Toda casa tem aquela gaveta: o celular que parou de carregar, o carregador de um aparelho que nem existe mais, o fone com um lado mudo. Uma campanha de lixo eletrônico bem feita tira esse material de casa, leva para quem sabe reciclar e ensina o bairro a descartar do jeito certo. Só que eletrônico pede cuidados que tampinha e óleo de cozinha não pedem: existe lei específica, e muitos aparelhos ainda guardam fotos e senhas de alguém. Este guia mostra o caminho inteiro, da parceria com o ponto oficial à prestação de contas.

O que é lixo eletrônico e por que o Clube deve se envolver?

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Lixo eletrônico é o nome popular dos equipamentos elétricos e eletrônicos no fim da vida útil. O Decreto 10.240, de 12 de fevereiro de 2020, chama esses itens de produtos eletroeletrônicos de uso doméstico, que funcionam com até 240 volts, e lista no Anexo I desde celular, tablet e notebook até cabos, carregadores, fones de ouvido, controle remoto, videogame e pen drive.

Segundo o Global E-waste Monitor 2024, relatório da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e do Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR), o mundo gerou 62 bilhões de quilos de lixo eletrônico em 2022, e só 22,3% desse peso teve coleta e reciclagem formal documentada. O Brasil é o maior gerador da América do Sul, com cerca de 2,4 bilhões de quilos em 2022, e a tabela de países do relatório registra apenas 79 milhões de quilos documentados como coletados e reciclados formalmente no país, pouco mais de 3%.

O aparelho fica na gaveta porque ninguém sabe onde entregar e porque dá trabalho levar. A campanha remove essas duas barreiras. Na campanha de tampinhas e lacres solidários, o material vira renda para uma causa; aqui, o eletrônico segue inteiro para o sistema oficial, e o ganho do Clube está no serviço prestado.

Qual é o descarte correto de lixo eletrônico segundo a lei?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305, de 2 de agosto de 2010), no artigo 33, inciso VI, obriga fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de eletroeletrônicos a estruturar a logística reversa, o caminho de volta do produto depois do uso, independente da coleta da prefeitura. Ao consumidor cabe devolver o produto usado ao comércio ou ao distribuidor (art. 33, § 4º).

O Decreto 10.240/2020 define ponto de recebimento como local fixo ou móvel que recebe e guarda temporariamente os aparelhos, e entidade gestora como a organização criada por fabricantes e importadores para operar o sistema. Cada município atendido deve ter ao menos um ponto a cada 25 mil habitantes, e o Anexo III lista 400 cidades-alvo, todas com mais de 80 mil habitantes estimados. O quinto ano do cronograma, 2025, trazia a meta de 17% do peso vendido em 2018.

Duas regras mexem direto com a campanha feita com a entidade gestora, que funciona como ponto de recebimento móvel. O artigo 10 proíbe vender, doar ou transferir para quem está fora do sistema os aparelhos descartados nos pontos de recebimento, e o artigo 11 diz que quem entrega não recebe pagamento, salvo incentivos criados pelas próprias empresas ou entidades gestoras. Nada de negociar com ferro-velho: o que o bairro entregou vai inteiro para o parceiro oficial.

AnoMeta de coleta (em peso)Municípios atendidos
20211%24
20223%68
20236%186
202412%294
202517%400

Fase 2 no Anexo II do Decreto 10.240/2020: metas anuais e não cumulativas sobre o peso vendido em 2018, sujeitas a revisão anual (art. 50).

Onde fica o ponto de coleta de lixo eletrônico mais próximo e como fechar a parceria?

Duas entidades gestoras sem fins lucrativos mantêm localizador on-line: a ABREE (Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos), fundada em 2011, busca por CEP e produto em abree.org.br; a Green Eletron, criada em 2016 pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), tem um localizador de pontos de entrega em greeneletron.org.br. Pesquise a partir do endereço da igreja.

Para uma campanha com dia marcado, procure a entidade antes de anunciar. Na Green Eletron, o interessado envia proposta com público, local e período, e a parceria é formalizada num Termo de Cooperação; segundo a entidade, a coleta e a destinação costumam ficar por conta dela. A ABREE faz campanhas itinerantes com poder público, entidades e empresas, com pontos temporários em escolas e praças, e em 2026 listava ações em cidades como Itanhaém (SP), Farroupilha (RS) e Rio de Janeiro.

Quem formaliza é a igreja. O Termo de Cooperação define as responsabilidades da entidade e do parceiro, e o formulário da Green Eletron para virar ponto de coleta pede CNPJ; então o Diretor leva a ideia ao pastor e à comissão da igreja e confirma com a Associação ou Missão como formalizar. Sem entidade disponível, há um plano menor: receber os itens num horário curto e levar tudo, com adultos, a um ponto fixo no mesmo dia. Ligue antes, porque coletor de loja tem limite de tamanho e volume.

Atenção: divulgue data e local só depois que o parceiro confirmar por escrito o que aceita, quanto aceita e quem leva o material. Sem isso, os aparelhos (e os dados de outras pessoas) acabam acumulados na sala do Clube.
Leia tambémTampinhas e lacres solidários: reciclagem que vira caridade

Como organizar uma campanha de lixo eletrônico passo a passo?

Use o método da gestão de projeto de evento: data marcada, planejamento de trás para frente e um dono para cada tarefa. O Diretor cuida da parceria; cada Conselheiro assume uma estação com a sua Unidade; o secretário do Clube faz a planilha de contagem.

No dia, as estações são recepção, mesa de orientação sobre dados (com um adulto), separação em caixas por categoria, sem abrir nada, e um recipiente à parte para pilhas e baterias soltas. No cartaz, siga o que o artigo 42 do decreto manda a comunicação do sistema ensinar: onde entregar, que eletrônico não vai no lixo comum e que os dados devem ser apagados antes. Diga também o que a campanha não recebe, como lâmpadas e baterias de carro, e combine a retirada para o mesmo dia.

6 semanas antes
Contato com a entidade gestora e proposta ao pastor e à comissão da igreja.
4 semanas antes
Parceria confirmada por escrito: itens aceitos, limites e horário de retirada.
3 semanas antes
Divulgação no boletim, no grupo da igreja e no comércio do bairro.
1 semana antes
Treino das Unidades e lembrete para as famílias apagarem os dados.
Dia da coleta
Recepção, separação, contagem e entrega ao parceiro.
1 semana depois
Relatório, agradecimento e registro das horas de serviço.

Como descartar celular velho com segurança?

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O Decreto 10.240/2020 diz, no artigo 31, que cabe ao consumidor remover os dados privados antes do descarte, inclusive de cartões de memória, e que empresas e entidades gestoras não respondem pelo que ficar no aparelho. Pelo artigo 32, quem entrega perde a propriedade de forma irrevogável e assume que os dados ali são irrecuperáveis.

O roteiro está na tabela, tirado do fascículo Celulares e Tablets do CERT.br e da Green Eletron. O papel do Clube é orientar: Desbravador não liga nem desbloqueia o aparelho de ninguém. Quem chega com o celular cheio de fotos faz os passos ali, no próprio aparelho, com um adulto ao lado, ou volta depois. Se o Clube já fez uma oficina de inclusão digital para idosos, chame os mesmos voluntários adultos.

Antes de entregarComo fazer
Salvar o que importaBackup de fotos, contatos e arquivos
Sair da conta"Remover conta" no Android, "Finalizar Sessão" no iPhone
Apagar tudoRestaurar as configurações de fábrica
Tirar chip e cartãoRetirar o chip e o cartão de memória
Cortar vínculosTirar da lista de dispositivos confiáveis e desfazer pareamentos

Fontes: CERT.br, fascículo Celulares e Tablets; Green Eletron, perguntas frequentes.

Descarte de pilhas e baterias: por que elas ficam separadas?

O Decreto 10.240/2020 deixa de fora pilhas, baterias e lâmpadas removíveis, que têm sistemas próprios. A Lei 12.305/2010 inclui pilhas e baterias na logística reversa obrigatória (art. 33, II), e a Resolução 401/2008 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) detalha as regras para pilhas comuns e alcalinas e para baterias de chumbo-ácido, níquel-cádmio e óxido de mercúrio: a loja que vende deve receber as usadas do mesmo tipo e manter ponto de recolhimento (arts. 4º e 19). As de lítio ficam fora dessa lista, e para elas a resolução manda criar programas de coleta compartilhados entre fabricantes, comércio e poder público (art. 5º). Para qualquer tipo, é proibido jogá-las a céu aberto, queimá-las ou lançá-las na água (art. 22).

A Green Eletron não recebe bateria de lítio solta, pelo risco de explosão, só dentro de aparelhos dos quais ela não sai. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) alerta que até baterias usadas guardam energia suficiente para ferir ou provocar incêndio, e que bateria amassada ou danificada cria risco de fogo. Regra da equipe: nenhum aparelho é aberto, nenhuma bateria é retirada (a ABREE orienta não violar os produtos), e aparelho com bateria estufada vai para uma caixa à parte, sem ser apertado, até o adulto consultar o parceiro.

ItemPara onde vaiCuidado
Celular, notebook, cabos, carregadoresPonto de eletroeletrônicosInteiro, desligado e sem dados
Pilhas e baterias portáteisColetor de pilhas da loja que vendeNunca no lixo comum
Bateria de lítio soltaSó com aceite do parceiroUm adulto cobre os terminais com fita isolante; um saco por bateria
Lâmpada fluorescenteSistema próprio (Reciclus)Fora da campanha
Bateria de carro (chumbo-ácido)Sistema próprio (IBER) ou lojaFora da campanha

Fontes: Decreto 10.240/2020, Resolução Conama 401/2008, Green Eletron e EPA.

Como prestar contas da coleta para a igreja e o bairro?

Na planilha, registre por categoria quantos itens chegaram e, se houver balança, o peso aproximado. Anote à parte o peso informado pelo parceiro, dizendo quem mediu cada número. Combine antes qual comprovante virá: a Green Eletron fornece Declaração de Coleta aos pontos de entrega parceiros, e a ABREE explica que, ao fim da reciclagem, é emitido o Certificado de Destinação Final (CDF), com o que foi reciclado e o que foi para aterro.

O relatório traz data, parceiro, itens por categoria e documento recebido. Apresente na comissão da igreja e no boletim. Nas fotos, mostre caixas e cartazes; rosto de Desbravador só com autorização dos responsáveis. As horas entram no registro de horas de serviço comunitário do Clube.

Como ligar a campanha às especialidades e ao cuidado da criação?

Na especialidade de Reciclagem e Sustentabilidade (nível 1, criada pela Divisão Sul-Americana em 2012), um requisito pede pesquisar a coleta seletiva do município. Na especialidade de Reciclagem e Sustentabilidade avançado (nível 2), o último requisito trata do descarte de pilhas e lâmpadas fluorescentes e do posto de coleta mais próximo. A campanha ajuda, mas quem avalia é o Instrutor. O registro do lixo da família está no guia da especialidade de Ecologia.

Gênesis 2:15 diz: "O Senhor Deus tomou o homem e o pôs no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo" (NVI). Guardar inclui decidir para onde vai o que a gente usa. Jogado no lixo comum, o eletrônico entra na conta da gestão inadequada, que, segundo o Global E-waste Monitor 2024, libera no ambiente 58 mil quilos de mercúrio por ano no mundo. Para outras frentes, veja como os Desbravadores cuidam do meio ambiente.