Toda aula de nós termina com algum Desbravador querendo saber quantos tipos de nós existem. A pergunta parece pedir um número só, e a pesquisa devolve vários, todos corretos e diferentes: um livro de 1944 numerou 3.857 entradas, a matemática já passou de 2 bilhões e o catálogo de nós e amarras do portal reúne 195. Este guia mostra de onde sai cada conta, apresenta as famílias de nós com 15 exemplos do catálogo e separa a história documentada da lenda de marinheiro.
Quantos tipos de nós existem, afinal?
Não existe um número oficial. As obras de referência contam coisas diferentes, e cada uma acerta dentro do próprio critério.
Até a palavra nó muda de tamanho. Na página 12 do seu livro, Clifford W. Ashley explica que ela tem três sentidos: no mais amplo, qualquer complicação feita de propósito numa corda, menos rolos e meadas de guardar; no segundo, sem emendas, voltas, costuras e trançados; no mais estreito, só o caroço na ponta que impede a corda de escapar por um furo.
| Forma de contar | Quanto dá | De onde vem o número |
|---|---|---|
| Pela função do nó | 4 classes no mar; 15 categorias na Wikipédia | Ashley (1944, p. 12) e verbete Knot da Wikipédia em inglês |
| Pelos verbetes do livro de referência | 3.857 entradas numeradas | The Ashley Book of Knots, de Clifford W. Ashley (1944) |
| Pela matemática (laço fechado) | Mais de 2 bilhões de nós primos até 20 cruzamentos | Burton (2020) e Thistlethwaite (2025) |
| Pelo uso no clube | 195 nós, voltas e amarras | Catálogo de nós e amarras do portal (outubro de 2026) |
Fontes: Ashley (1944), Wikipédia em inglês, Burton (SoCG 2020), Thistlethwaite (2025) e catálogo do portal.
Quais são os tipos de nós e seus nomes?
No mar, registra Ashley, os nós se dividem em quatro classes: a volta prende a corda a outro objeto, a emenda une duas pontas, a costura trança as pernas do cabo, e o nome nó fica para os caroços de ponta, as alças e o resto. O verbete Knot da Wikipédia em inglês detalha a lista em 15 categorias, e um nó pode estar em mais de uma.
No clube, as famílias aparecem assim. Nós de base engrossam a ponta, como o Nó em Oito e o Nó de Retenção de Ashley. Emendas juntam duas cordas: Nó de Escota, Nó Carrick, Nó Zeppelin, Nó do Caçador e Nó de União de Ashley. O Nó Direito fica no mesmo grupo do catálogo, mas é um nó de aperto, feito para pacotes e ataduras. Voltas e amarras têm guia próprio em nós e amarras essenciais para Desbravadores.
Entre os decorativos estão a Cabeça de Turco, o Punho de Macaco e o Nó Matthew Walker Duplo. O Catau encurta a corda sem cortar, o Nó FG emenda linhas de pesca e o Laço de Cadarço pelo Método Fieggen é um jeito rápido de dar o laço do sapato, que, segundo a mesma Wikipédia, é um nó direito com as duas pontas passadas em seio.
O catálogo de nós e amarras do portal tem divisão própria: 135 nós, 41 voltas e 19 amarras, em 10 categorias.
| Nó | Para que serve aqui | Dificuldade |
|---|---|---|
| Nó Direito | Nó de aperto; o nó de Hércules | Fácil |
| Lais de Guia | Laçada fixa na ponta | Médio |
| Nó de Escota | Emenda de grossuras diferentes; ABOK #1 | Fácil |
| Nó em Oito | Nó de base; fechado, vira nó matemático | Fácil |
| Nó de Retenção de Ashley | Nó de base criado por Ashley | Médio |
| Nó de União de Ashley | Emenda datada por Ashley em 1934 | Médio |
| Nó Zeppelin | Emenda cercada de lenda | Médio |
| Nó do Caçador | Emenda anunciada como nova em 1978 | Médio |
| Nó Carrick | Emenda de cabos grossos | Médio |
| Cabeça de Turco | Decorativo com capítulo próprio no ABOK | Difícil |
| Punho de Macaco | Decorativo que dá peso à retinida | Difícil |
| Nó Matthew Walker Duplo | Batente de nome misterioso | Difícil |
| Catau | Encurta a corda; seis números ABOK | Médio |
| Laço de Cadarço pelo Método Fieggen | Laço de sapato criado em 1982 | Médio |
| Nó FG | Emenda de pesca para linha trançada | Difícil |
Dificuldade segundo o catálogo do portal (outubro de 2026).
O que é o Ashley Book of Knots e por que 3.857 entradas não são 3.857 nós?
Clifford Warren Ashley (1881-1947), artista e marinheiro de New Bedford, nos Estados Unidos, passou seis semanas de 1904 a bordo do baleeiro Sunbeam. The Ashley Book of Knots saiu em 1944 pela Doubleday, depois de mais de 11 anos de trabalho, com 3.857 entradas numeradas e cerca de 7 mil ilustrações. O número de cada entrada, citado como ABOK, funciona como o RG do nó.
Só que entrada não significa nó diferente. O mesmo nó ganha vários números quando aparece em vários usos ou formas: o Nó Direito tem dez, do #74 ao #2580, incluindo o #1204; o Catau tem seis, a começar pelo #1152; o Nó de Escota abre o livro como #1 e volta como #1431. No caminho inverso, uma família inteira, a da Cabeça de Turco, ocupa sozinha o capítulo 17, com 124 entradas, como detalha o guia de nós decorativos para o clube.
O livro também mudou: ganhou o #1425A, o Nó do Caçador, em 1979 e incorporou correções da International Guild of Knot Tyers em 1991. No catálogo do portal, 105 dos 195 itens têm número ABOK; o Nó Zeppelin, por exemplo, nem entrou na edição de 1944.
Qual é o nó mais antigo e o que significa nó de Hércules?
Ninguém sabe quem deu o primeiro nó. Um dos registros mais antigos é a rede de pesca de Antrea, de fibra de salgueiro, com mais de 10 mil anos, escavada em 1914 no istmo da Carélia, hoje território russo.
Entre os nós do clube, o Nó Direito tem a ficha mais longa. Como fica plano no pano, ele já fechava ataduras há quase 2 mil anos, e gregos e romanos o chamavam de nó de Hércules (em grego, herakleotikon hamma).
Esse é o significado de nó de Hércules: o nome remete ao herói da mitologia grega e designa o próprio nó direito. Na História Natural, do século I, Plínio, o Velho, escreveu que feridas amarradas com ele saravam muito mais depressa e que a descoberta seria do próprio Hércules. Na mesma época, o médico grego Heraklas incluiu o nó numa lista de 16 nós e laçadas cirúrgicas, preservada nas Coleções Médicas de Oribásio, médico do imperador romano Juliano.
Leia tambémNós de marinheiroDe onde vêm os nomes dos nós?
Muitos nomes contam o trabalho que o nó fazia a bordo, como os do Lais de Guia e do Nó de Escota, explicados no guia de nós de marinheiro. Outros homenageiam pessoas: o Nó do Caçador traduz ao pé da letra o inglês Hunter's bend, que leva o sobrenome do Dr. Edward Hunter.
Há também nomes que guardam mistérios. Para o Nó Carrick, registrado desde 1783, há três hipóteses: o castelo de Ormonde, em Carrick-on-Suir, na Irlanda; a baía de Carrick Roads, na Inglaterra; ou a carraca, navio medieval. De Matthew Walker, que batiza o Nó Matthew Walker Duplo, não se sabe nem quem foi. E a sigla do Nó FG tem explicações para todos os gostos, de Fine Grip (boa pegada) a um possível criador chamado Fred Goldman, segundo o Animated Knots.
A lenda mais famosa é a do Nó Zeppelin. Em 1976, a revista americana Boating publicou o relato de um ex-instrutor da Marinha dos Estados Unidos: o comandante Charles Rosendahl só admitia esse nó no dirigível Los Angeles. O nome Zeppelin nasceu ali, e o estudioso de dirigíveis Giles Camplin contesta a história. Nos anos 1960, o espeleólogo Bob Thrun já tinha publicado a mesma emenda.
| Nome | De onde viria | Situação |
|---|---|---|
| Nó do Caçador | Sobrenome do Dr. Edward Hunter, traduzido ao pé da letra | Documentado |
| Nó Carrick | Castelo irlandês, baía inglesa ou carraca | Três hipóteses |
| Nó Matthew Walker | Homem de identidade desconhecida | Origem incerta |
| Nó FG | Fine Grip ou um tal Fred Goldman | Várias versões |
| Nó Zeppelin | Cordas de dirigível da Marinha americana | Lenda contestada |
Origem dos nomes segundo a Wikipédia em inglês, o Animated Knots e as reportagens do The Times (1978) e da Boating (1976).
Ainda se inventam nós novos?
Sim, e o próprio Ashley entrou nessa lista. Numa frota de barcos de ostras da baía de Delaware, ele viu um nó enorme na ponta de uma adriça e o copiou de memória; dias depois, de perto, viu que era só um Nó em Oito na ponta inchada de um cabo gasto. A cópia virou o Nó de Retenção de Ashley (#526). O Nó de União de Ashley (#1452) saiu no livro sem nome, só com a data 2/3/34, e Cyrus L. Day o batizou em 1947. Ashley fechou a obra dizendo que sempre haverá nós novos enquanto a corda ganhar novos usos.
Em 6 de outubro de 1978, o jornal britânico The Times apresentou como novidade o Nó do Caçador, atribuído ao Dr. Hunter. Phil D. Smith já o tinha publicado em 1953 como rigger's bend. A repercussão levou à criação da International Guild of Knot Tyers, que hoje tem cerca de mil membros. Em 1982, Ian Fieggen criou o Laço de Cadarço pelo Método Fieggen.
Quantos nós existem no mundo, segundo a matemática?
Para os matemáticos, nó é uma curva fechada, como uma corda com as pontas emendadas. O mais simples, depois do laço sem nó nenhum, é o trevo, com três cruzamentos. O único com quatro surge quando você dá um Nó em Oito numa corda e junta as pontas.
Contar esses nós é um dos problemas mais antigos da teoria dos nós. A conta começou no século XIX, quando se pensava que os nós explicariam a estrutura dos átomos, e a primeira tabela séria, de Tait, Kirkman e Little (1876 a 1899), chegou a 10 cruzamentos. Em 2020, Benjamin A. Burton listou 352.152.252 nós primos (os que não resultam da soma de dois nós menores) com até 19 cruzamentos, e em 2025 Morwen B. Thistlethwaite listou os 1.847.319.428 de 20 cruzamentos. Na corda do acampamento, com duas pontas soltas, o que define o tipo é a função.
| Cruzamentos | Nós primos |
|---|---|
| 3 | 1 |
| 4 | 1 |
| 5 | 2 |
| 6 | 3 |
| 7 | 7 |
| 8 | 21 |
| 9 | 49 |
| 10 | 165 |
| Até 19 (total) | 352.152.252 |
| 20 | 1.847.319.428 |
Fontes: OEIS A002863, Burton (SoCG 2020) e Thistlethwaite (Algebraic & Geometric Topology, 2025).
Quantos nós um Desbravador precisa saber?
Bem menos do que 3.857. As classes regulares cobram listas próprias, como mostra o guia de nós por classe de Desbravadores, e quem quer ir além encontra os requisitos da especialidade de Nós e Amarras. O catálogo do portal tem 195 itens: 67 fáceis, 94 médios e 34 difíceis. Domine um nó de cada família principal antes dos decorativos.
Na reunião da Unidade, experimente o desafio verdade ou lenda: cada Desbravador sorteia um nó do catálogo e pesquisa a origem do nome, e a Unidade vota se a história é documentada, hipótese ou lenda.
Erros comuns: confiar no apelido, que muda de região para região, e achar que nó antigo ou famoso é nó seguro. Para testar, faça o nó com um adulto por perto, compare com o vídeo do catálogo, puxe com força crescente e desfaça para ver se solta como deveria.