É a mesma cena todo fim de ano. A Comissão de Nomeações definiu a diretoria do ano que vem, e aí vem a segunda leva de perguntas, quase sempre sem resposta pronta. Onde estão as barracas e as cordas? Quanto tem no caixa do clube? Qual é a senha do SGC? Cadê o livro de atas e a lista de membros? A diretoria que entra recomeça do zero?

Escolher quem vai dirigir é uma coisa. Passar o clube de uma mão para a outra é outra, e é aqui que a maioria dos clubes tropeça, porque ninguém junta em um lugar só o que precisa ser entregue. O resultado é conhecido: material que some, dívida que aparece em março, um cadastro de menor perdido, uma diretoria nova travada por causa de um acesso que ficou com quem saiu.

Este artigo trata só da passagem de gestão, o handover. Não é sobre quem escolhe a diretoria (isso é a Comissão de Nomeações), nem sobre o cargo de diretor em si (veja como ser diretor). É sobre o que a diretoria que sai entrega e a que entra recebe: inventário, contas, senhas, arquivos, histórico e posse. Cada bloco vem com o que o Manual Administrativo do Clube de Desbravadores (edição 2020, DSA) determina, o que fica a critério da sua igreja e o que é só bom senso. Dados apurados em 23/07/2026 nas fontes oficiais listadas no fim.

Por que a passagem de gestão trava tanto?

Publicidadeprevia

Porque quase todo clube trata a troca como um evento social, um jantar, uma foto, um "obrigado pela dedicação", e esquece que é, antes de tudo, uma transferência de responsabilidade e de bens. Quando a parte administrativa não é feita, a conta chega depois: em fevereiro, quando falta uma barraca no acampamento; em março, quando aparece uma fatura que ninguém lançou; em abril, quando a diretoria nova descobre que não consegue nem entrar no sistema para inscrever o clube em um evento.

O Manual Administrativo não deixa isso por conta da sorte. Ele cria uma exigência anual justamente pensando na troca. Sobre o patrimônio do clube, o texto é direto: ele deve ser registrado e votado pela Comissão da Igreja local, anualmente, e o principal motivo é "para que, durante as mudanças de direção, nada se perca". Ou seja: a passagem de gestão não é uma boa prática que alguém inventou, parte dela é norma escrita, com data marcada, todo ano.

Para não misturar as coisas, vale separar três camadas ao longo deste guia. Tem o que é norma da DSA (o registro do patrimônio, o caminho do dinheiro, a indicação anual da diretoria). Tem o que é decisão da sua igreja e do seu clube (o formato do inventário, o calendário da entrega, quem confere o quê). E tem o que é só prática de quem já passou por isso, nenhuma norma manda, mas ignorar custa caro. Quando algo não estiver escrito em lugar nenhum, este artigo avisa.

Quando a diretoria muda, e quem entra no lugar?

Aqui mora a primeira confusão. A diretoria que sai não escolhe a que entra. O Manual Administrativo é claro: "a indicação do Diretor e Diretores Associados é realizada anualmente pela Comissão de Nomeações da Igreja local" (cap. 3.3.1). Repare no "anualmente": no papel, a diretoria é definida a cada ano, mesmo quando as mesmas pessoas continuam. Não existe mandato automático que se estica sozinho.

E se alguém sai no meio do caminho? "Em caso de desistência, mudança de cidade ou qualquer fator que os impeça de exercer o cargo, cabe à Comissão da Igreja local definir seus substitutos." Ou seja, tanto a troca de fim de ano quanto a substituição no meio do ano passam pela igreja, não são resolvidas dentro do clube, entre amigos. Quem decide quem assume é a Comissão de Nomeações e a Comissão da Igreja; o passo a passo dessa escolha está em como funciona a Comissão de Nomeações.

Quem vai assumir precisa caber no perfil que o Manual descreve para o cargo: ter no mínimo 18 anos, ser membro regular da Igreja Adventista do Sétimo Dia, concluir o curso de treinamento básico de diretoria e, de preferência, ser investido em líder. Se ainda não for líder, a orientação é iniciar de imediato o cartão de Classes Agrupadas e depois o de Líder. Esses requisitos são do cargo, não da passagem, mas valem o alerta, porque de nada adianta a igreja votar um nome que não pode assinar pelo clube. Para o detalhe do papel, veja como ser diretor.

Guarde a distinção que organiza tudo o que vem a seguir: a Comissão de Nomeações faz a escolha; a passagem de gestão é o que a diretoria antiga e a nova fazem depois que a escolha já saiu. Uma coisa não substitui a outra. Ter o nome votado não coloca uma barraca na mão de ninguém.

Inventário: o que é do clube não vai embora com ninguém

Este é o coração da passagem, e é onde a norma é mais firme. Os bens do clube são do clube, não do diretor que comprou, não da família que doou a barraca, não da unidade que arrecadou. Barracas, cordas, machadinhas, caixa de som, cozinha de camping, bandeiras: tudo tem dono, e o dono é o clube.

Por isso o patrimônio precisa estar, nas palavras do Manual, "devidamente registrado e votado pela Comissão da Igreja local, anualmente". São dois motivos. O primeiro você já viu: que nada se perca na mudança de direção. O segundo é prático e quase ninguém lembra, o seguro patrimonial da igreja. Como os equipamentos costumam ficar guardados numa sala do prédio da igreja, se houver um furto, um dos documentos exigidos para o seguro ressarcir o bem é justamente o registro de patrimônio votado pela Comissão. Sem lista votada, não há indenização.

O registro de cada item pede cinco dados básicos:

Campo do registro de patrimônioExemplo
Nome do itemBarraca iglu 4 pessoas
DescriçãoCor verde, com sobreteto e estacas
Estado de conservaçãoBom / usada uma temporada
Valor estimadoR$ 450,00
Data de aquisição03/2025

E tem um detalhe que muita gente deixa de fora: itens sem valor comercial também entram na lista. O Manual cita expressamente livro de atas, livro de atos, troféus, álbuns fotográficos e pastas de secretaria, nesses casos, sem preencher o valor estimado. A memória do clube é patrimônio tanto quanto a barraca. É comum um álbum de vinte anos sumir numa troca de diretoria simplesmente porque ninguém o considerou "um bem".

Na prática da entrega, a regra de ouro é conferir item a item, com a lista votada na mão, junto com alguém da diretoria que entra. E, sempre que o clube adquire um bem de maior valor, a lista deve ser atualizada e passada de novo na Comissão da Igreja, independentemente do mês. Não espere dezembro para descobrir o que existe.

Leia tambémControle de patrimônio do clube

As contas: por que o dinheiro do clube está na tesouraria da igreja

Se você imagina a passagem das contas como o tesoureiro entregando um envelope de dinheiro ao próximo, esqueça. O Manual desenha outra coisa. O tesoureiro do clube "deve trabalhar em conjunto com o Tesoureiro da Igreja, de forma a manter todo o caixa do Clube conjunto com o caixa da Igreja". E mais: toda receita do clube "deve ser transferida imediatamente para a tesouraria da Igreja", onde fica guardada como reserva para uso exclusivo do Clube de Desbravadores.

Isso muda completamente o que significa "fechar as contas" na troca. O dinheiro do clube, oficialmente, não está com uma pessoa, está na tesouraria da igreja, com destino carimbado para o clube. Fechar as contas na passagem é, então, acertar o saldo com o tesoureiro da igreja, não abrir um cofre. Isso protege a diretoria que sai de suspeita e a que entra de herdar um rombo invisível.

O que precisa estar em ordem para essa conferência bater:

  • O registro de entradas e saídas, pode ser livro caixa de papelaria, planilha ou sistema online, tanto faz. A exigência do Manual é que todas as entradas e todas as saídas estejam lançadas.
  • As notas fiscais e comprovantes, arquivados organizadamente, mês a mês. Toda receita e toda despesa, da mensalidade recebida à compra de uma corda, deve ter comprovante anexado.
  • Os balancetes mensais. O tesoureiro emite mensalmente um balanço das finanças para a Comissão Executiva; na troca, o último balancete fechado é o ponto de partida da conferência.

Um ponto que evita briga: como o caixa é conjunto com o da igreja, o saldo do clube pode ser confirmado direto com a tesouraria da igreja. Se a diretoria que sai deixou tudo lançado e transferido, esse número bate na hora. Se não deixou, a diretoria que entra descobre exatamente onde estão os buracos, antes de assumir a culpa por eles.

Senhas e acesso: o SGC não é conta pessoal

Publicidadeprevia

O sistema oficial que registra o clube é o SGC, o Sistema de Gerenciamento de Clubes da DSA. É nele que ficam o cadastro dos membros, o seguro anual e o histórico de classes e especialidades. E aqui está o erro mais comum da passagem: tratar o login do SGC como uma senha particular que se entrega num papelzinho.

Não é. O SGC tem seis níveis de acesso, DSA, Uniões, Campos (Associações/Missões), Regionais, Distritais e Diretoria de Clubes, e o acesso da diretoria é gerido pelo Campo. Na prática, isso significa que a diretoria que entra deve obter o próprio acesso, procurando a secretária de Desbravadores e Aventureiros do seu Campo, e não simplesmente reutilizar o login de quem saiu. Herdar uma senha antiga é receita de dor de cabeça: fica no nome da pessoa errada, e ninguém sabe quem alterou o quê.

O jeito certo, então, tem duas mãos: a diretoria que sai não guarda o acesso para si depois de entregar o clube, e a diretoria que entra formaliza o próprio cadastro junto ao Campo. Enquanto isso não é feito, o clube pode ficar sem conseguir renovar o seguro anual ou inscrever membros em eventos, travas reais que aparecem no pior momento.

Há ainda os acessos que não são norma, mas dão o mesmo trabalho se ficarem para trás: e-mail do clube, perfis em redes sociais, número de WhatsApp da diretoria, contas de aplicativos de recado com os pais. Nenhum manual fala deles, mas todos costumam nascer no nome de uma pessoa. Liste esses acessos e transfira administração ou senha na entrega, é bom senso puro. E uma nota honesta sobre ferramentas: o Desbravai ajuda o clube a acompanhar o dia a dia, mas a validação e o registro oficial continuam sempre no SGC.

Arquivos e história: atas, atos, cadastros e cartões

Um clube sem seus arquivos é um clube com amnésia. E vários desses documentos são responsabilidade direta do secretário, que na passagem entrega tudo à secretaria da diretoria seguinte.

O livro de atas é a memória legal do clube: registra os pontos de discussão e os resultados de todas as reuniões das Comissões Executiva e Regular. Pode ser manuscrito ou digitado, mas depois de registrado o secretário deve, junto com o diretor, datar, assinar e manter em arquivo. É esse livro que prova o que foi votado, de um orçamento de acampamento à aprovação do inventário. Perdê-lo numa troca é perder a única prova das decisões do clube.

Ao lado dele andam outros arquivos que passam de mão em mão:

  • Livro de atos, o histórico das atividades já realizadas pelo clube, evento a evento. Não tem formalidade rígida, mas conta a trajetória do clube.
  • Cadastro dos membros, o secretário é responsável pelo registro de todos os membros; mesmo com o cadastro no sistema, o Manual pede uma cópia física guardada na secretaria do clube. Cuidado redobrado aqui: são dados de crianças e adolescentes, que não podem simplesmente circular soltos numa troca.
  • Pastas de secretaria e de campori, livro de ouro, ofícios, tudo o que a secretaria acumulou. Lembre que boa parte disso já está (ou deveria estar) listada no registro de patrimônio, mesmo sem valor comercial.

E os cartões de classe dos desbravadores? Esses não pertencem ao clube nem à diretoria, são do próprio desbravador. Uma troca de diretoria não zera o que cada um já cumpriu; os requisitos assinados continuam valendo. O histórico oficial de classes e especialidades, por sua vez, fica no SGC, que atravessa a mudança de direção sem se apagar. Se quiser entender como esse acervo de classe sobrevive a mudanças, veja ordem das classes e suas exceções.

O checklist da passagem, e quem assina o quê

Junte tudo e a passagem de gestão cabe numa lista de conferência. A tabela abaixo separa o que entregar, para quem, e onde isso encosta na norma:

O que entregar / fecharQuem validaBase
Inventário do patrimônio conferido item a itemComissão da Igreja (registro votado)Manual, cap. 3.6.5, "nada se perca" na mudança de direção
Caixa fechado e saldo batidoTesoureiro da igrejaCaixa do clube é conjunto com o da igreja; receita fica na tesouraria da igreja
Notas fiscais e balancetes organizadosTesoureiro que entra + Comissão ExecutivaTodas as entradas e saídas registradas, comprovantes mês a mês
Acesso ao SGC no nome da nova diretoriaSecretária de Desbravadores do CampoSGC tem 6 níveis de acesso, geridos pelo Campo
Livro de atas, livro de atos e cadastrosSecretário que entraRegistros do clube são do secretário; atas datadas e assinadas
Nova diretoria em exercícioComissão da Igreja / Comissão de NomeaçõesIndicação anual da diretoria pela igreja local

A régua de autoridade, em uma frase: a igreja registra e vota (patrimônio e nova diretoria), o Campo controla o acesso ao SGC, e as duas diretorias, a que sai e a que entra, fazem a conferência do que é do clube. O diretor, por ser eleito pela Comissão de Nomeações, é membro da Comissão da Igreja, e é ali, na comissão, que o inventário e a diretoria nova ganham validade oficial.

Um último conselho de quem já viu passagem virar confusão: deixe rastro por escrito. O inventário aprovado vira uma ata; a conferência do caixa vira um documento assinado pelas duas diretorias e pelo tesoureiro da igreja; a transferência dos acessos vira uma mensagem guardada. Não porque alguém desconfie de alguém, mas porque, um ano depois, ninguém lembra de combinado que não ficou escrito. A passagem bem-feita é o presente mais generoso que uma diretoria pode deixar para a próxima: um clube inteiro, sem buracos.