Clubes de Desbravadores da Polônia e da Ucrânia realizaram juntos um acampamento de verão que reuniu cerca de 200 adolescentes e seus instrutores no Centro de Recreação Waszeta, perto da cidade de Olsztynek, na região de Mazury, norte da Polônia. Muitos dos participantes eram ucranianos que passaram a viver na Polônia como refugiados depois da invasão russa de 2022.
Sob o tema "Crônicas da Última Batalha", o encontro terminou com 18 adolescentes ucranianos batizados. As informações foram divulgadas pela Divisão Transeuropeia da Igreja Adventista e publicadas pela Adventist World e pela Adventist News Network em 15 de setembro de 2022.
A ideia era simples e, ao mesmo tempo, delicada: os desbravadores poloneses abriram as portas do próprio acampamento aos colegas ucranianos que haviam deixado tudo para trás. O que era para ser mais uma semana de campo virou um ponto de reencontro entre dois países vizinhos separados pela guerra.
Dois países, um mesmo acampamento
O acampamento aconteceu no Centro de Recreação Waszeta, perto de Olsztynek, na região dos lagos de Mazury, uma das áreas mais procuradas da Polônia para atividades ao ar livre. Foi para lá que os clubes de Desbravadores levaram cerca de 200 adolescentes e seus instrutores, segundo a Divisão Transeuropeia.
A composição do grupo é o que torna a história diferente de um acampamento comum. Uma parte dos participantes eram adolescentes ucranianos que, desde o início da guerra, viviam na Polônia como refugiados. Os desbravadores poloneses decidiram não organizar seu encontro de verão em separado: abriram o próprio programa aos novos amigos que tinham acabado de chegar ao país.
Para o leitor Desbravador do Brasil, vale explicar a estrutura. A Divisão Transeuropeia é uma das treze divisões administrativas da Igreja Adventista no mundo e cobre boa parte do norte da Europa, incluindo a Polônia. A Ucrânia pertence a outra divisão, mas a proximidade geográfica e o fluxo de refugiados aproximaram os dois lados do movimento de Desbravadores em um mesmo campo.
"Crônicas da Última Batalha": o tema do encontro
Toda semana de acampamento adventista costuma girar em torno de um tema espiritual, e neste não foi diferente. O escolhido foi "Crônicas da Última Batalha", voltado a aprofundar a fé dos adolescentes e a apresentar Jesus como resposta para o conflito e para o pecado, informou a Divisão Transeuropeia.
A escolha do assunto dialoga diretamente com o momento. De um lado, adolescentes que tinham deixado suas casas por causa de uma guerra real; de outro, uma programação que falava de esperança e de um desfecho maior do que qualquer batalha humana. Segundo a Adventist World, a ideia foi oferecer aos jovens não só atividades, mas sentido.
Quem já participou de um acampamento reconhece o formato: cultos, momentos de reflexão e classes bíblicas alternando com as atividades de campo ao longo dos dias. A diferença aqui é que boa parte do público chegou carregando o peso de ter perdido a rotina, a escola e, em muitos casos, a convivência com o pai que ficou na Ucrânia.
Um lugar seguro entre o lago e a mata
Além da parte espiritual, o acampamento ofereceu uma grade cheia de atividades. De acordo com a Divisão Transeuropeia, foram cerca de vinte opções ao longo da semana, entre natação, caiaque e stand-up paddle no lago, além de jogos de campo, artesanato, técnicas de campismo, futebol, vôlei, tênis de mesa e um parque de cordas.
Segundo a organização, o que mais marcou não foi a lista de brincadeiras em si, mas o que ela representava: aos jovens ucranianos foi dado, acima de tudo, um lugar seguro. Por alguns dias, adolescentes que vinham de meses de incerteza puderam simplesmente ser adolescentes — nadar, remar, jogar bola e dormir sem o barulho da guerra ao fundo.
Esse é um ponto que costuma passar despercebido de quem olha de fora. Em cenários de deslocamento forçado, atividades aparentemente banais têm efeito terapêutico. Devolver rotina, horário e diversão a um adolescente refugiado é, também, uma forma de cuidado, e foi nesse ambiente que a semana avançou até o momento mais forte do acampamento.
Leia também5º Campori Interamericano reúne 10 mil na JamaicaOs 18 batismos
O ponto alto veio no encerramento: 18 adolescentes ucranianos entregaram a vida a Jesus pelo batismo, informaram a Divisão Transeuropeia e a Adventist World. Para uma parcela desses jovens, foi a primeira decisão de fé tomada longe de casa, em outro país e em meio à guerra que os havia empurrado até ali.
No vocabulário Desbravador, o batismo é uma decisão pessoal e voluntária, tomada por quem entende o passo que está dando — não um requisito automático de classe nem algo imposto pelo clube. Por isso o número não é apenas estatística: são 18 escolhas individuais, feitas por adolescentes que estavam vivendo um dos períodos mais difíceis das próprias vidas.
A cena resume o objetivo declarado do tema "Crônicas da Última Batalha": apresentar, no meio de um conflito concreto, uma esperança que os organizadores descreveram como maior do que qualquer batalha. Segundo a Adventist News Network, o resultado foi celebrado pelas lideranças dos dois países como o fruto mais significativo da semana.
Quem fez o quê: poloneses e ucranianos lado a lado
A divisão de tarefas ajuda a entender a parceria. De acordo com a Divisão Transeuropeia, o time ucraniano ficou responsável por conduzir a programação, enquanto os poloneses cuidaram de toda a logística — a estrutura, a hospedagem e o suporte que tornaram o acampamento possível.
O apoio veio de várias frentes. Segundo a mesma fonte, sustentaram o encontro a União Polonesa da Igreja Adventista do Sétimo Dia, os distritos locais e a Fundação Polonesa de Ajuda à Criança, conhecida pelo nome polonês Fundacja Pociecha. Foi essa combinação que bancou a vinda e a permanência dos adolescentes refugiados.
No encerramento, uma das líderes de Desbravadores da Ucrânia, Antonina Kozak, agradeceu publicamente aos anfitriões. Em declaração reproduzida pela Divisão Transeuropeia, ela afirmou: "Obrigada por mostrarem o verdadeiro cristianismo. Obrigada, União Polonesa e Fundacja Pociecha." A fala resume o tom do evento: gratidão de um lado, acolhimento do outro.
O pano de fundo: guerra, refugiados e a Polônia
Para dimensionar o gesto, é preciso lembrar o contexto de 2022. Depois da invasão russa iniciada em fevereiro daquele ano, milhões de ucranianos cruzaram a fronteira em busca de abrigo, e a Polônia — país vizinho — foi o principal destino desse fluxo. Cidades polonesas receberam famílias inteiras, e igrejas de várias denominações se mobilizaram para hospedar e alimentar quem chegava.
Dentro da Igreja Adventista, a resposta incluiu desde a acolhida em templos e casas até iniciativas como esse acampamento. O Clube de Desbravadores, presente nos dois países, virou uma ponte natural: crianças e adolescentes ucranianos que já frequentavam clubes em casa encontraram, na Polônia, um espaço parecido para recomeçar.
Vale registrar um limite honesto desta reportagem. As fontes consultadas confirmam o local, o número de participantes, o tema e os 18 batismos, mas não detalham a cidade de origem de cada adolescente nem quantos dos 200 presentes eram ucranianos e quantos poloneses. Onde os documentos oficiais não trazem o dado, este texto prefere não estimar.
O que essa história diz ao Desbravador
Do outro lado do mundo, o episódio funciona como um espelho para qualquer clube. O ideal do Desbravador fala em servir aos outros e em amizade, e aqui os dois princípios saíram do papel de um jeito difícil de esquecer: um clube abriu o próprio acampamento para quem tinha perdido o seu.
Não foi uma ação de grande estrutura internacional, mas de lideranças locais que decidiram somar esforços. Poloneses puseram a logística; ucranianos, o programa. Juntos, transformaram uma semana de verão num ponto de reencontro para adolescentes marcados pela guerra — e, para 18 deles, num momento de decisão espiritual.
É o tipo de notícia que ajuda a entender o alcance do movimento. Do Brasil à Polônia, da Ucrânia à África, o mesmo lenço e o mesmo ideal aparecem em contextos radicalmente diferentes. Quando a história aperta, um clube de Desbravadores raramente fica de braços cruzados — e essa, talvez, seja a lição mais duradoura de Waszeta.