A situação quase nunca é dramática no começo. Você saiu para explorar perto do acampamento, seguiu uma trilha bonita, virou uma curva a mais e, quando percebeu, a mata ficou toda igual e o sol começou a descer. Ninguém planeja passar a noite fora. Mesmo assim, saber montar um abrigo com o que está no chão à sua volta é uma das habilidades mais úteis que um Desbravador pode carregar.

Um bom abrigo não precisa ser bonito nem grande. Ele precisa fazer duas coisas: bloquear o vento e a chuva por cima, e separar o seu corpo da terra por baixo. A segunda parte é a que quase todo mundo esquece, e é justamente a mais importante. O chão frio rouba o calor do seu corpo muito mais rápido do que o ar gelado da noite.

Este guia mostra como escolher o lugar certo, como isolar o solo e como montar quatro tipos de abrigo sem barraca. Serve para uma atividade de Especialidade no Clube, para um treino de fim de semana com a Unidade e, se um dia precisar de verdade, para manter você seguro até a ajuda chegar.

Por que o abrigo vem antes de tudo

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Existe uma conta simples que os instrutores de sobrevivência chamam de regra dos 3. Você resiste cerca de 3 minutos sem ar, cerca de 3 horas exposto ao frio intenso e ao vento, cerca de 3 dias sem água e cerca de 3 semanas sem comida. Repare na ordem. O abrigo aparece logo depois do ar, muito antes da sede e da fome.

Isso surpreende quem imagina que sobreviver é caçar e achar água. Na prática, em situações reais de gente perdida, a hipotermia (queda perigosa da temperatura do corpo) mata mais rápido e com mais frequência do que a falta de comida. Uma noite fria de chuva com vento pode derrubar seu corpo em poucas horas, mesmo em regiões que não são geladas.

Por isso a decisão certa, quando você percebe que vai passar a noite fora, é parar enquanto ainda há luz e montar o abrigo. Deixe para procurar água depois de estar protegido. Construir no escuro é lento, perigoso e cansa muito mais, e o cansaço também esfria o corpo.

Uma última ideia antes de escolher o local: fique perto de onde você se perdeu, se for seguro. As equipes de busca procuram a partir do seu último ponto conhecido. Um abrigo visível, num lugar aberto o suficiente para ser avistado, ajuda o resgate.

Escolher o local: o passo que evita o desastre

Antes de juntar o primeiro galho, olhe em volta com atenção. Um abrigo perfeito no lugar errado vira uma armadilha. Comece pela água. Nunca monte no fundo de uma ravina, na beira de um riacho ou numa depressão do terreno. À noite, ou com uma chuva forte lá em cima, esses lugares podem encher de água em minutos. Suba um pouco, procure um terreno levemente mais alto e plano.

Agora olhe para cima. Galhos grandes secos, presos ou pendurados nas árvores, são chamados pelos guias de "fazedores de viúvas" porque caem sem aviso, de noite, com o vento. Não arme embaixo de nenhum. Da mesma forma, evite árvores mortas inteiras, que podem tombar.

Olhe para baixo e para os lados. Formigueiros, cupinzeiros, buracos de animais e trilhas de insetos estragam a noite e podem ser perigosos. Afaste-se deles. Passe a mão no chão: você quer um lugar seco, sem ser o ponto onde a água vai escorrer.

Sinta também o vento. Descubra de que lado ele sopra e posicione a parte fechada do seu abrigo contra ele, deixando a abertura para o lado protegido. Se houver uma pedra grande, um barranco ou moitas densas que já cortem o vento, use isso a seu favor e economize trabalho.

O erro que mais custa caro: dormir na terra

Guarde esta frase: o chão rouba mais calor que o ar frio. Quando você deita direto na terra, seu corpo está em contato com uma superfície enorme e fria, e o calor escapa por condução, que é a transferência de calor por toque. Em campo, o solo frio puxa o seu calor muito mais rápido do que o ar parado na mesma temperatura. É por isso que gente que se cobre bem por cima ainda passa frio: o problema está por baixo.

A solução não custa nada e está no chão à sua volta. Junte uma pilha generosa de folhas secas, capim, samambaias, cascas, galhos finos e agulhas de pinheiro, e faça uma cama. Ela precisa ser grossa. Depois de você deitar e amassar o material, ainda devem sobrar uns 15 a 20 centímetros entre suas costas e a terra, mais ou menos a altura de um palmo e meio. Prefira material bem seco, porque folha molhada isola pouco.

Monte a cama do tamanho do seu corpo, dos ombros até um pouco abaixo dos joelhos. Encoste as laterais em troncos ou pedras para o material não se espalhar durante a noite. Se tiver uma mochila vazia, coloque os pés dentro dela; é mais um ponto de isolamento.

Regra de ouro na construção de qualquer abrigo: faça a cama primeiro, antes do teto. Muita gente gasta a energia toda no telhado, deita exausta na terra nua e passa a pior noite da vida. O isolamento do solo é a metade do trabalho que ninguém vê e a que mais importa.

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Abrigo em A com lona ou poncho

Se você tem uma lona, capa de chuva, poncho ou até um saco plástico grande na mochila, este é o abrigo mais rápido de armar. A ideia é formar um túnel em formato de A, que escorre a chuva pelos dois lados.

Ache dois pontos de apoio, duas árvores próximas ou dois galhos fincados em Y. Entre eles, amarre bem esticada uma corda ou cordão, na altura da sua cintura quando estiver deitado. Essa linha central é a espinha do abrigo. Se souber uma boa amarra, o cordão fica firme mesmo com vento, e vale treinar isso antes na Especialidade de nós e amarras.

Jogue a lona por cima dessa corda, de modo que os dois lados desçam até o chão formando o A. Estique bem cada lado e prenda as bordas no solo com pedras, estacas de madeira ou troncos por cima. Quanto mais esticada a lona, menos ela balança e menos água acumula.

Feche um dos lados menores do túnel contra o vento, usando a própria lona dobrada, uma mochila ou um monte de galhos e folhas. Deixe a outra ponta como entrada. E não esqueça: mesmo com lona, monte a cama de folhas por dentro. A lona protege do vento e da chuva, mas não isola o chão.

Cabana de folhas (debris hut): o modelo sem nada nas mãos

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Este é o abrigo para quando você não tem lona, corda nem canivete, só a mata. Ele funciona como um casulo de folhas que guarda o calor do seu próprio corpo, e é o mais quente dos modelos naturais quando bem feito.

Comece pela viga principal. Ache um galho reto e forte, um pouco mais comprido que a sua altura. Apoie uma ponta dele num toco, numa pedra ou na forquilha de uma árvore baixa, na altura do seu quadril, e deixe a outra ponta no chão. Essa viga inclinada é a coluna do abrigo. Deite ao lado dela para conferir: o espaço embaixo precisa caber só você, apertado, sem sobra.

Agora encoste galhos das laterais na viga, como as costelas de um peixe, formando as duas paredes inclinadas. Feche bem juntinho, deixando só a entrada por baixo da ponta mais alta. Por cima dessas costelas, jogue galhinhos finos e ramos para segurar o material seguinte.

Cubra tudo com uma montanha de folhas secas, capim e galhada. Bastante mesmo: a parede precisa ter, no mínimo, a espessura de um braço, uns 30 a 60 centímetros de folhas soltas. É essa massa que segura o calor. Encha o interior de folhas secas também, para você se enfiar dentro como num saco de dormir. Tampe a entrada com uma mochila ou um bolo de folhas depois de entrar. Feito com capricho, esse abrigo aquece mesmo em noite fria.

Abrigo apoiado em tronco caído

A natureza às vezes já deixou metade do trabalho pronto. Um tronco grande caído, uma raiz levantada de árvore tombada ou uma pedra grande servem de parede pronta e poupam sua energia, que é preciosa quando você está cansado e com frio.

Escolha um tronco caído firme e grosso. Do lado protegido do vento, encoste galhos na diagonal, uma ponta no chão e a outra apoiada em cima do tronco, formando um telhado inclinado de um lado só. É o clássico abrigo de meia-água, rápido e eficiente. Cubra esse telhado de galhos com bastante folhagem, do jeito da cabana de folhas, até não passar luz por dentro.

Se o vão embaixo do tronco já for um pequeno buraco natural, melhor ainda: você só precisa fechar as laterais e cobrir a frente, deixando uma entrada pequena. Cheque sempre se o tronco está estável e não vai rolar sobre você.

Vale o mesmo lembrete dos outros modelos. O tronco resolve uma parede, o teto de galhos resolve a chuva e o vento, mas o chão continua sendo seu inimigo. Forre o interior com a cama grossa de folhas antes de deitar.

Tamanho certo, limites e a casa sobre a rocha

Um instinto natural atrapalha aqui: a vontade de fazer um abrigo espaçoso e confortável. Faça o contrário. Quanto menor o espaço interno, menos ar frio o seu corpo precisa aquecer, e mais rápido você fica quente. O abrigo ideal é do tamanho do seu corpo deitado, apertado. Se estiver em grupo, deitem colados, porque o calor de um aquece o outro, e essa é uma das razões de a gente nunca sair sozinho no Clube.

Conheça também os limites desta habilidade. Montar abrigo serve para emergência e para treino supervisionado, nunca para uma aventura solo por conta própria. Em qualquer atividade do Clube, siga o Conselheiro e o plano da Unidade, avise sempre para onde vai e nunca se afaste do grupo. Se alguém apresentar tremores fortes, confusão, fala arrastada ou muito sono no frio, isso pode ser hipotermia: aqueça a pessoa, isole do chão e busque ajuda. Em qualquer emergência de saúde, o número do SAMU no Brasil é 192.

Tem uma imagem antiga que combina demais com o que você acabou de aprender. Jesus contou sobre dois homens: um construiu a casa sobre a rocha e outro sobre a areia. Quando veio a tempestade, uma ficou de pé. Nas palavras dele: "quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como o homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha" (Mateus 7.24-25, NVI). Escolher o alicerce certo é tudo, na mata e na vida.

O Salmo 91.1 completa a ideia de abrigo com uma imagem de confiança: "O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente" (ARA). Para os adventistas, e essa é uma crença que a gente apresenta com respeito, sem impor a ninguém, Deus é esse refúgio seguro. Você aprende a construir abrigo com as mãos, e aprende também onde a alma encontra descanso quando a tempestade aperta.