Toda diretoria trava na mesma pergunta em fevereiro: quanto vamos cobrar de mensalidade este ano? Alguém sugere repetir o valor do ano passado, outro acha que está barato demais, um terceiro lembra que tem família apertada no clube. E a conversa termina num chute — que depois vira aperto em outubro, quando a inscrição do acampamento chega e o caixa está vazio.

Existe um caminho melhor, e ele começa pelo fim: primeiro você monta o orçamento do ano, depois a mensalidade aparece sozinha. O Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, publicado pela Divisão Sul-Americana (DSA, a sede da Igreja Adventista para oito países da América do Sul), não define um valor — e não localizamos nenhuma tabela oficial de mensalidade publicada pela DSA. Mas ele define o critério, as fontes de dinheiro e, principalmente, o que fazer com quem não pode pagar.

Neste guia você vai encontrar o método de cálculo passo a passo, um orçamento anual fechado de exemplo para copiar e adaptar, a rotina de cobrança que não expõe ninguém e os caminhos oficiais de isenção. Se você quer entender antes de onde vem cada real do clube, comece pela tesouraria do clube.

Para que serve a mensalidade do clube?

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A mensalidade não é uma taxa de entrada nem um pagamento por serviço prestado. Ela é uma das quatro fontes de recursos do clube, listadas no capítulo 3.6.1 do Manual Administrativo do Clube de Desbravadores: mensalidades, subsídio da igreja local, patrocínios e campanhas de arrecadação de fundos.

E ela custeia coisas bem concretas. No capítulo de planejamento (3.1), o próprio manual manda a diretoria montar o orçamento anual considerando estes itens:

  • Taxas ou mensalidades — a entrada regular do clube;
  • Uniformes oficial (gala) e de atividades;
  • Equipamentos: barracas, ferramentas, material de primeiros socorros, cordas, manuais, livros, instrumentos musicais;
  • Eventos do Campo, União e Divisão: inscrição, transporte e alimentação;
  • Inscrições em cursos;
  • Campanhas financeiras;
  • Seguro obrigatório anual.

Repare que o seguro está ali, e não é opcional: desde 2010 ele é obrigatório em toda a Divisão Sul-Americana. Vale a leitura do detalhe em seguro anual do clube antes de fechar qualquer conta.

Tem ainda o lado educativo, e o manual é explícito nele: todos pagam, inclusive os membros da diretoria. Mesmo quando o clube está numa região muito carente, a mensalidade continua existindo — nesse caso com valor simbólico. O motivo declarado é pedagógico: mostrar às crianças que tudo o que vale a pena na vida tem um custo. Não é arrecadação, é formação.

Como calcular o valor da mensalidade, passo a passo?

Aqui vem a parte que ninguém te conta: o Manual Administrativo não estabelece um valor, nem uma faixa, nem um percentual. O que ele estabelece é o critério — a mensalidade cobrada "deve estar de acordo com a realidade financeira dos membros do Clube". Ou seja, o número é decisão do seu clube, mas o número precisa ser defensável.

O método abaixo transforma esse critério em conta. Ele é uma sistematização prática do Desbravai a partir dos capítulos 3.1, 3.6.1 e 3.6.3 do manual — não é um procedimento normatizado pela DSA, e sim uma forma organizada de chegar a um valor que a diretoria consiga justificar na comissão.

PassoO que fazerOnde isso se apoia
1. Some o custo anualListe todas as despesas regulares (papelaria, emblemas, material de classes, seguro, decoração, acampamentos) e as ocasionais (barracas, fogão, inscrições de eventos do Campo/União/Divisão).Cap. 3.6.3 — despesas regulares e ocasionais
2. Tire o que não é mensalidadeSubtraia o subsídio que a igreja votou para o clube no orçamento dela, mais patrocínios e campanhas já confirmados.Cap. 3.6.1 — as 4 fontes de recursos
3. Divida pelos pagantesDivida o que sobrou pelo número de membros — lembrando que a diretoria também paga.Cap. 3.6.1 — "todos devem pagar"
4. Divida pelos meses de atividadeMuitos clubes param em janeiro. Se o seu funciona de fevereiro a dezembro, divida por 11, não por 12.Cap. 3.1 — agenda anual do clube
5. Acrescente um colchãoSome uma folga para inadimplência e imprevistos. Se a reserva para o próximo campori ainda não estiver no passo 1, inclua-a aqui — mas só em um dos dois lugares, para não contar duas vezes.Prática de gestão (não é norma da DSA)
6. Aprove antes de anunciarO planejamento anual é proposto pela Comissão Executiva e aprovado na Comissão Regular; a agenda do ano passa pela Comissão da Igreja.Cap. 3.3.6 e 3.1

Em uma linha só, a fórmula fica assim:

Mensalidade = [(custo anual previsto − subsídio da igreja − patrocínios e campanhas) ÷ nº de membros ÷ meses de atividade] + colchão

E existe um teste final que vale mais que a conta: o valor que saiu cabe no bolso das famílias do seu clube? Se não couber, o manual não manda subir a mensalidade nem cortar crianças — manda ajustar o critério. Na prática, isso significa enxugar despesa, buscar patrocínio ou fazer campanha de arrecadação, assunto de captação de fundos.

Como fica um orçamento anual de exemplo?

Números soltos não ajudam ninguém. Então segue um orçamento fechado, com um clube imaginário de 40 membros (desbravadores e diretoria) e 11 meses de atividade, de fevereiro a dezembro. Os valores são fictícios, criados só para demonstrar a conta — troque cada linha pelos preços da sua cidade e pela tabela do seu Campo.

Despesa prevista no anoTipoValor (exemplo)
Seguro anual dos 40 membrosRegularR$ 1.200
Material de classes, especialidades e papelariaRegularR$ 1.600
Emblemas, distintivos e cerimônia de investiduraRegularR$ 900
Manutenção de barracas, cordas e ferramentasRegularR$ 1.500
Dois acampamentos locaisRegularR$ 3.000
Programações especiais (Dia do Desbravador, Semana do Lenço)RegularR$ 1.000
Evento do Campo/União: inscrição e transporteOcasionalR$ 4.800
Reserva mensal para o próximo camporiOcasionalR$ 2.400
Total do anoR$ 16.400

Agora o outro lado da folha: o que entra sem ser mensalidade.

Entrada e conta finalValor (exemplo)
Subsídio da igreja local (percentual votado na comissão)R$ 3.600
Patrocínios e padrinhosR$ 1.200
Campanhas de arrecadaçãoR$ 2.600
Subtotal que não vem da mensalidadeR$ 7.400
Falta cobrir (16.400 − 7.400)R$ 9.000
Dividido por 40 membrosR$ 225 por membro no ano
Dividido por 11 meses de atividadeR$ 20,45 por mês
Com colchão de 12% (inadimplência e imprevisto)R$ 23 por mês

Pronto: a mensalidade deixou de ser chute e virou um número explicável. Quando um pai perguntar por que R$ 23, a diretoria abre a planilha e mostra. Isso muda o tom da conversa inteira — e costuma reduzir a inadimplência mais do que qualquer cobrança.

Se o valor que sair da sua conta ficar pesado para as famílias, mexa nas linhas de cima, não na lista de membros. Corte a despesa ocasional, procure um padrinho para o item específico (o manual sugere exatamente isso: listar a necessidade e pedir ajuda para um item) ou aumente a campanha de arrecadação.

Leia tambémTesouraria do clube

Quando e como cobrar sem constranger ninguém?

O manual dá orientações bem práticas de cobrança, e todas elas giram em torno de uma preocupação: proteger a criança.

A primeira é ter data fixa. O tesoureiro deve estipular um prazo mensal — os exemplos citados no próprio manual são "até o dia 10" ou "no segundo domingo de cada mês". A segunda é dividir o trabalho: os tesoureiros de unidade recolhem a mensalidade dos membros da sua unidade e repassam ao tesoureiro do clube, com registro. A terceira é controlar por nome, numa planilha com cada membro do clube — o manual traz um modelo no Anexo D.

O fluxo abaixo organiza essas orientações em rotina. O manual fixa quem faz cada etapa, e fixa dois prazos: a transferência do dinheiro para a tesouraria da igreja é imediata e o balanço é mensal. Os demais prazos da coluna "quando" são sugestão prática do Desbravai — combine-os com a sua diretoria.

EtapaQuandoQuem faz
Recolher na unidadeNa reunião regular (sugestão)Tesoureiro da unidade
Repassar ao clube com registroMesma semana (sugestão)Tesoureiro da unidade → tesoureiro do clube
Transferir para a tesouraria da igrejaImediatamente (cap. 3.3.3)Tesoureiro do clube
Cobrar quem atrasou, em particularApós a data estipulada (cap. 3.6.1)Tesoureiro do clube
Apresentar balanço das finançasMensalmente (cap. 3.3.3)Tesoureiro → Comissão Executiva

Sobre o atraso, o texto é direto: a cobrança deve ser feita "com toda a delicadeza e educação", com cuidado especial para não deixar o desbravador constrangido. Nada de lista de devedores no mural, nada de chamar a criança na frente da unidade, nada de impedir a participação na atividade do sábado. O assunto é com o responsável, em conversa reservada.

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E há uma liberdade que muita diretoria não sabe que tem: nada impede o tesoureiro de fazer acordos personalizados com os pais. Parcelar, combinar outra data, ajustar o valor para famílias com três filhos no clube — tudo isso cabe, desde que fique registrado e combinado em particular.

E quem não pode pagar? Os caminhos de isenção

Este é o ponto inegociável do capítulo 3.6.1, e vale repetir com todas as letras: o clube não deve deixar nenhum juvenil de fora porque ele não tem condições de pagar. O manual reforça duas vezes na mesma página — ninguém deixará de participar do clube por não poder pagar a mensalidade.

O caminho previsto tem nome: a direção procura patrocinadores ou padrinhos que "adotem" financeiramente aquele desbravador. E há um cuidado emocional embutido na orientação — a criança deve saber que alguém que se interessa muito pelo seu bem-estar está custeando as despesas dela. Não é esmola anônima; é pertencimento.

Situação da famíliaCaminho previstoQuem conduz
Dificuldade passageira (desemprego, imprevisto)Acordo personalizado: novo prazo, parcelamento ou pausa combinadaTesoureiro, com os pais, em particular
Impossibilidade continuada de pagarPadrinho ou patrocinador que custeia o desbravadorDireção do clube (função de toda a diretoria)
Clube inteiro em região muito carenteMensalidade simbólica para todos — ela existe, mas cabe no bolsoComissão Executiva, no orçamento anual
Custo pontual alto (campori, uniforme)Patrocínio de item específico e campanhas de arrecadaçãoTesoureiro + direção

Uma regra de ouro fecha o assunto: esse acordo, em nenhuma hipótese, deve ser feito em público — sempre em particular. Se a sua diretoria anuncia isenções em reunião aberta, mesmo com boa intenção, está contrariando a orientação oficial e expondo a criança.

Pais e responsáveis: se a mensalidade está pesando, o passo certo é avisar a diretoria, não sumir. O manual pede exatamente isso — que a família comunique a situação para que, juntos, o problema seja resolvido. Se você ainda está conhecendo o clube, veja quanto custa e como inscrever seu filho.

Como caber o campori e as despesas grandes na conta?

O manual separa as despesas em dois tipos, e essa separação resolve metade dos apertos de caixa. As despesas regulares são as que se repetem ano após ano — papelaria, emblemas de investidura, material didático de classes e especialidades, decoração, seguro anual, acampamentos. Elas devem sempre constar do orçamento anual, e o manual pede equilíbrio entre elas e as entradas regulares do clube.

As despesas ocasionais são as grandes: barracas, fogão, bandeiras, inscrições para eventos do Campo, da União ou da Divisão. O manual reconhece que nem sempre as entradas regulares serão suficientes para cobri-las — e diz que é justamente para esse tipo de gasto que se buscam patrocínios e campanhas de arrecadação. Traduzindo: não tente pagar campori só com mensalidade.

Um exemplo com data marcada: o VI Campori Sul-Americano acontece em janeiro de 2027, em Barretos (SP), em duas etapas (5 a 10 e 12 a 17 de janeiro). Um clube que só for pensar nisso em novembro de 2026 vai sofrer. Um clube que abriu uma reserva mensal em fevereiro chega inteiro. Os detalhes estão em Campori DSA 2027.

Por isso o calendário do Campo entra no cálculo antes do valor da mensalidade: sem saber quais eventos oficiais caem no ano, você não tem como projetar inscrição, transporte e alimentação — as três linhas que mais estouram orçamento de clube.

Onde registrar tudo e como prestar contas?

Dinheiro sem registro vira briga. O capítulo 3.6.4 admite três formatos: livro-caixa simples de papelaria, planilha eletrônica ou sistema on-line. O que não é negociável é o conteúdo — todas as entradas e todas as saídas, com as cópias das notas fiscais arquivadas mês a mês.

Três regras costumam pegar diretoria de surpresa: o dinheiro do clube fica na tesouraria da igreja local, não numa conta paralela; toda compra ou contratação usa o CNPJ do Campo, nunca o CPF de um membro (confirme o número na tesouraria da Associação ou Missão); e o tesoureiro emite mensalmente um balanço para a Comissão Executiva.

Há ainda um incentivo concreto para manter isso em dia. No SGC, o Sistema de Gerenciamento de Clubes da Divisão Sul-Americana, o critério Tesouraria vale até 50 dos 1.000 pontos do score que define as estrelas do clube, e exige no mínimo 48 lançamentos de contas a pagar e a receber no ano — cerca de quatro por mês (critérios publicados no portal oficial de clubes, consultados em julho de 2026). Como entrar e usar o sistema está em SGC: o que é e como entrar.

Transparência total sobre nós: o Desbravai é um sistema independente, feito por desbravadores, que ajuda o clube no dia a dia (agenda, comunicação com pais, acompanhamento de classes e especialidades). Ele não substitui o SGC — o cadastro oficial dos membros, o seguro anual e a inscrição em eventos oficiais acontecem exclusivamente no sistema da Divisão, e é assim que deve ser. Nenhuma ferramenta de terceiros — a nossa inclusive — substitui esses registros oficiais.