. Muitos parques, escolas e ginásios já possuem. O aparelho fala sozinho o que fazer e não dá choque em quem não precisa, então usá-lo é seguro. Mas nada disso segura a fila: se a vítima não respira, a reanimação começa já.
RCP no afogado: comece pelo ar
Aqui está a diferença que quase ninguém sabe. Numa parada cardíaca comum, como a de um adulto que desmaia de repente, o coração falha primeiro e a orientação é começar pelas compressões. No afogamento a lógica se inverte: a morte chega pela falta de oxigênio, o coração para depois, por consequência. Por isso, no afogado, a reanimação abre pelas vias aéreas e pelas ventilações.
O protocolo de suporte básico para afogamento recomenda cinco ventilações de resgate logo de início. Incline a cabeça para trás, feche o nariz da vítima com os dedos, cubra a boca dela com a sua e sopre devagar cinco vezes, observando o tórax subir a cada sopro. Em seguida, siga com ciclos de 30 compressões no centro do peito para 2 ventilações, num ritmo rápido, de 100 a 120 por minuto, apertando fundo. Se não conseguir ou não quiser dar as ventilações, faça ao menos compressões contínuas e fortes. Compressão sozinha é infinitamente melhor do que nada.
Não pare por conta própria. Continue até a vítima respirar e se mexer, até o SAMU assumir ou até você não aguentar mais e outra pessoa render. Reveze com um companheiro a cada dois minutos para não cansar. Se o passo a passo das compressões ainda é novo para você, vale estudar com calma o guia de RCP e, melhor ainda, fazer um curso prático no Clube.
Quando a vítima volta: posição de recuperação e o frio
Se a pessoa recupera a respiração mas continua inconsciente, coloque-a na posição de recuperação: deitada de lado, com a cabeça apoiada e um pouco inclinada para baixo, para que água, saliva ou vômito escorram para fora em vez de voltar aos pulmões. Fique ao lado observando o peito subir e descer, porque a respiração pode falhar de novo e você precisa estar pronto para recomeçar.
O frio é um inimigo silencioso nesse momento. Água de rio, represa ou piscina costuma estar bem abaixo da temperatura do corpo, e uma criança molhada, parada e assustada esfria depressa. A hipotermia deixa a pele pálida, os lábios arroxeados, o corpo tremendo ou, pior, estranhamente quieto. Tire a roupa encharcada, envolva a vítima em toalhas ou cobertores secos, proteja-a do vento e não ofereça nada para beber enquanto ela não estiver plenamente acordada.
Curiosamente, o frio às vezes ajuda. Em casos de água muito gelada, o resfriamento do corpo pode proteger o cérebro por mais tempo, e há relatos de recuperação depois de longos minutos submerso. Por isso a regra dos socorristas é insistir na reanimação, especialmente com crianças em água fria. Enquanto a ajuda não chega, você não desiste.
O mito do afogamento seco e do afogamento secundário
Toda temporada de verão circula a história de uma criança que saiu bem da piscina e morreu horas depois, na cama, do tal afogamento seco ou secundário. A comunidade médica é clara: esses termos foram abandonados e descrevem algo que, do jeito assustador como a lenda conta, não acontece. Ninguém sai andando e conversando normalmente para depois morrer afogado no sofá, sem sinal nenhum.
O que existe de verdade é bem menos misterioso. Quem engoliu e aspirou água pode, sim, ter os pulmões irritados e apresentar problemas nas horas seguintes. A diferença é que há sinais visíveis: tosse que não passa, respiração ofegante ou difícil, chiado no peito, espuma na boca, sonolência exagerada, lábios arroxeados. Esses sintomas aparecem logo, eles não surgem do nada em quem estava perfeitamente bem.
A regra prática para o Conselheiro e para os pais é simples. Qualquer Desbravador que teve um episódio de quase submersão, engasgou feio na água e ficou tossindo, ou saiu do banho abatido e ofegante, merece avaliação médica no mesmo dia. A ideia não é alimentar o pânico da lenda. Basta ficar de olho nos sinais reais e procurar um hospital se algum deles aparecer. Vigilância tranquila resolve o problema; medo desinformado só atrapalha.