Quando o Conselheiro manda passar o chicote pelo seio, ele fala a língua dos navios. Os nós de marinheiro são a arte dos navios, onde cada cabo tinha nome e função, e boa parte desse vocabulário chegou ao Clube de Desbravadores. Este guia conta de onde vêm os nomes, organiza 15 nós de bordo pela tarefa que cumprem e mostra quando cada um falha. O passo a passo com vídeo fica no catálogo.
O que são nós de marinheiro?
Nós de marinheiro são os trabalhos com cabo que marcaram as manobras a bordo de navios e barcos de pesca. O saber que reúne tudo isso é a marinharia, que o Dicionário Priberam define como a arte de marinheiro e a parte prática da náutica. Em 2017, o Centro de Mar de Viana do Castelo, em Portugal, dedicou uma exposição ao tema e lembrou no folheto que a vida de um marinheiro muitas vezes dependia de um nó bem feito.
O mesmo folheto divide o trabalho com cabos em famílias, como nós, voltas, falcaças, costuras e pinhas. Os nós ligam os chicotes entre si ou a um objeto, e as voltas descritas ali prendem o cabo a um pau, a um varão ou a um cabeço.
No Brasil, o Arte Naval, de Maurílio M. Fonseca, do Serviço de Documentação da Marinha, é a bibliografia básica da disciplina de Marinharia e Arte Naval do curso Técnico em Transporte Aquaviário do Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Nos Estados Unidos, o marinheiro e artista Clifford W. Ashley publicou em 1944 The Ashley Book of Knots, cujos números, citados como ABOK, identificam um nó sem confusão de apelidos.
Quais palavras de bordo o Desbravador usa sem perceber?
O cartão da especialidade de Nós e Amarras abre pedindo a definição de termos como seio, chicote e vivo, como mostra o guia de requisitos da especialidade de Nós e Amarras. A tabela reúne as palavras de bordo que aparecem nos nomes dos nós deste guia.
| Palavra | Sentido a bordo | Onde aparece |
|---|---|---|
| Chicote | A ponta do cabo | Passar o chicote pelo seio |
| Seio | O trecho do cabo entre os dois chicotes | Lais de guia pelo seio |
| Escota | Cabo com que se governam as velas | Nó de escota |
| Adriça | Cabo para içar velas e bandeiras | Volta de adriça |
| Lais | Ponta da verga, a peça horizontal do mastro que segura a vela | Lais de guia |
| Fateixa | Âncora para fundear barcos pequenos | Volta de fateixa |
| Cunho | Peça onde se dão voltas a cabos | Volta em cunho |
| Cabeço | Coluna de topo arredondado onde se enrolam cabos e espias | Volta de reboque |
| Retinida | Cabo leve feito para ser lançado à distância | Nó de retinida |
| Aduchar | Colher o cabo em aduchas, as voltas de um cabo enrolado | Aduchar cabo em oito |
Fontes: Dicionário Priberam e folheto Nós de Marinheiro, Viana do Castelo (2017), que grafa retenida.
Por que lais de guia e nó de escota têm nome de peça de navio?
Porque foram batizados pelo serviço que faziam no veleiro. O Lais de Guia se chama bowline em inglês, e bowline era o cabo que puxava a borda de uma vela redonda em direção à proa. A primeira menção conhecida ao nó está em A Sea Grammar, de John Smith, de 1627, como Boling knot. Em português, lais é a ponta da verga, e algumas listas da especialidade de Nós e Amarras chamam o lais de guia de nó bolina, nome do cabo que manobra a vela. As fontes consultadas não explicam a origem da expressão completa.
O Nó de Escota leva o nome do cabo que governa a vela. O termo inglês, sheet bend, já aparece em 1794 num livro de cordame de David Steel, e é o primeiro nó apresentado no Ashley Book of Knots.
O Nó Buntline prendia os buntlines, cabos de manobra, ao pé das velas redondas. A Volta de Reboque se chama lighterman's hitch por causa do lighterman, o barqueiro das lighters, barcaças de fundo chato, ofício ligado sobretudo ao porto de Londres. E o Nó Rolante recebeu o nome atual em 1841, no livro The Seaman's Friend, de Richard Henry Dana Jr.
Quais são os principais nós de marinheiro e para que serve cada um?
Os principais nós de marinheiro se organizam pela tarefa de bordo: atracar, fundear, unir cabos, içar, lançar e guardar. A tabela traz a função de cada um e a dificuldade no catálogo. Se você ainda está nos nós do acampamento, comece pelos nós e amarras essenciais para Desbravadores.
| Nó | Para que serve aqui | Dificuldade |
|---|---|---|
| Lais de Guia | Alça fixa no chicote da espia, encaixada no cabeço | Média |
| Volta em Cunho no Cabo de Atracação | Prender o cabo de atracação ao cunho em oitos | Fácil |
| Volta Redonda com Cotes | Amarrar o barco a argola ou poste | Fácil |
| Volta de Amarração | Segurar o barco por instantes, com soltura rápida | Fácil |
| Volta de Reboque | Prender cabo de reboque ao cabeço e soltar aos poucos | Média |
| Volta da Âncora | Prender o cabo à argola da âncora | Média |
| Nó Buntline | Prender a argola ou verga sem soltar com sacudidas | Fácil |
| Nó Rolante | Tirar a carga de outro cabo | Fácil |
| Nó de Escota | Unir cabos de grossuras diferentes | Fácil |
| Nó Carrick | Unir cabos grossos e desatar depois | Média |
| Volta de Adriça | Prender a adriça à manilha da vela | Média |
| Nó de Retinida | Dar peso à ponta da retinida | Média |
| Punho de Macaco | Bola de cabo na ponta da retinida | Difícil |
| Aduchar Cabo em Oito | Deixar o cabo pronto para correr sem torcer | Fácil |
| Catau | Encurtar o cabo sem cortar | Média |
Dificuldade conforme o catálogo de nós e amarras; usos conforme o Animated Knots e o folheto de Viana do Castelo (2017).
Leia tambémQuantos tipos de nós existem?Como amarrar barco no cais: quais nós usar?
No cais, o navio fica preso por espias, cabos de boa bitola feitos para a amarração. O folheto de Viana do Castelo registra que o lais de guia forma, no chicote da espia, a alça que se encaixa no cabeço. O limite, segundo o Animated Knots: ele não pode ser desfeito com o cabo tracionado, então não serve quando a espia talvez precise ser solta sob tensão.
Em barco pequeno, o cabo vai ao cunho. A Volta em Cunho no Cabo de Atracação começa pelo chifre mais distante do cunho e segue em oitos cruzados. O erro a evitar é uma volta redonda completa antes dos oitos, que pode morder a de baixo e travar o cabo. A meia-volta de trava no fim serve para barco parado por muito tempo, nunca para cabo de reboque ou escota, que precisam soltar na hora.
Em argola ou poste, use a Volta Redonda com Cotes: as duas passadas iniciais seguram o esforço enquanto você faz os cotes, que vale treinar com uma mão só.
A Volta de Amarração solta com um puxão no chicote e segura um caiaque enquanto você embarca, mas o Animated Knots condena deixá-la segurando o barco por muito tempo: o nó não é confiável e tende a travar. Na Volta de Reboque, nenhum nó é amarrado: o cabo contorna a própria perna de carga ora num sentido, ora no outro, e cada passada cai sobre o cabeço. Para soltar, tira-se uma de cada vez, sentindo o esforço que resta.
Qual é o nó de âncora e quais nós seguram vela, verga e outro cabo?
O nó de âncora do catálogo é a Volta da Âncora, em inglês anchor hitch. O Animated Knots a considera excelente para isso e conta que muita gente acrescenta um ou dois cotes e amarra a ponta solta ao cabo com fio. Fateixa é a âncora de barco pequeno, e a lista de Nós e Amarras traz a volta de fateixa, que o Manual de Especialidades indica para unir a corda a uma argola. Pelo nome e pelo uso, pode ser a mesma volta da âncora, mas nenhuma fonte consultada confirma.
O Nó Buntline resiste a sacudidas melhor que dois cotes, mas pode travar depois de muita carga. A Volta de Adriça é compacta e prende a adriça à manilha, a peça em U do topo da vela; não pode ser feita nem desfeita sob carga e não aperta em mastro grosso. Para a bandeira do clube, veja o nó para hastear bandeira.
O Nó Rolante prende um cabo a outro quando a força puxa quase paralela a ele, e a bordo tira a carga de um cabo enroscado no guincho. Faz e desfaz com carga, mas não segura em cabo muito liso, como Dyneema e polipropileno. Para unir dois cabos grossos, o Nó Carrick é, nas palavras de Ashley citadas pelo Animated Knots, a emenda comum em espias e amarras de navio; confira as pontas saindo na diagonal, em lados opostos.
Como lançar a retinida e deixar o cabo pronto para correr?
A espia é pesada demais para ser jogada ao cais. Por isso se lança primeiro a retinida, cabo leve com peso na ponta, e por ela se puxa o cabo grosso. O Nó de Retinida enrola o próprio cabo em várias voltas para fazer esse peso (ABOK nº 538). Não emende a retinida direto na espia: depois da carga, pode ser impossível soltá-la, e Ashley recomendava um pedaço curto de cabo entre as duas.
O Punho de Macaco é a versão em bola. O folheto português descreve a pinha de retenida com três séries de três voltas, a primeira sobre a mão aberta, o mesmo desenho do punho de macaco, que hoje também vira chaveiro, tema dos nós decorativos. Peso escondido dentro é perigoso: a seção 25.3.2 do código britânico de práticas seguras para marinheiros, citada pela associação de seguro marítimo West P&I, manda fazer o punho só de cabo. No clube, nada de pedra ou porca dentro, e ninguém na linha de arremesso.
No pentatlo naval, esporte do Conselho Internacional do Esporte Militar (CISM), a prova de habilidades navais pede lançar uma retinida de 200 g a 15 metros, num corredor de 10 metros, e prendê-la com lais de guia, segundo estudo de 2019 da série European Proceedings.
Na arrumação, o Aduchar Cabo em Oito deita o cabo no convés em oitos para que ele corra sem torcer; o Animated Knots indica a técnica para o cabo da âncora antes de largá-la. O Catau encurta o cabo sem cortar, mas se desmancha fácil e nunca segura pessoa ou carga, como explica o guia de como cuidar de uma corda.
Como treinar nós de marinheiro no clube com segurança?
A marinharia entra no clube pelas especialidades aquáticas dos Desbravadores. As de Navegação e Vela são de 1953, da Associação Geral. Navegação pede citar e fazer quatro dos nós mais usados em navegação e explicar a função de cada um; Vela pede lais de guia, volta do fiel e figura em oito, entre outros, e Remo pede prender o barco no cais com volta do fiel, fateixa ou nó bolina.
Na reunião de Unidade, uma estaca vira cabeço, um cunho parafusado numa tábua vira cais e dois cones marcam o corredor da retinida. Cada Desbravador sorteia uma tarefa de bordo, faz o nó e explica o limite dele. O quadro de 25 nós da especialidade pode ganhar uma fileira de nós de marinheiro.
Para testar, puxe o cabo em todas as direções, compare o desenho com a página do nó e confira a sobra do chicote.