Imagine que Deus pede para você fazer as malas hoje. Sem dizer o destino. Sem GPS, sem foto do lugar, sem data de chegada. Só uma direção: "vai". Foi exatamente isso que aconteceu com um homem chamado Abrão, lá em Ur dos caldeus, há quase quatro mil anos.
Ele partiu. E por causa daquela obediência sem mapa, ele ficou conhecido para sempre como "o pai da fé". A Bíblia conta a história dele em vários capítulos de Gênesis, e o Novo Testamento volta nela três vezes para dizer a mesma coisa: fé é confiar em Deus antes de ver o resultado.
Este texto percorre a jornada inteira, do chamado ao monte Moriá. Serve para o seu culto pessoal, para uma reunião de Unidade ou para uma noite de fogueira no Clube. Todas as citações foram conferidas na Almeida Revista e Atualizada (ARA).
O chamado: sair de Ur sem endereço
Abrão morava em Ur dos caldeus, uma cidade grande e rica da Mesopotâmia. Tinha casa, família, raízes. Então veio a ordem: "Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei" (Gênesis 12.1, ARA). Repare no detalhe: Deus não disse qual era a terra. Disse apenas "que te mostrarei", no futuro. Abrão teve que começar a andar sem saber onde ia parar.
E ele foi. Gênesis 12.4 registra que Abrão tinha 75 anos quando saiu de Harã. Não era um adolescente cheio de energia querendo aventura. Era um senhor de idade largando a aposentadoria para recomeçar do zero num lugar que nem existia no mapa dele.
Pense no seu próprio Clube. Quantas vezes o Conselheiro pede algo e você quer ver o resultado antes de obedecer? "Por que arrumar a barraca desse jeito? Por que decorar esse versículo?" A fé de Abrão não funcionava assim. Ele confiou em Quem mandava, não no que enxergava. Esse é o primeiro passo de toda caminhada com Deus: obedecer antes de entender.
A promessa das estrelas: 'creu no Senhor'
Anos se passaram e Abrão continuava sem filhos. A promessa de virar "uma grande nação" parecia uma piada, porque nação nenhuma nasce de um casal idoso e sem herdeiros. Foi aí que Deus fez algo inesquecível. Levou Abrão para fora da tenda, à noite, e disse: "Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes", e acrescentou: "Será assim a tua posteridade" (Gênesis 15.5, ARA).
A resposta de Abrão está no versículo seguinte, e é uma das frases mais importantes da Bíblia inteira: "Ele creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça" (Gênesis 15.6, ARA). Ou seja: Abrão não fez nada para merecer. Ele simplesmente acreditou, e Deus considerou aquela confiança como se fosse justiça. É esse versículo que Paulo e Tiago vão citar séculos depois.
Aqui tem uma atividade linda para o Clube. Numa noite de acampamento, longe da luz da cidade, deite no chão com a sua Unidade e tente contar as estrelas. Você desiste rápido. É esse o ponto: a promessa de Deus era grande demais para caber na conta. Se quiser aprofundar essa observação do céu, veja o material da Especialidade de Astronomia.
A espera longa e o atalho de Ismael
Crer uma noite é fácil. Difícil é continuar crendo por 25 anos. E foi mais ou menos esse o tempo entre a promessa e o nascimento do filho prometido. Nesse meio-tempo, Abrão e Sara ficaram cansados de esperar. Resolveram dar uma "ajudinha" a Deus: Sara ofereceu a serva Agar, e dela nasceu Ismael (Gênesis 16). Parecia lógico. Parecia rápido. Mas não era o plano.
O atalho de Ismael trouxe dor, ciúme e conflito para dentro daquela família, coisas que ecoam até hoje. A lição é dura e honesta: quando a espera aperta, a gente é tentado a resolver do nosso jeito, sem esperar o tempo de Deus. Abrão, o pai da fé, também tropeçou nisso. Isso deveria te encorajar: homens de fé erram, e Deus continua com eles.
No Clube isso aparece o tempo todo. Você quer a patente agora, quer a resposta da oração agora, quer que o problema com o amigo se resolva agora. A história de Abrão não diz que esperar é fácil. Diz que vale a pena. Deus não estava atrasado; estava preparando algo que só Ele poderia fazer.
Leia tambémGideão e os 300: quando Deus usa os fracosO nascimento de Isaque: o impossível acontece
Então chegou o dia. "Tinha Abraão cem anos, quando lhe nasceu Isaque, seu filho" (Gênesis 21.5, ARA). Cem anos. Sara já tinha passado muito da idade de ter filhos. Humanamente, era impossível. E é justamente por ser impossível que o milagre fica claro: quem cumpriu a promessa foi Deus, não a força humana.
O nome Isaque significa "ele ri". Sara tinha rido de descrença quando ouviu a notícia; agora ria de alegria. O apóstolo Paulo resume esse momento assim: "Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações" (Romanos 4.18, ARA). "Esperar contra a esperança" é continuar confiando mesmo quando toda lógica diz que acabou.
Guarde essa expressão. Vai chegar um dia na sua vida em que a situação parecerá sem saída: uma doença na família, uma prova impossível, um sonho que morreu. "Esperança contra esperança" é o nome bíblico de continuar orando quando parou de fazer sentido orar. Foi assim que Isaque nasceu.
O monte Moriá: 'o Senhor proverá'
Agora vem o teste mais pesado da Bíblia. Deus pede a Abraão que leve Isaque, o filho da promessa, o filho que ele esperou a vida inteira, e o ofereça em holocausto num monte da terra de Moriá (Gênesis 22). Não é fácil ler isso. Abraão obedece em silêncio, e durante a subida Isaque pergunta onde está o cordeiro para o sacrifício. A resposta do pai é uma das frases mais profundas das Escrituras: "Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto" (Gênesis 22.8, ARA).
No instante final, com a mão erguida, o Anjo do SENHOR interrompe tudo. Abraão vê um carneiro preso pelos chifres num arbusto e o oferece no lugar do filho. Isaque vive. E Abraão dá um nome àquele lugar: "E pôs Abraão por nome àquele lugar o SENHOR proverá; donde se diz até ao dia de hoje: No monte do SENHOR se proverá" (Gênesis 22.14, ARA). Em hebraico, esse nome é Jeová-Jiré (Yahweh-Yireh), que quer dizer "o Senhor proverá".
Repare quando a provisão apareceu: não antes da subida, não no meio do caminho, mas no último segundo, quando não havia mais o que fazer. Deus não prometeu poupar Abraão da montanha. Prometeu prover no topo dela. Para os cristãos, esse carneiro no lugar de Isaque aponta para Jesus, o Cordeiro que morreu no nosso lugar. É uma crença central para os adventistas e para os cristãos em geral, e você pode conversar sobre ela com o seu Diretor ou Pastor sem pressa e sem pressão.
O veredito do Novo Testamento: 'amigo de Deus'
A história de Abraão não fica presa no Antigo Testamento. O Novo Testamento volta nela três vezes para explicar o que é fé de verdade. Hebreus abre a lista dos heróis da fé exatamente com ele: "Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia" (Hebreus 11.8, ARA). "Sem saber aonde ia": a definição perfeita de confiar em Deus.
Paulo, em Romanos 4, usa Abraão para mostrar que ninguém é salvo pelos próprios méritos, e sim por crer em Deus, exatamente como Gênesis 15.6 disse. E Tiago fecha com o título mais bonito que um ser humano já recebeu: "Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus" (Tiago 2.23, ARA).
Amigo de Deus. Não servo distante, não conhecido de vista. Amigo. É o que Deus oferece a você também. Não porque você é perfeito (Abraão não foi, lembra de Ismael?), mas porque você decide confiar. Se você quer entender melhor o que a Bíblia chama de fé, o texto sobre o que é fé continua essa conversa.
O que a jornada de Abraão ensina ao seu Clube
Junte as peças e aparece um mapa da fé em três movimentos. Primeiro: obedecer sem enxergar o fim. Abraão saiu de Ur sem endereço e subiu Moriá sem entender o pedido. Segundo: esperar sem desistir. Foram décadas entre a promessa e Isaque, com tropeços no caminho. Terceiro: confiar na provisão. Deus supre, mas muitas vezes no último instante, no topo do monte.
Isso muda como você vive o Clube e a vida. Quando o Conselheiro te desafia numa tarefa difícil, quando você ora por algo que demora, quando um plano seu desmorona, a pergunta não é "eu consigo ver como isso vai dar certo?". A pergunta é "eu confio em Quem está me guiando?". Abraão respondeu sim a essa pergunta com os pés, andando.
Uma ideia prática para a próxima reunião de Unidade: cada Desbravador escreve num papel uma "Ur" que precisa deixar (um medo, um vício, uma preguiça) e um "monte Moriá" onde precisa confiar (uma situação sem saída). Guardem os papéis e leiam de novo daqui a alguns meses. Você vai ver, como Abraão viu, que Jeová-Jiré, o Senhor que provê, estava trabalhando o tempo todo.