Quem já acampou perto de um brejo conhece o coral que começa quando escurece. Esse barulho é a porta de entrada da especialidade de Anfíbios, uma das conquistas de Estudos da Natureza do Clube de Desbravadores, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que pede que você conheça de perto sapos, rãs, pererecas, salamandras e cobras-cegas.
Como pede o Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, da Divisão Sul-Americana (DSA), este guia traz o conteúdo de forma ampla, com fontes como o Instituto Butantan e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para que você escreva as próprias respostas. O texto oficial de cada item está na ficha com os requisitos completos da especialidade de Anfíbios.
O que pede a especialidade de Anfíbios dos Desbravadores?
A especialidade de Anfíbios tem o código EN-023 e pertence à área de Estudos da Natureza. No catálogo, aparece como nível 2, criada em 1945 pela Associação Geral, com 11 requisitos: nove de estudo e dois práticos.
Ela também cumpre item de classe. No cartão da classe Companheiro, a dos 11 anos, a seção de Estudo da Natureza pede uma especialidade entre oito opções, e Anfíbios abre a lista. O quadro resume cada requisito, sem respostas.
| Nº | O que o requisito pede | Tipo |
|---|---|---|
| 1 | Descrever as características dos anfíbios | Estudo |
| 2 | Nomear as 3 ordens da classe Amphibia e suas diferenças | Estudo |
| 3 | Diferenciar sapo, rã e perereca, com imagens | Estudo |
| 4 | Explicar como os anfíbios se protegem | Estudo |
| 5 | Reunir imagens de 10 espécies do seu estado ou país | Prática |
| 6 | Descrever ou esquematizar o ciclo de vida de um anuro | Estudo |
| 7 | Explicar o valor econômico dos anfíbios | Estudo |
| 8 | Dizer onde os sapos passam o inverno ou a estação seca | Estudo |
| 9 | Explicar o canto: o que amplifica o som, quem coaxa e para quê | Estudo |
| 10 | Observar um anfíbio por cerca de 15 minutos e fazer relatório | Prática |
| 11 | Contar do que e como a maioria dos anuros se alimenta | Estudo |
Resumo da ficha EN-023 do catálogo; texto oficial na página da especialidade.
Quais são as características dos anfíbios e quais as três ordens?
Na maioria das espécies, a vida tem duas fases: uma larva aquática, que nos anuros se chama girino, e um adulto terrestre depois da metamorfose. Segundo o Laboratório de Herpetologia da UFRGS, a pele é permeável, funciona como principal órgão respiratório, se mantém úmida com glândulas de muco e guarda glândulas de veneno. Os anfíbios são ectotérmicos, dependem do calor do ambiente, e seus ovos não têm casca.
O Brasil é o país com mais espécies de anfíbios do mundo. A lista da Sociedade Brasileira de Herpetologia (SBH) de 2021 registrou 1.188, e o Guinness World Records cita pelo menos 1.222 em 2023.
As cinco salamandras brasileiras são do gênero Bolitoglossa, da família das salamandras sem pulmão, que respiram pela pele e pelo fundo da boca, segundo o AmphibiaWeb, da Universidade da Califórnia. As cecílias levam o apelido de cobra por não terem patas e viverem enterradas; para separar as serpentes de verdade, veja o guia da especialidade de Répteis.
| Ordem | Quem são | Corpo | Espécies no mundo | No Brasil |
|---|---|---|---|---|
| Anura | Sapos, rãs e pererecas | Sem cauda no adulto; patas traseiras longas | 8.055 | 1.144 |
| Caudata | Salamandras e tritões | Quatro patas e cauda longa | 846 | 5, só na Amazônia |
| Gymnophiona | Cecílias ou cobras-cegas | Alongado, com anéis e sem patas | 235 | 39 |
Fontes: AmphibiaWeb (contagem de 6/10/2026); lista da SBH (Segalla e colaboradores, 2021); UFRGS.
Qual a diferença entre sapo, rã e perereca?
Sapo, rã e perereca são nomes populares, todos para anuros, nome que vem do grego e significa sem cauda. E a rã não é a mulher do sapo: o Instituto Butantan lembra que há machos e fêmeas nos três grupos.
No Brasil, o sapo mais famoso é o cururu, nome tupi para os sapos do gênero Rhinella, com mais de 30 espécies no país; a amazônica Rhinella marina pode chegar a 1 kg. Já a rã de restaurante é a rã-touro (Aquarana catesbeiana), nativa dos Estados Unidos e do Canadá e listada pela SBH como invasora. As pererecas passam de 350 espécies no Brasil.
| Sinal | Sapo | Rã | Perereca |
|---|---|---|---|
| Pele | Mais seca e rugosa | Úmida, viscosa e brilhante | Muito úmida, lisa e brilhante |
| Patas traseiras | Curtas e robustas; anda mais do que salta | Longas e fortes; ótima saltadora | Finas e longas; salta e escala |
| Ponta dos dedos | Sem discos | Sem discos | Discos adesivos, como ventosas |
| Onde vive | Em terra; volta à água para se reproduzir | Na água ou perto dela | Árvores; escala até paredes |
| Marca registrada | Glândulas parotoides atrás da cabeça | Foge saltando para a água | Menor e mais leve |
| Família comum no Brasil | Bufonidae | Leptodactylidae (jias) | Hylidae |
Fonte: Instituto Butantan (11/07/2024 e 27/06/2025), com orientação do pesquisador Carlos Jared.
Como os anfíbios se protegem?
A primeira defesa está na pele. Nos sapos, o veneno fica em glândulas e só sai quando um predador morde ou aperta: é a defesa passiva descrita pelo Butantan, em que o sapo apenas infla os pulmões para expor as glândulas. A mistura reúne centenas de substâncias, de alcaloides a peptídeos. Por isso, a regra é classificar os anfíbios como venenosos, e não peçonhentos. O grupo de Carlos Jared, no Butantan, descreveu as exceções: as cecílias também têm glândulas de peçonha nos dentes, e a perereca-de-capacete (Corythomantis greeningi), da Caatinga, inocula veneno com cabeçadas, usando espinhos do crânio.
Outras estratégias completam o arsenal:
- Cores de alerta. O sapo-ponta-de-flecha (Adelphobates galactonotus), da Amazônia, mede de 3 a 4 cm, exibe laranja, amarelo, vermelho ou azul e tira seus alcaloides das formigas e dos cupins que come.
- Fingir de morto. A perereca-de-folhagem (Phyllomedusa burmeisteri), da Mata Atlântica, se esconde entre as folhas e, ameaçada, fica imóvel, comportamento chamado tanatose.
Cores de aviso e disfarce aparecem em muitos bichos, como mostra o artigo sobre a camuflagem dos animais.
Como é o ciclo de vida do sapo, do ovo ao adulto?
No sapo-cururu, a fêmea bota na lagoa ovos sem casca, em cordões que lembram uma fita. Os girinos respiram por brânquias, nadam com a cauda e, em geral, comem algas, que filtram da água ou raspam de pedras e folhas, segundo a Revista Brasileira de Zoologia.
A metamorfose é comandada pelos hormônios da tireoide: as patas traseiras crescem primeiro, e a cauda só encolhe quando elas já assumem o nado (Frontiers in Endocrinology, 2019). Brânquias e cauda são reabsorvidas, e o adulto passa a respirar por pulmões e pele, voltando à água só para se reproduzir.
Os anuros variam muito: em 2005, os pesquisadores brasileiros Célio Haddad e Cynthia Prado propuseram dez modos de reprodução novos e elevaram para 39 o total conhecido no grupo. A perereca-de-folhagem desova em folhas enroladas como um funil, penduradas na beira de lagoas, e os girinos caem na água, segundo o Museu de Zoologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Há ainda espécies que saem do ovo sem passar pela fase de girino.
E quando a água some? No sertão do Rio Grande do Norte, o sapo Pleurodema diplolistris passa 10 ou 11 meses por ano enterrado na areia, sem comer, em estivação, o equivalente de verão à hibernação. Nesse período, o consumo de oxigênio em repouso cai pela metade, segundo a Revista Pesquisa FAPESP.
Como os anuros coaxam e do que se alimentam?
Cada espécie tem um canto próprio. O canto de anúncio, emitido pelos machos, serve principalmente para atrair as fêmeas da mesma espécie, explica a UFRGS. Cantar tem custo: o som também guia predadores, como os morcegos que localizam os machos pelo canto. Luís Felipe Toledo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e colegas organizaram os cantos em três categorias: reprodutivos, agressivos e defensivos.
O volume vem do saco vocal, estrutura elástica por onde o ar circula durante o canto, amplificando o som, segundo estudo publicado em 2023 na revista científica Phyllomedusa. Ele pode ser único, duplo ou ausente. No sapo-cururu, a fêmea tende a ser maior e a não ter saco vocal.
Os adultos caçam sobretudo insetos e outros invertebrados, às vezes pequenos vertebrados. O Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos, mediu uma língua de rã dez vezes mais macia que a humana, mais rápida do que um piscar de olhos e com saliva que engrossa na volta. Até os olhos ajudam: em 2004, um estudo mostrou que a rã-leopardo-do-norte recolhe os olhos para empurrar a presa garganta abaixo.
Qual é o valor econômico dos anfíbios e o que os ameaça?
Os anfíbios consomem muitos invertebrados e ajudam a controlar pragas, aponta a UFRGS, e sapos-cururus chegaram a ser levados à Ásia e aos Estados Unidos na tentativa de controlar pragas agrícolas. A Austrália mostra o risco: em 1935, trouxe 102 sapos do Havaí contra besouros da cana e soltou 2.400 sem nenhum teste conhecido para saber se eles comeriam os besouros. Hoje o cururu é uma praga estabelecida por lá, segundo o programa australiano PestSmart.
A pele também interessa à medicina: em março de 2026, o Instituto Butantan divulgou peptídeos com potencial antibiótico, apontados por análise em computador, no veneno do cururu amazônico Rhaebo guttatus (revista Toxicon). A rã-touro é criada em ranários para consumo. E, por serem sensíveis a mudanças no ambiente, sapos, rãs e pererecas funcionam como indicadores de ecossistema saudável, segundo o Butantan.
Entre as ameaças aos anfíbios, a UFRGS cita perda de habitat, espécies exóticas, água contaminada, doenças e mudanças climáticas. A pior doença é a quitridiomicose, causada por fungos do gênero Batrachochytrium; o B. dendrobatidis, que ataca os três grupos de anfíbios, é o único dos dois já registrado no Brasil, segundo a Agência FAPESP. Estudo publicado na revista Science em 2019 ligou a doença ao declínio de pelo menos 501 espécies, com cerca de 90 extinções. No Brasil, pelo menos 50 espécies ou populações foram afetadas, sobretudo na Mata Atlântica, disse o coautor Luís Felipe Toledo à Agência FAPESP.
Essa riqueza nos impõe o dever de proteger essas espécies.Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN/ICMBio), citado pelo Instituto Butantan, 2024
Como conquistar a especialidade de Anfíbios (e a avançada)?
A coleção de 10 espécies aceita fotos ou imagens de livros e da internet. Prefira espécies do seu estado e anote nome popular, nome científico, ordem, família e a origem de cada imagem. Fotos próprias são o melhor caminho, desde que sem capturar o animal.
Para os 15 minutos de observação, procure uma lagoa ou um brejo depois da chuva, no começo da noite, sempre com um adulto. Registre data, hora, local, clima e comportamento no formato do caderno de campo do Desbravador. O requisito também aceita cativeiro, como zoológicos e museus com anfíbios em exposição.
Na Unidade, rendem boas reuniões uma noite de escuta, gravando cantos com o celular, e uma maquete do ciclo do girino. Erros comuns: chamar a rã de mulher do sapo, tratar a cobra-cega como serpente e levar girinos para casa. Arquivo pronto também não vale: o Manual Administrativo veta as especialidades respondidas, principalmente as da internet.
Depois vem a especialidade de Anfíbios Avançado (EN-054), de nível 3, criada em 2001, que exige a básica e termina num projeto simples de pesquisa. Antes de começar, revise com o seu instrutor os requisitos completos da especialidade de Anfíbios.