Todo diretor, conselheiro e instrutor vai enfrentar isso uma vez: alguém passa mal na sua frente e todos os olhos se voltam para você. E vem a dúvida que trava o corpo por um instante fatal — chamo o SAMU ou coloco no carro e levo?
Não é uma pergunta de curiosidade. É uma decisão clínica que você, cidadão comum, precisa saber tomar antes de precisar. Em algumas emergências, os minutos que a ambulância leva chegam com um socorrista dentro; em outras, insistir em levar por conta própria custa caro. Saber diferenciar as duas coisas é o que separa o pânico da ação.
Este guia é sobre o cidadão-socorrista, não sobre o protocolo do clube — o plano de emergência da diretoria a gente trata em outra página. Aqui é o essencial de campo: quando o 192 é o número certo, o que falar no telefone para o socorro não se perder, e o que fazer com as mãos enquanto a ambulância não chega. Informações apuradas em 23/07/2026 nas fontes oficiais do Ministério da Saúde listadas no fim. Nada aqui substitui um curso de primeiros socorros nem a orientação do médico regulador na hora.
O que é o SAMU 192 — e o que ele não é?
O SAMU é o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o braço do SUS que leva o socorro até você antes do hospital. Você aciona pelo número 192, a ligação é gratuita — do telefone fixo ou do celular — e funciona 24 horas por dia, todos os dias, segundo o Ministério da Saúde.
Tem um detalhe que muita gente não sabe e que muda tudo: quem atende o 192 não é um atendente qualquer, é uma central de regulação médica. Primeiro um técnico anota onde você está e o que houve; em seguida a ligação vai para o médico regulador, um médico que avalia o caso pelo telefone, decide se manda ambulância (e qual), e orienta você a socorrer enquanto ela não chega. Por isso a próxima seção insiste tanto em não desligar: você está falando com um médico, não pedindo um táxi.
O SAMU atende urgências de vários tipos — clínicas (como infarto e AVC), traumáticas (acidentes), cirúrgicas, obstétricas (parto de risco), pediátricas e psiquiátricas, incluindo tentativa de suicídio. É o número para o que é grave e agudo.
E o que ele não é: o SAMU não é pronto-socorro por telefone nem consulta em casa. O próprio Ministério da Saúde orienta que ele não seja acionado para febre prolongada, dor crônica, vômito ou diarreia sem gravidade, receita, exame ou consulta de rotina. Para isso existem a UBS (posto de saúde) e a UPA (unidade de pronto atendimento). Ligar 192 para o que não é urgência ocupa a linha de quem está tendo um infarto neste minuto.
Quais sinais não podem esperar e mandam ligar 192?
A regra de ouro cabe em uma frase: é súbito, é grave, ou piora rápido? Ligue. Você não precisa ter certeza do diagnóstico — quem diagnostica é o médico regulador. Você precisa reconhecer o sinal de alarme.
O Ministério da Saúde lista, entre as situações para acionar o 192: dor forte no peito (pode ser infarto), sinais de AVC (o popular derrame), falta de ar intensa, convulsão, queimadura grave, choque elétrico, acidente com vítima, queda com pancada na cabeça ou com fratura, e a mais grave de todas — a parada, quando a pessoa não responde e não respira.
Para o AVC, guarde um teste que salva tempo, o SAMU do rosto (mesmo nome, coincidência útil): peça para a pessoa Sorrir, Abraçar (erguer os dois braços) e cantar ou repetir uma frase (M de Música). Rosto que fica torto de um lado, um braço que cai, fala enrolada — qualquer um dos três, ligue 192 na hora (o U de Urgência) e anote a que horas os sinais começaram. Esse horário é ouro para o hospital.
| Sinal que você vê | Pode ser | Conduta |
|---|---|---|
| Não responde e não respira (ou só "engasga") | Parada cardiorrespiratória | 192 já e comece as compressões (seção adiante) |
| Rosto torto, braço caído, fala enrolada | AVC | 192 e anote o horário de início |
| Dor forte no peito, suor frio, dor no braço | Infarto | 192 e mantenha a pessoa em repouso |
| Falta de ar intensa, lábios roxos | Emergência respiratória | 192 e afrouxe roupas apertadas |
| Convulsão que não cede ou primeira da vida | Crise convulsiva | 192, proteja a cabeça, não segure a pessoa |
| Acidente, queda de altura, vítima presa | Trauma | 192 e também 193 (Bombeiros) |
Na dúvida entre ligar ou não ligar, ligue. É melhor o médico regulador dizer que não precisa de ambulância do que uma emergência de verdade ficar esperando alguém "ter certeza".
192, 193 ou 190: qual número em cada emergência?
Ligar para o número certo economiza os minutos que a central gastaria transferindo você. A divisão prática é esta:
| Número | Serviço | Quando é a melhor porta de entrada |
|---|---|---|
| 192 | SAMU | Problema de saúde: mal súbito, infarto, AVC, desmaio, convulsão, queimadura, parada |
| 193 | Corpo de Bombeiros | Trauma e resgate: acidente com vítima presa em ferragens, queda de altura, afogamento, incêndio, salvamento |
| 190 | Polícia Militar | Segurança: violência, agressão, ameaça, situação de risco por terceiros |
A fronteira mais confusa é entre o 192 e o 193, e a chave é a palavra trauma. Mal súbito sem acidente — a pessoa passou mal, desmaiou, sentiu o peito — é território do SAMU. Já um acidente em que a vítima pode ter machucado a coluna, quebrado um osso, ficou presa nas ferragens ou está perto de fogo é situação em que o Corpo de Bombeiros, treinado em resgate, precisa entrar.
E o mais importante: não são rivais. Em muitos acidentes, o certo é acionar os dois e detalhar a cena — as duas equipes se complementam, os Bombeiros para o resgate e o SAMU para o cuidado com a vítima. Se você ligou para o número "errado", tudo bem: a central redireciona. O erro grave não é discar 193 em vez de 192; é não discar nada.
O que falar no telefone para o socorro não se perder?
A ambulância só é rápida se ela souber para onde ir e o que vai encontrar. Fale com calma e seja objetivo. O Ministério da Saúde orienta informar, no mínimo:
- O endereço completo — e pelo menos dois pontos de referência. Numa chácara ou num acampamento sem número na porta, isso é o que salva: "estrada tal, km 8, portão azul depois do posto, em frente ao campo de futebol".
- O que aconteceu, com clareza. "Homem de uns 50 anos, caiu, está inconsciente e respirando com dificuldade" diz mais do que "vem correndo".
- Quantas vítimas e a idade aproximada de cada uma. Isso define o tipo e o número de ambulâncias.
- O que a pessoa está sentindo e, se você souber, doenças que ela já tem (diabetes, coração, epilepsia) e remédios de uso contínuo.
Depois de passar isso, faça a única coisa que mais gente esquece no susto: não desligue. Responda às perguntas do médico regulador e siga as orientações dele passo a passo. É ele quem vai te guiar nas compressões, te dizer se pode dar água (quase sempre não), se vira a pessoa de lado, se afrouxa a roupa. Você não está sozinho no telefone — tem um médico do outro lado, e ele só consegue ajudar se você ficar na linha.
Dica de campo para o clube: deixe o endereço exato do local de reunião e do acampamento escrito e colado perto de onde ficam os celulares dos líderes, com os pontos de referência já prontos. No meio de uma emergência, ninguém lembra o CEP nem sabe descrever a estrada de terra. Ler é mais rápido e mais seguro do que tentar lembrar.
Leia tambémEngasgo e manobra de Heimlich no clubeO socorro está a caminho: o que fazer enquanto ele não chega?
Os primeiros minutos são seus. O que você faz com as mãos até a ambulância chegar pesa muito no resultado — e o médico regulador vai te orientar em tempo real. Alguns princípios gerais que valem para a maioria das cenas:
Garanta a segurança primeiro. Antes de tocar na vítima, olhe a cena: trânsito, fiação caída, fogo, água. Socorrista que vira segunda vítima não ajuda ninguém. Se houver risco, afaste o perigo ou espere quem tem equipamento.
Se a pessoa não responde e não respira, é parada — e aqui você age. Peça para alguém ligar 192 enquanto você começa. Deite a vítima de costas numa superfície firme e faça compressões no meio do peito: as diretrizes de reanimação recomendam ao leigo comprimir forte e rápido, numa frequência de 100 a 120 compressões por minuto e cerca de 5 a 6 cm de profundidade no adulto, deixando o peito voltar por completo entre uma e outra. Não pare até o socorro assumir. Se houver um DEA (desfibrilador, aquele aparelho em shoppings e aeroportos) por perto, ligue e siga as instruções faladas por ele — é feito para leigo usar.
Convulsão: não segure a pessoa nem coloque nada na boca. Afaste objetos, proteja a cabeça com algo macio, e quando a crise passar vire de lado. Cronometre quanto durou — o médico vai perguntar.
Engasgo com a pessoa sem conseguir respirar, tossir ou falar: aplique compressões firmes no abdome, acima do umbigo, puxando para dentro e para cima (a manobra de Heimlich), até o objeto sair. Bebês têm técnica diferente — outro motivo para todo líder fazer um curso presencial.
Sangramento: pressione o ferimento com um pano limpo, com firmeza e sem ficar espiando a cada segundo. A maioria das hemorragias externas cede com pressão direta e constante.
Repare no fio condutor: nas dúvidas todas, a resposta é a mesma — o médico regulador te orienta. Este guia não substitui um curso de primeiros socorros, e um clube que leva crianças a acampamento deveria ter mais de um líder treinado de verdade.
O que você nunca deve fazer numa emergência?
Boa parte do estrago em socorro leigo vem de gestos bem-intencionados. Guarde esta lista tanto quanto a dos sinais de alarme:
- Nunca mova uma vítima de acidente com suspeita de lesão na coluna — a menos que ela corra risco imediato de morte ali (fogo, afogamento). Mexer no pescoço de quem caiu de altura ou se acidentou pode transformar uma lesão em paralisia. Nesse caso, é o 193 (Bombeiros), com equipamento de imobilização, que remove.
- Nunca transporte por conta própria quem está em parada. A orientação dos serviços de urgência é clara: vítima de parada cardiorrespiratória não deve ser jogada no carro e levada — ela precisa de reanimação contínua no local até a equipe chegar. Correr para o hospital com o corpo interrompe a única coisa que a mantém viva.
- Não dê água, comida nem remédio a quem desmaiou, convulsionou ou pode precisar de cirurgia, sem o médico autorizar. Você pode causar engasgo ou atrapalhar o atendimento.
- Não coloque nada na boca de quem convulsiona. A velha crença de "segurar a língua" com colher quebra dentes e machuca — a língua não é engolida.
- Não passe pasta de dente, manteiga, pó de café ou gelo direto na queimadura. Água corrente em temperatura ambiente e proteção limpa; o resto é com a equipe.
- Não desligue o 192 antes de o médico regulador liberar, e não ligue "para testar" nem passe trote — trote em número de emergência é crime e pode custar a vida de outra pessoa.
Se você só decorar duas coisas desta página, que sejam estas: ligue cedo e não mova o que não deve ser movido. O resto o médico regulador constrói com você pelo telefone.
Como o clube se prepara para acionar o 192 sem pânico?
O momento de aprender a chamar o SAMU não é durante a emergência. É antes — numa reunião de diretoria comum, com café na mesa. Cinco combinados simples poupam segundos preciosos:
1. Endereço pronto e por escrito. Do salão de reunião e de cada local de acampamento, com dois pontos de referência já formulados. Cole no mural e salve no celular dos líderes. Você já leu isso aqui em cima — é a repetição mais barata de fazer e a que mais salva.
2. Um responsável definido por chamar o 192. Na hora do susto, se "todo mundo" é responsável, ninguém liga. Combine antes: quem liga, quem vai ao portão receber a ambulância e sinalizar, quem cuida das outras crianças para não virar tumulto.
3. Ficha de saúde de cada desbravador acessível. Alergias, doenças, remédios de uso contínuo e o contato dos pais. É o que o médico regulador vai querer saber e o que os pais precisam ser avisados na sequência.
4. Pelo menos dois líderes com curso de primeiros socorros de verdade — presencial, com prática de RCP em manequim. A especialidade de Primeiros Socorros é um ótimo caminho, mas a formação do adulto que responde pelo grupo precisa ser mais robusta que a de um requisito.
5. Kit de primeiros socorros conferido antes de cada saída. De nada adianta a caixa bonita se a atadura acabou no acampamento passado.
Isso é a ponta individual de um plano maior. A estrutura completa — cadeia de decisão, comunicação com os pais, seguro, formulários — está em como montar o plano de emergência do clube. Aqui a mensagem é uma só: quando o corpo de alguém falha na sua frente, saber discar 192, dizer as coisas certas e não fazer as erradas já é meio caminho andado.