Você já sentiu aquela fisgada rápida ao morder algo gelado e fingiu que não foi nada? O corpo estava avisando. A cárie raramente chega gritando: ela vai roendo o esmalte em silêncio, uma camada de cada vez, até doer de verdade. E o mais curioso é que a doença mais comum do mundo inteiro é também uma das mais simples de barrar.

Este guia é para o desbravador de 10 a 15 anos que quer entender o próprio corpo, e também para o pai, a mãe, o Conselheiro e o Diretor que montam o kit de acampamento e cuidam da turma. A ideia é entender o que acontece dentro da sua boca a cada mordida de doce, e saber o que fazer quando um colega leva uma bolada no rosto durante o jogo, sem precisar decorar regra nenhuma.

Cuidar do sorriso conversa direto com a mensagem de saúde que os Desbravadores levam a sério. O apóstolo Paulo escreveu: "Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês" (1 Coríntios 6:19-20, NVI). Os dentes fazem parte desse santuário.

Como a cárie nasce dentro da sua boca

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A cárie não cai do céu nem vem de comer doce uma vez. Ela é uma doença crônica, quer dizer, se forma devagar, ao longo de semanas e meses, por um encontro de fatores. E a Organização Mundial da Saúde classifica a cárie não tratada como a condição de saúde mais comum do mundo, atingindo a maioria das crianças em idade escolar e quase todos os adultos.

A receita tem três ingredientes. Primeiro, a placa bacteriana (também chamada de biofilme): uma película pegajosa e quase invisível que se forma sobre os dentes com restos de comida e milhões de bactérias. Passe a língua nos dentes quando acorda e você sente essa camada áspera. Segundo, o açúcar: as bactérias da placa adoram, é o combustível delas. Terceiro, o ácido: ao digerir o açúcar, essas bactérias soltam ácido como resíduo.

Esse ácido fica encostado no dente e começa a dissolver o esmalte, a camada dura e brilhante que protege a parte de fora. No início a mancha é branca e opaca, ainda dá para reverter. Se ninguém interrompe o processo, o ácido cava um buraco, a cavidade, e aí já é cárie de verdade, que só o dentista resolve. Cada vez que você come açúcar, começa um ataque ácido que dura cerca de vinte a trinta minutos. Quem belisca doce o dia inteiro mantém a boca em ataque quase o tempo todo.

Gengiva que sangra não é normal

Muita gente vê a gengiva sangrar na escovação e conclui: escovei forte demais, melhor pegar leve. É o contrário. Gengiva saudável não sangra quando você escova com cuidado. Quando sangra, quase sempre é gengivite, uma inflamação causada pela mesma placa acumulada na linha onde o dente encontra a gengiva.

A gengivite deixa a gengiva vermelha, inchada e sensível. A boa notícia: nesse estágio ela é reversível. Escovação caprichada mais fio dental por alguns dias costuma acalmar a inflamação e o sangramento para. O erro é fugir de escovar justo o lugar que sangra, porque é ali que a placa está fermentando.

Ignorada por muito tempo, a gengivite pode evoluir para problemas mais sérios, que afetam o osso que segura o dente. Por isso o sangramento merece atenção agora, não daqui a um ano. Se depois de uma semana escovando bem a gengiva continuar sangrando, é hora de marcar o dentista.

A técnica certa: escovar de verdade

Escovar não é passar a escova correndo enquanto você pensa no café da manhã. A recomendação é simples de lembrar: duas vezes ao dia, dois minutos cada vez. De manhã e, principalmente, antes de dormir, porque à noite a boca produz menos saliva e as bactérias trabalham à vontade.

O movimento é suave. Incline as cerdas em uns 45 graus na direção da gengiva e faça movimentos curtos, delicados, como se varresse a sujeira para fora, dente por dente. Esfregar com força e serra para os lados não limpa melhor: gasta o esmalte e machuca a gengiva. Não esqueça a parte de trás dos dentes, a superfície de mastigar e uma passada leve na língua, onde também mora bactéria. Uma quantidade de pasta do tamanho de um grão de ervilha basta.

E tem a parte que quase todo mundo pula: o fio dental. A escova não entra no espaço apertado entre um dente e outro, e é exatamente ali que a cárie costuma começar escondida. Passe o fio uma vez ao dia, abraçando cada dente em formato de C e deslizando com jeito. No começo pode sangrar um pouco justamente onde havia placa; em poucos dias, com o hábito, para de sangrar.

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O inimigo doce: açúcar, refrigerante e energético

O açúcar é o combustível da cárie, então faz sentido olhar para o que entra na boca. Ninguém precisa cortar tudo que é gostoso. O que pesa mesmo é a frequência e a escolha de bebida no dia a dia do clube.

Refrigerantes são um golpe duplo. Têm açúcar de sobra para as bactérias e ainda são ácidos por conta própria, então atacam o esmalte por dois caminhos ao mesmo tempo. Sucos de caixinha, isotônicos e balas que ficam grudadas e dissolvendo devagar na boca prolongam o ataque ácido. Ficar tomando golinho de refrigerante durante toda a tarde é pior para o dente do que tomar o copo inteiro de uma vez e seguir a vida.

Um assunto sério para adolescentes: as bebidas energéticas. Além do açúcar, costumam ser bastante ácidas e carregam cafeína em doses altas, o que não combina com um corpo que ainda está crescendo. Não são feitas para desbravador, e vale conversa franca com o Conselheiro e a família. Aqui entra um princípio que os Desbravadores prezam, a temperança: usar com moderação o que faz bem e deixar de fora o que prejudica. Escrevendo aos coríntios, Paulo resumiu: "Assim, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10:31, NVI). Para saber mais, veja a Especialidade de Temperança.

Proteger o esmalte que você já tem

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O esmalte é a substância mais dura do corpo humano, mais dura que osso. Só que ele não se regenera como a pele: uma vez perdido de vez, não volta a crescer. Por isso proteger o que você tem hoje vale mais do que qualquer conserto depois.

O flúor é o grande aliado. A pasta com flúor ajuda a repor minerais no esmalte e a deixá-lo mais resistente ao ácido. Um truque que poucos conhecem: depois de escovar à noite, cuspa a pasta mas não enxágue a boca com muita água. Deixar aquela finíssima camada de flúor agindo enquanto você dorme protege mais.

Cuidado também com o momento errado de escovar. Logo depois de tomar algo ácido, como refrigerante ou suco de laranja, o esmalte fica temporariamente amolecido. Escovar na hora pode desgastá-lo. Espere uns trinta minutos ou beba um copo d'água antes. E a saliva é sua amiga silenciosa: ela neutraliza o ácido naturalmente. Beber água ao longo do dia mantém a boca hidratada e ajuda nesse trabalho de limpeza.

Higiene bucal no acampamento: sem pia, sem desculpa

Acampamento é liberdade, lama, fogueira e comida diferente. Não é folga para os dentes. Com mais marshmallow, suco e guloseima por perto, cuidar da boca importa ainda mais. Monte o bloco de higiene bucal no seu kit pessoal como monta o saco de dormir.

Cada desbravador leva a própria escova e a própria pasta, e ninguém empresta para ninguém. Escova de dente é item individual: compartilhar troca bactérias e até vírus entre a turma, coisa que nem parece, mas acontece. Guarde a sua com a cabeça protegida, mas nunca fechada e molhada dentro de um estojo abafado, porque escova úmida em ambiente sem ar vira criadouro de germe. O ideal é deixá-la secar ao ar, de pé, com as cerdas para cima.

Mesmo sem pia por perto, dá para escovar do mesmo jeito. Use um cantil ou garrafa: molhe a escova, escove com a pasta, cuspa longe da área de comida e do rio, e enxágue com um pouco de água. Se faltar até a pasta em algum momento, escovar só com a escova e água já remove boa parte da placa; melhor isso do que nada. Um lembrete de acampamento veterano: cuspa a espuma no mato, longe da fonte de água que a tropa usa para beber.

Dente quebrado ou arrancado: os minutos que decidem

Bola no rosto, tombo na trilha, esbarrão no jogo. Trauma no dente acontece, e o que a turma faz nos primeiros minutos pode salvar (ou perder) o dente para sempre. Todo desbravador deveria saber isto de cor, é conhecimento que combina com quem cuida dos outros.

Se um dente permanente foi arrancado inteiro (os dentistas chamam de avulsão), o tempo é tudo. Ache o dente e segure pela coroa, a parte branca que fica de fora, nunca pela raiz. Se estiver sujo, lave por no máximo dez segundos em água corrente ou soro, sem esfregar, sem sabão, sem álcool. O passo mais importante: mantenha o dente úmido. O melhor meio é um copo de leite frio; na falta dele, soro fisiológico serve. Nunca guarde o dente seco no bolso ou num papel, porque as células da raiz morrem rápido. E corra ao dentista ou pronto-socorro: as chances de reimplante caem muito depois de trinta minutos fora da boca. (Isso vale para dente permanente. Dente de leite que cai por trauma normalmente não se reimplanta, mas mesmo assim procure avaliação.)

Se o dente apenas quebrou ou lascou, guarde o pedaço também em leite ou soro, faça bochecho leve com água limpa, controle o sangramento com uma gaze e procure atendimento. Uma compressa fria por fora do rosto ajuda a diminuir o inchaço. E o recado que nenhum guia substitui: isto aqui é conscientização, não um curso de primeiros socorros. Em qualquer emergência de verdade, com muito sangramento, desmaio ou trauma na cabeça, chame o SAMU 192. Combina bem estudar isto junto com a Especialidade de RCP.