Você chega no acampamento e o chão é só pedra, raiz e barro molhado da chuva de ontem. Não tem um metro plano para armar barraca. É exatamente aí que a rede brilha. Ela não precisa de solo: precisa de duas árvores firmes e um pouco de técnica.
Mas tem uma armadilha. A maioria dos Desbravadores tenta a primeira noite de rede, se anima, e acorda tremendo de madrugada, mesmo em noite quente. Culpa o saco de dormir, culpa a rede, jura que nunca mais. O problema não é nenhum dos dois. É física, e tem solução simples.
Este guia monta o sistema inteiro com você: rede, sobreteto, cordeletes, escolha das árvores, o jeito certo de deitar e, principalmente, como não passar frio. Leia até o fim antes da primeira noite suspensa.
As quatro partes do sistema de rede
Acampar de rede não é pendurar uma rede de varanda entre dois postes. É um sistema com peças que trabalham juntas. Entender cada uma evita improviso perigoso.
A primeira peça é a rede em si: um tecido de náilon ou poliéster resistente, feito para suportar seu peso com folga. A segunda é o sobreteto, também chamado de tarp: uma lona impermeável que arma por cima e protege da chuva e do orvalho. A terceira são os cordeletes de suspensão, que ligam a rede às árvores; hoje a maioria usa cintas de fita larga com alças costuradas. A quarta são os esticadores e estacas do tarp, que abrem a lona e a fixam no chão.
Pense assim: a rede te segura, o tarp te cobre, os cordeletes te ancoram e os esticadores mantêm tudo esticado. Falta uma peça e a noite vira sofrimento. Falta o tarp e a primeira chuva te encharca. Falta uma cinta boa e você fere a árvore ou cai.
Antes de sair, monte o sistema inteiro no quintal ou no salão do Clube, à luz do dia. Ninguém deve estrear a montagem no escuro, no mato, com sono. A Especialidade só faz sentido quando a mão já conhece cada peça.
Escolher e proteger as árvores
A rede depende inteiramente das árvores. Escolha errado e você cai, ou machuca a planta que te hospedou. Escolha certo e dorme tranquilo.
Procure duas árvores vivas, de tronco firme e grosso, com pelo menos um palmo e meio de diâmetro cada. Nada de árvore seca, morta, oca ou inclinada demais: ela pode partir com seu peso. Evite árvores com formigueiro, cupim ou galhos secos pendurados por cima, o famoso galho que pode cair na sua cabeça. A distância ideal entre elas costuma ser de quatro a cinco metros.
Proteja sempre a casca. Use cintas de fita larga, de 2,5 cm ou mais de largura. Fita fina e cordão de náilon cortam a casca como serra e podem estrangular o tronco, o chamado anelamento, que interrompe a seiva e mata a árvore. Cinta larga distribui a força e é o padrão respeitoso, o que a comunidade chama de tree-friendly. Muitos parques exigem isso por regra.
O ângulo importa. As cintas devem sair da árvore com cerca de 30 graus em relação à horizontal, não retas nem penduradas frouxas demais. Esse ângulo dá a curvatura certa para você deitar plano e reduz a tensão no tecido. E deixe a rede baixa: o ponto mais fundo, onde seu quadril fica, precisa parar a uns 45 cm do chão. Quanto mais alto, pior a queda.
Montagem passo a passo e os nós úteis
Com as árvores escolhidas, monte na ordem. Primeiro passe as cintas nas duas árvores, na altura certa, mais ou menos na linha dos seus ombros quando você está em pé. Conecte a rede a cada cinta pelo sistema dela (mosquetão, elo ou nó, conforme o modelo). Sente com cuidado no centro antes de confiar o peso todo: teste a firmeza.
Depois arme o tarp por cima, na linha da cumeeira que passa acima da rede. Estenda a lona e fixe as pontas com os esticadores e estacas, deixando bem esticado para a chuva escorrer. Por último, ajuste a altura e o ângulo até a rede te acolher plano.
Os nós fazem diferença quando falta peça pronta. Para a linha de cumeeira do tarp, o nó de lais de guia (que forma uma alça fixa que não corre) é um clássico. Para tensionar e soltar rápido, servem as voltas ajustáveis do tipo boca de lobo com cote. Se você ainda tropeça nos nós, vale treinar antes com o nosso guia de nós e amarras.
O nó certo é segurança, não enfeite. Um cordelete mal amarrado que solta às três da manhã acaba com a noite de todo mundo. Treine com o Conselheiro até a mão fazer sozinha, no escuro.
Leia tambémO que fazer se você se perder na mataO erro do iniciante: o frio que vem de baixo
Aqui está a lição mais importante do artigo, a que separa quem ama rede de quem desiste dela. Quase todo iniciante prepara um saco de dormir excelente, deita, e acorda gelado das costas mesmo numa noite morna. Acha que o saco falhou. Não falhou. Foi usado no lugar errado.
O calor de um saco de dormir vem do ar preso entre as fibras, o chamado enchimento inflado, ou loft. Esse ar é aquecido pelo seu corpo e forma uma camada isolante. Só que, quando você deita, todo o seu peso amassa o enchimento embaixo das costas e do quadril. Amassado, ele perde o ar, perde o loft, e para de isolar. O tecido da rede, coladinho nas suas costas, então conduz o frio da noite direto para você. Isso tem até apelido lá fora: síndrome do bumbum gelado.
A solução não vai por dentro, vai por fora ou por baixo. A melhor é o underquilt: um edredom isolante que pendura por baixo da rede, do lado de fora. Como ninguém deita em cima dele, o enchimento fica inflado e cria uma bolha de ar quente embaixo de você. A alternativa barata é o isolante térmico, aquela espuma ou colchonete, colocado dentro da rede entre você e o tecido; ele resiste melhor à compressão que o saco. Muitos combinam isolante embaixo e saco por cima.
Grave a regra: numa rede, o frio ataca as costas, não o peito. Você pode estar de casaco e ainda tremer se não isolar por baixo. Mesmo no verão brasileiro, noite de serra ou de vento pede isolamento inferior. Esse é o segredo que faz a rede virar sono bom.
Deitar na diagonal e ajustar o tarp
Se você deita reto no meio da rede, alinhado com o comprimento, o tecido te dobra feito banana: os pés sobem, o quadril afunda, as costas curvam. É desconfortável e ninguém dorme bem assim. A solução é deitar na diagonal.
Desloque o corpo uns 30 a 45 graus em relação à linha central da rede. A cabeça fica perto de uma borda e os pés perto da borda oposta. Nessa posição o tecido se abre e te apoia quase plano, como uma cama levemente curva. É por isso que a rede precisa de uma barriga funda, com aquele ângulo de 30 graus nas cintas: sem folga não dá para atravessar na diagonal. Experimente no quintal até achar o seu ponto.
O tarp tem dois modos. No modo aberto, você o arma alto e frouxo, ou até recolhe as laterais, para ver o céu, sentir a brisa e reduzir o abafamento em noite seca e quente. No modo chuva, você o baixa e estica bem sobre a rede, cobrindo toda a área e criando um beiral que joga a água longe. Se o céu ameaça, arme sempre no modo chuva desde o começo: ninguém quer sair da rede quente para lutar com a lona na tempestade.
Ajuste também o pé-direito da linha. Uma cumeeira bem esticada faz a água correr e não pingar. E deixe uma abertura para o ar circular, senão o orvalho condensa por dentro e molha tudo, sem uma gota de chuva ter caído.
Segurança: altura, ancoragem e o que não amarrar
A rede é segura quando montada com cabeça, e perigosa quando improvisada. Comece pela altura. Monte baixo: o ponto mais fundo a uns 45 cm do solo. Uma queda de rede alta, no sono, sobre pedra ou raiz, machuca de verdade. Baixa, você só rola no chão e ri.
Inspecione toda a ancoragem antes de confiar o peso. Puxe as cintas com força, cheque se as alças estão bem passadas, olhe se o mosquetão travou, confirme que a árvore não range nem cede. Faça isso de novo se sair e voltar. Nunca deixe criança pequena ou várias pessoas na mesma rede: ela é individual e tem limite de peso.
Preste atenção no que fica em cima. Não arme sob galhos secos, mortos ou rachados, os que os montanhistas chamam de galho da viúva, porque caem sem aviso. E há o que você NÃO deve amarrar: nada de ancorar em cerca, poste de luz, placa, corrimão, árvore fina que verga, ou qualquer coisa que não foi feita para segurar gente. Se balança, se é fino, se é frágil, não serve.
Esta é uma orientação de conscientização, não um curso completo de segurança em altura. Monte sob supervisão de um líder experiente do Clube, respeite o limite de peso do fabricante e as regras do local. Em qualquer emergência ou acidente, ligue para o SAMU no 192.
Por que a rede vence em terreno difícil
Depois de dominar o sistema, você entende por que tanta gente troca a barraca pela rede em certos lugares. A maior vantagem é o terreno. Em chão de pedra, raiz, ladeira ou brejo, onde barraca nenhuma assenta plana, a rede simplesmente ignora o solo. Ela só quer duas árvores.
Solo molhado é outro ganho. Depois de chuva, o chão vira lama e a água escorre por baixo da barraca. Suspenso, você fica acima da poça, longe da umidade que sobe e dos bichos que rastejam. É mais leve para carregar na mochila e, montada com prática, arma rápido.
A rede também protege o lugar. Como você não limpa nem aplaina o terreno, a vegetação embaixo fica intacta. Isso combina com o princípio de deixar o mínimo rastro, tão caro à vida ao ar livre e ao cuidado com a Criação que Deus nos confiou.
Ela não serve para tudo: campo aberto sem árvore, região de vento forte ou frio extremo pedem outra solução. Mas para trilha de mata, acampamento em terreno acidentado e noite quente de verão, a rede é imbatível. Domine essa habilidade e um mundo de lugares antes impossíveis se abre para o seu Clube.