A especialidade de Pacificador tem só três requisitos, e a lista curta engana. Ela pede que você leia quatro passagens bíblicas com olhos de investigador, reconheça o seu jeito de reagir quando alguém pisa no seu calo e encene uma briga que você mesmo viveu. Este guia explica o conhecimento por trás de cada requisito, sem entregar respostas prontas. O texto oficial de cada item está nos requisitos completos da especialidade de Pacificador, no nosso catálogo.

O que é a especialidade de Pacificador?

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A especialidade de Pacificador leva o código AM-027 no catálogo do Desbravai e faz parte da área de Atividades Missionárias e Comunitárias. É de nível 1 e não tem pré-requisito. Nasceu em 2009 na Divisão Norte-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia, origem registrada na folha oficial de requisitos da AdventSource, o centro de recursos da igreja na América do Norte. Em inglês ela se chama Peace Maker, e a wiki de especialidades do Ministério Jovem da Divisão Norte-Americana confirma o nível 1 e o ano de 2009 e aponta a Associação Geral como instância de aprovação.

O nome sai do Sermão do Monte. Em Mateus 5:9, na Almeida Revista e Atualizada (ARA), Jesus diz: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." A palavra grega traduzida por pacificadores, eirēnopoiós, junta eirēnē (paz) e poieō (fazer) e aparece uma única vez no Novo Testamento. O estudo completo desse sermão está no guia sobre as Bem-Aventuranças.

A especialidade serve para qualquer desbravador de 10 a 15 anos e funciona muito bem para a unidade que acabou de passar por uma briga. Também prepara quem pensa em ser conselheiro um dia: antes de ajudar os outros, você aprende a enxergar o seu próprio conflito.

Quais são os requisitos da especialidade de Pacificador?

São três requisitos, e nenhum pede material ou custo. A tabela resume o que cada um cobra e sugere como chegar preparado.

As passagens do requisito 1 são "ponto de partida", então você pode buscar outras histórias. E o requisito 2 manda discutir com o conselheiro ou com a unidade, o que faz da especialidade uma atividade de grupo.

Quem pesquisar material em inglês vai encontrar uma versão maior. Lá são quatro requisitos: o primeiro pede definir conflito e diferenciar o conflito bom do ruim, e a primeira leitura indicada é Atos 15, no lugar de Gálatas 2. Siga a versão em português do cartão usado pelo seu clube.

Se você chegou aqui procurando a especialidade de Pacificador respondida, saiba que os requisitos 2 e 3 dependem da sua história pessoal. O guia sobre especialidades respondidas mostra o caminho certo para estudar sem copiar.

NºO que o requisito pedeComo se preparar
1Identificar quatro causas de conflito descritas na Bíblia, partindo de Gálatas 2:11-14, 1 Coríntios 12:12-31, Gênesis 13:1-12 e Tiago 4:1-3Ler cada trecho no contexto e anotar o que provocou a tensão
2Explicar negação, ataque e conciliação e discutir com o conselheiro ou a unidade, com exemplos bíblicos e experiências própriasLevar um exemplo bíblico e um pessoal para cada forma
3Dramatizar um conflito ocorrido com você e analisar o seu comportamento e as opções de conciliaçãoEscolher um caso pequeno e já resolvido e trocar nomes

Fonte: catálogo de especialidades do Desbravai (AM-027), resumido. Confira o texto integral no catálogo e no cartão do seu clube.

Quais causas de conflito aparecem na Bíblia?

O primeiro requisito transforma você em detetive de texto. Leia cada passagem com o capítulo inteiro em volta, de preferência em duas versões, e anote o que cada lado queria e o que estava em jogo.

Tiago é o mais direto dos quatro textos. Na ARA, Tiago 4:1 pergunta: "De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?" Repare no destinatário: Tiago escreve para cristãos, e a Bíblia não esconde que briga entre gente da igreja é antiga.

Escreva cada causa numa palavra e depois numa frase sua. Em seguida, teste a lista contra uma briga real do último acampamento: se a causa explica aquela briga, você entendeu o texto.

PassagemO que acontece na cenaPergunta para a sua investigação
Gênesis 13:1-12Abrão e Ló têm rebanhos demais para a mesma terra, e os pastores dos dois entram em contendaO que faltava ali, e como Abrão propôs resolver?
Gálatas 2:11-14Em Antioquia, Pedro deixa de comer com os gentios quando chegam alguns da parte de Tiago, e Paulo o confronta diante de todosO que Pedro temia, e que efeito o gesto dele teve nos outros?
1 Coríntios 12:12-31Paulo compara a igreja a um corpo em que nenhum membro pode dizer ao outro que não precisa deleQue atitude entre os membros abre espaço para a divisão?
Tiago 4:1-3Tiago pergunta de onde vêm as guerras e contendas e aponta para dentro da própria pessoaQue palavras do texto descrevem o que acontece no coração?

Cenas resumidas a partir da ARA. As respostas ficam com você e o seu instrutor.

Negação, ataque e conciliação: de onde vêm as três formas de reagir?

As três palavras do requisito 2 têm origem conhecida. Elas resumem a "ladeira escorregadia do conflito" (slippery slope), modelo apresentado no livro The Peacemaker (1991) por Ken Sande, fundador da Peacemaker Ministries, formado como engenheiro, advogado e mediador. A versão em inglês da especialidade pede que o desbravador identifique cada parte dessa ladeira.

A imagem é a de um morro coberto de gelo: numa encosta ficam as respostas de fuga (a negação do catálogo em português), na outra as de ataque e no topo as que fazem a paz. Quem se afasta do topo escorrega, e uma reação ruim costuma puxar outra pior.

Sande dá uma chave útil para a discussão: quem foge pensa em si (eu), quem ataca culpa o outro (você) e quem concilia olha para os dois (nós). Ele chama a fuga de peace-faking, fingir paz, e observa que isso é comum na igreja, onde a aparência de paz muitas vezes preocupa mais do que a paz real.

Sair de perto nem sempre é fuga errada: o próprio Sande admite se afastar por um tempo para se acalmar e orar, e diante de ameaça ou abuso afastar-se é legítimo. Se a sua "briga" for, na verdade, um grupo que zoa sempre a mesma pessoa, o caminho é outro: veja como lidar com o bullying quando te zoam.

Dentro da conciliação cabem caminhos diferentes: deixar passar uma ofensa pequena, conversar e perdoar quando a ofensa machucou (o passo a passo de Mateus 18 está em perdão e reconciliação) ou pedir ajuda a alguém de fora, assunto da especialidade avançada.

FormaO que a pessoa buscaFoco, segundo SandeComo aparece no grupo de WhatsApp da unidade
Negação (fuga)Evitar o desconforto em vez de resolverEuFingir que não leu, sair do grupo e continuar magoado
AtaqueVencer a discussão, mesmo que a amizade se percaVocêIndireta no status, print espalhado, apelido maldoso
ConciliaçãoUma solução justa para os dois ladosNósDeixar passar uma provocação pequena ou conversar a sós

Adaptado de Ken Sande, The Peacemaker (3ª edição), capítulo 1. Exemplos de WhatsApp elaborados pelo Desbravai.

Leia tambémEspecialidade de Aventuras com Cristo

Como fazer a dramatização de conflitos que a especialidade pede?

O requisito 3 pede que você dramatize um conflito que aconteceu com você, analise o seu comportamento e procure as opções de conciliação. Na versão em inglês, o requisito equivalente pede um reverse role-play, com inversão de papéis: você interpreta a outra pessoa da briga, e um colega faz o seu papel.

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Prefira um conflito pequeno, já esfriado e seu, como a discussão sobre quem lavaria as panelas no acampamento. Troque nomes e detalhes, nunca encene a briga de um colega e deixe fora do palco agressão física, abuso ou humilhação séria: esses casos pedem conversa com um adulto de confiança.

Um roteiro simples: conte a história em três frases, encene como aconteceu, congele a cena no momento em que alguém escorregou, repita com os papéis invertidos e reencene testando uma saída de conciliação.

Para envolver a unidade, use a lógica do Teatro-Fórum, técnica criada pelo brasileiro Augusto Boal: depois da apresentação, a plateia sobe ao palco, entra na cena e propõe alternativas. O facilitador, chamado Curinga, pode ser o conselheiro.

Pergunta da análiseO que observar na cena
Onde eu estava na ladeira?Se a primeira reação foi fugir, atacar ou buscar acordo
O que eu senti e do que eu precisava?O sentimento por trás da reação
O que o outro talvez precisasse?A versão dele, vista na inversão de papéis
Que saídas de conciliação existiam?Deixar passar, conversar a sós, negociar ou chamar um adulto
O que eu faria diferente hoje?Uma frase concreta que você diria

Roteiro de análise sugerido pelo Desbravai para o requisito 3.

Que ferramentas de mediação de conflitos as escolas e a Justiça usam?

Cultura de paz na escola tem lei por trás. A Lei nº 13.663, de 14 de maio de 2018, incluiu no artigo 12 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) duas incumbências das escolas: promover a conscientização, a prevenção e o combate a todos os tipos de violência, especialmente a intimidação sistemática (bullying), e "estabelecer ações destinadas a promover a cultura de paz nas escolas".

A Resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 29 de novembro de 2010, instituiu a Política Judiciária Nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses e considera a conciliação e a mediação "instrumentos efetivos de pacificação social". O Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), no artigo 165, § 2º, permite que o conciliador sugira soluções, mas proíbe qualquer constrangimento ou intimidação para que as partes façam acordo. Se nem o conciliador de um tribunal pode pressionar alguém a fechar acordo, o conselheiro da unidade também não pode.

Para o dia a dia, a ferramenta mais prática é a Comunicação Não Violenta (CNV), sistematizada pelo psicólogo Marshall Rosenberg em quatro elementos, segundo cartilha do Ministério Público de Minas Gerais: observação, sentimentos, necessidades e pedidos. Num grupo de mensagens, fica assim: "Quando você mandou no grupo o print da minha mensagem particular, eu fiquei com vergonha, porque preciso confiar que o que eu falo só com você fica entre nós. Você pode apagar e, da próxima vez, falar comigo direto?"

Para o conselheiro que vai sentar com dois desbravadores brigados, o roteiro de escuta e de acordo está em como resolver conflitos na unidade.

Dica para o grupo da unidade: assunto delicado não se resolve por texto. Chame a pessoa para falar a sós, pessoalmente ou por ligação.

Como conquistar a especialidade de Pacificador sem cair nos erros comuns?

Para o clube, divida a unidade em quatro grupos, um por passagem do requisito 1. Faça o termômetro da ladeira: uma linha no chão, com a fuga num canto, o ataque no outro e a conciliação no meio; leia situações curtas e cada um se posiciona onde costuma reagir. Encerre com um combinado do grupo de WhatsApp escrito pelos desbravadores, como "print de conversa particular não circula".

Os erros mais comuns: copiar uma lista pronta de causas, confundir paz com silêncio (negação disfarçada de virtude), encenar a briga de um colega, transformar a análise num julgamento sobre quem estava certo e tratar bullying como briga comum.

Sande coloca a fofoca entre as formas de ataque, e ela se disfarça fácil de conversa inocente; veja o guia sobre língua e fofoca.

Depois da conquista, o próximo degrau é a especialidade de Pacificador avançado (AM-028), de nível 3, que exige no mínimo 15 anos e a especialidade básica concluída. Ela trata de mediação, arbitragem, litígio e conciliação, e entre as opções práticas estão assistir a uma audiência de conciliação e a uma de instrução e julgamento ou atuar como conciliador voluntário num Juizado Especial por no mínimo seis meses.

Antes de começar, confira item por item os requisitos completos da especialidade de Pacificador no catálogo e combine com o seu instrutor como cada parte será avaliada.