Fundar o clube é a parte que tem manual bonito e foto de votação na ata. O que quase ninguém conta é o que fazer na segunda-feira seguinte — quando a igreja já aprovou, o Campo já devolveu o nome oficial e você tem 30 crianças inscritas, duas barracas emprestadas e nenhuma ideia de por onde começar.

Este guia cobre a etapa seguinte à fundação. Se o seu clube ainda está na fase da votação, do pastor e do aconselhamento com a Associação, comece por como abrir um clube de Desbravadores. Se já passou disso, é aqui: os primeiros 90 dias, divididos em doze reuniões e três blocos de checklist — o que registrar, o que comprar e o que formar primeiro.

Tudo o que está marcado como norma vem do Manual Administrativo do Clube de Desbravadores (Divisão Sul-Americana, edição 2020) e das Orientações do Ministério de Desbravadores (OMDs). O resto — a ordem das reuniões, o que cabe em cada domingo — é montagem editorial em cima do que a norma exige, e está sinalizado como tal.

O clube foi aprovado. O que muda a partir de agora?

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Até a aprovação, quem conduzia era a igreja: a Comissão da Igreja vota a fundação, escolhe os líderes que vão formar o clube e envia ao Campo três sugestões de nome, em ordem de preferência. É o Ministério de Desbravadores da Associação ou Missão que analisa e divulga o nome oficial aprovado (Manual Administrativo, seção 5.1). A partir do momento em que esse nome volta, a bola muda de mão.

O que a norma escreve. O diretor e os diretores associados são indicados anualmente pela Comissão de Nomeações da igreja local. O diretor precisa ter no mínimo 18 anos, ser membro regular da Igreja Adventista, concluir o Curso de Treinamento Básico de diretoria e, de preferência, ser investido em Líder — se ainda não for, deve iniciar imediatamente o cartão de Classes Agrupadas e depois o de Líder. Todos os outros cargos (conselheiros, instrutores, tesoureiro e capelão) não são nomeados pela igreja: são nomeados pela Comissão Executiva do clube, formada pelo diretor, pelos associados, pelo secretário e pelo pastor distrital ou ancião.

O que varia — e quem decide. A data do Curso de Treinamento Básico, o calendário de eventos do Campo, o valor da mensalidade, a data-limite de cadastro para o seguro e até o dia da semana da reunião mudam de Associação para Associação e de ano para ano. Quem responde por isso é o seu Regional ou Distrital, não o manual. Ligue para a secretaria do Ministério de Desbravadores do Campo e peça o calendário do ano antes de marcar qualquer coisa.

Por que isso importa. Clube novo costuma morrer por dois motivos opostos: ou a diretoria fica esperando alguém de fora dizer o que fazer, ou o diretor tenta fazer tudo sozinho. O Manual é explícito sobre o segundo: as comissões existem para descentralizar o trabalho — “não é bom que toda a direção do clube fique sobre uma ou duas pessoas apenas”. Reunião de Comissão Executiva e de Comissão Regular acontece pelo menos uma vez por mês (seção 3.3.6). O próprio Manual é mais exigente em outro trecho: no capítulo de planejamento ele diz que “é importante que a Comissão Regular do Clube se reúna semanalmente para manter o planejamento em execução” e que toda reunião deve ser precedida por uma rápida reunião da direção. As duas leituras estão no mesmo documento: o mínimo é mensal, o recomendado é semanal.

O que registrar, comprar e formar primeiro?

A tentação do clube novo é comprar antes de registrar. É o caminho errado: barraca sem seguro é dívida com risco. A tabela abaixo organiza os 90 dias em três blocos, na ordem em que a norma cobra cada coisa. Ela é uma organização editorial — o Manual não publica esse quadro —, mas cada linha aponta para uma exigência real.

BlocoRegistrarComprar / providenciarFormar
Dias 1 a 15
(antes da primeira reunião)
Cadastro do clube no SGC; ata da votação da igreja; ofício pedindo o local das reuniõesLivro de atas numerado com termo de abertura, pasta por membro, formulários de inscrição e de ficha de saúdeComissão Executiva e Comissão Regular constituídas; nomes dos conselheiros e instrutores votados
Dias 16 a 45
(reuniões 1 a 5)
Todos os membros ativos no SGC com ficha médica; unidades cadastradas; agenda anual aprovada pela Comissão da IgrejaBandeiras (Brasil, estado, município, Desbravadores e clube), bandeirim de cada unidade, caixa de primeiros socorrosUnidades divididas por sexo e idade; capitão e secretário de cada unidade eleitos; cartão “Nosso Clube” iniciado com os novatos
Dias 46 a 90
(reuniões 6 a 12)
Seguro anual solicitado (cadastro ativo no SGC); autorizações escritas dos pais para a primeira saída; livro de atos abertoUniforme oficial e lenços com prendedor; material da primeira especialidade; equipamento de camping conforme o orçamentoClasses regulares em andamento por idade; primeira atividade fora da sede; cerimônia de admissão marcada

Duas coisas dessa tabela são norma dura, não sugestão. A primeira: toda atividade que acontece fora da sede precisa ser aprovada pela Comissão da Igreja, e o planejamento anual do clube é aprovado por ela no início do ano — o que, na prática, transforma a agenda do ano em documento votado (Manual, seções 4.9 e 4.9.2). A segunda: todo movimento financeiro do clube passa pela tesouraria da igreja local — o Manual chama de inaceitável o clube manter “caixa dois”. O tesoureiro do clube controla entradas e saídas, mas não guarda o dinheiro.

Sobre a mensalidade, o Manual é direto: todos pagam, inclusive os membros da diretoria. Em região de baixa renda o valor deve ser simbólico, mas deve existir — a lógica declarada é educativa, mostrar que o que vale a pena tem custo. O valor em si é decidido no clube, dentro da realidade das famílias.

Como fica o cronograma das 12 primeiras reuniões?

Aviso de honestidade antes da tabela: o Manual Administrativo não publica um cronograma de doze reuniões. Ele define o que precisa acontecer (a estrutura da reunião, a eleição dos oficiais de unidade, o período de adaptação, a admissão) e deixa a sequência com a diretoria. O quadro abaixo encadeia essas exigências em ordem, considerando reuniões semanais aos domingos — o formato recomendado pela norma.

#SemanaO que aconteceÂncora na norma
11Cerimônia de abertura: o diretor declara abertas as atividades e crava a machadinha no tronco. Apresentação da diretoria, divisão das unidades e eleição do capitão e do secretário de cada unidadeManual 4.10.1 (abertura) e 3.2.2 (eleição na primeira reunião do ano)
22Primeiro roteiro completo: civismo, hino, ideais, devocional, ordem unida, cantinho da unidade, instrução e recreação. Recolher fichas de cadastro e fichas de saúde que faltaramManual 4.6 (estrutura das reuniões) e 3.4.2 (cadastro e ficha de saúde)
33Início do cartão “Nosso Clube” com os novatos: história, ideais, emblemas e o básico do funcionamento do clubeManual 4.10.2 (requisito para receber o lenço)
44Primeira instrução de Classe por idade, com cerca de 50 minutos reservados. Ordem unida em treino curto, no máximo 30 minutosManual 4.1.1 (instrução) e 4.5.7 (limite do treino)
55Segunda reunião de pais — a primeira, pela norma, é no próprio dia das inscrições: retomada das normas do clube, das responsabilidades e do programa do ano. Conselheiros seguem com a visitação aos laresManual 5.1, item 7 (reunião de pais no dia das inscrições) e item 8 (visitação depois das inscrições); 3.3.5 (programa de visitação do conselheiro)
66Primeira atividade fora da sede: caminhada curta ou projeto comunitário. Autorização escrita dos pais se sair do perímetro urbanoManual 4.6 (sair da sede pelo menos uma vez por mês; autorização por escrito)
77Primeira especialidade do clube, com turma pequena o bastante para o instrutor dar atenção a todosManual 4.2 (Especialidades)
88Cantinho da unidade com identidade completa: nome, bandeirim, grito de guerra e pasta da unidade em diaManual 3.2.1 (identidade instituída pela Comissão Executiva)
99Ensaio da cerimônia de admissão e conferência do uniforme oficial de gala peça por peça. O ensaio é prática de clube; o que a norma exige é o uniforme completo no diaManual 4.10.2 (uniforme oficial de gala obrigatório para receber o lenço)
1010Avaliação do cartão “Nosso Clube”: o clube e o Regional avaliam cada candidato ao lençoManual 4.10.2 (avaliação com o Regional)
1111Projeto comunitário e reunião de Comissão Regular de balanço dos 90 dias, com diagnóstico honesto: quem ficou, quem sumiu, o que não funcionou. As comissões já vinham se reunindo desde o primeiro bloco — esta é a de fechamento do cicloManual 3.3.6 (funções da Comissão Regular) e 6.2 (atividades comunitárias)
1212 a 13Cerimônia de admissão: entrega do lenço a quem cumpriu o cartão e permaneceu no período de adaptaçãoManual 5.1, item 8 (adaptação de 2 a 3 meses) e 4.10.2 (admissão)

Repare que a reunião 12 cai por volta do dia 85 — dentro da janela de 2 a 3 meses que o Manual conta a partir do dia das inscrições para o fim do período de adaptação. Não é coincidência: os 90 dias do clube novo terminam com o lenço no pescoço de quem ficou. Como a contagem começa nas inscrições e não na reunião 1, o seu calendário pode fechar um pouco antes ou um pouco depois. Para o detalhe do que acontece dentro de cada domingo, o roteiro de reunião abre a manhã minuto a minuto.

O que varia: muitos clubes reúnem aos sábados à tarde, fora do horário do culto jovem, e o Manual aceita — desde que o programa oficial não seja prejudicado. Também é comum o Campo pedir uma folga mensal para as famílias. Ajuste o cronograma ao calendário da sua Associação antes de imprimir.

Leia tambémRoteiro de reunião do clube

Quantas unidades e quantos conselheiros o clube precisa?

Essa é a conta que mais confunde diretoria nova, e a norma é bem específica. Cada unidade tem de 6 a 8 desbravadores, agrupados por sexo e faixa etária aproximada, e é coordenada por um conselheiro e, no máximo, um conselheiro associado.

CenárioUnidadesDivisãoConselheiros necessários
Ideal descrito no Manual126 masculinas e 6 femininas, uma para cada idade (10 a 15 anos)12
Mínimo de trabalho63 masculinas e 3 femininas, nas faixas 10-11, 12-13 e 14-15 anos6
Clube com 30 inscritos4 a 5Respeitando o teto de 8 por unidade4 a 5

O que a norma escreve. O padrão de 6 a 8 deve sempre ser seguido: se sobrar gente, cria-se outra unidade para a mesma idade; se faltar, o clube faz campanha para inscrever mais desbravadores. Os nomes das unidades são instituídos pela Comissão Executiva, devem ter relação com o nome do clube e nunca são alterados — a unidade não deixa de existir mesmo quando fica inativa. O capitão e o secretário de unidade são desbravadores de 10 a 15 anos, eleitos por votação da própria unidade na primeira reunião do ano, com mandato de três meses a um ano conforme a Comissão Executiva definir.

Quem pode ser conselheiro. O Manual exige cristão convertido, membro batizado e no mínimo 16 anos. A OMD 009/2014 confirma os 16 anos para conselheiro de unidade e demais funções de liderança, fixa 18 anos para o diretor e crava a regra que vale para tudo: nenhuma atividade acontece sem um adulto maior de idade presente. Ao mesmo tempo, o capítulo de fundação recomenda conselheiros maiores de idade — homem para unidade de meninos, mulher para unidade de meninas. Na prática: um jovem de 16 anos pode conduzir uma unidade, nunca sozinho.

Por que isso importa. O sistema de unidades é o núcleo do clube; se ele é deficiente, o Manual diz que o clube perde o foco. Vale entender o desenho completo em o que é o sistema de unidades antes de improvisar grupos de quinze crianças com um conselheiro só.

O que a secretaria e a tesouraria precisam ter antes da reunião 1?

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O Manual chama a secretaria de “raio X do clube”. Num clube novo ela é mais que isso: é a única prova de que aquilo existe. Comece pelo mínimo viável:

  • Livro de atas — registro das reuniões da Comissão Executiva e da Regular. Páginas numeradas, termo de abertura na primeira folha, anotações sem pular linha e sem rasura, datadas e assinadas pelo secretário e pelo diretor.
  • Livro de atos — o histórico das atividades: um relatório curto depois de cada evento, com fotos. Sem formalidade obrigatória.
  • Pasta individual por membro — ficha de cadastro (formulário A), ficha de saúde (formulário B), cópias de certificados e avaliações da unidade.
  • Pastas das unidades — guardadas na secretaria, retiradas só para atualização.
  • Livro de ouro — registro dos padrinhos e parceiros que ajudam financeiramente, com data e assinatura.
  • Ofícios — o documento oficial para pedir sala de escola, apoio ou material a empresas e órgãos públicos.

A ficha de saúde merece atenção especial no clube novo, porque é ela que evita o susto na primeira saída: alergia, doença crônica, medicação em horário de reunião. Se o desbravador precisa tomar remédio durante o programa, isso tem que constar na ficha, com cópia da prescrição médica anexada. E mesmo com o cadastro digital no SGC, o Manual pede uma cópia física na secretaria.

Na tesouraria, três regras fecham o assunto: todo o movimento passa pela tesouraria da igreja local; o tesoureiro do clube não é quem guarda o dinheiro; e não se acumula secretaria e tesouraria na mesma pessoa, a menos que ela tenha muito tempo livre. Se houver dificuldade para liberar recursos, o caminho é o pastor distrital e, persistindo, o Ministério de Desbravadores do Campo.

Seguro e SGC: por que isso vem antes da primeira saída?

Porque sem cadastro ativo não há cobertura. O seguro anual deixou de ser opcional em 2010, por decisão entre a Divisão Sul-Americana e o Ministério de Desbravadores, e é operado pela ARM Sul-Americana. O Manual registra a vigência de 1 ano e a forma de contratação como sistema on-line; o seguro anual é um dos módulos que o SGC administra, e o que habilita a cobertura é o cadastro do membro ativo e atualizado. Se o seu Campo exige algum passo adicional além do cadastro, é ele quem informa — pergunte.

Quem entra. Todo membro regular e ativo com cadastro atualizado — diretoria, membros, regionais e coordenadores. Quem não entra: equipe de apoio, pais que acompanham o clube, anciãos e qualquer pessoa que não seja membro regular. Isso costuma pegar clube novo de surpresa na primeira caminhada, quando três pais resolvem ir junto.

O que o seguro cobre. Morte acidental, invalidez permanente por acidente, despesas médicas, hospitalares e odontológicas, resgate emergencial e repatriação — e vale inclusive no trajeto de casa até o local da atividade, desde que a atividade tenha sido autorizada pela comissão da igreja local. O sinistro precisa ser comunicado pelo diretor em até 20 dias corridos, e o pagamento é por reembolso: o clube ou a família adianta e depois pede de volta. Os detalhes estão em seguro anual do clube.

Sobre prazos e valores, seja cético. O Manual, na edição 2020, descreve faturamento semestral em abril e agosto e orienta que o clube obtenha do Campo qual é a data-limite de cadastro. Houve comunicados posteriores da DSA alterando o processo. Não confie em data que você leu na internet — inclusive aqui: ligue para a sua Associação ou Missão e confirme a janela do ano.

E onde entra o Desbravai. Com todas as letras: o SGC é insubstituível. Registro oficial do clube e dos membros, seguro anual, cartão virtual de classe e a classificação por estrelas só existem lá — nenhum sistema de terceiro faz isso, e nenhum deve tentar. O Desbravai serve para o outro lado do dia a dia (organizar reuniões, unidades, presença, comunicação com as famílias), e não substitui um único campo do SGC.

Quando o clube entrega o lenço — e o que vem depois dos 90 dias?

O lenço não se entrega no dia da inscrição. O Manual descreve um tempo de adaptação, geralmente de 2 a 3 meses, em que o desbravador descobre se quer mesmo continuar — e avisa a diretoria para não se assustar com desistências nesse período. Quem permanece recebe o lenço na cerimônia de admissão.

Para ser admitido, o candidato precisa cumprir todos os requisitos do cartão “Nosso Clube”, disponível na Associação ou Missão e no site oficial. Concluído o cartão, o clube e o Regional fazem uma avaliação; aprovado, ele vai à cerimônia. A cerimônia tem elementos obrigatórios: hino dos Desbravadores, ideais, bandeiras, uniforme oficial de gala e oração de dedicação. Detalhe que quase todo clube novo erra: a admissão é o único momento em que o desbravador usa o uniforme sem o lenço — e ele só pode usar o uniforme depois de aprovado. O passo a passo está em admissão em lenço.

Passados os 90 dias, o clube entra no ritmo normal do ano: classes por idade caminhando, uma saída da sede por mês, projeto comunitário periódico, comissões reunidas mensalmente e o calendário do Campo pesando cada vez mais. No fim do ano vêm a investidura, a entrega da Insígnia de Excelência (indicada pela Comissão Regular e confirmada pela Comissão Executiva, exigindo ser membro ativo do clube por um ano ou mais) e a classificação do clube no SGC.

Sobre a classificação, vale saber desde já: são 15 critérios e até 1.000 pontos, e o clube chega a 5 estrelas acima de 800 pontos. Três critérios empatam no maior peso, com até 150 pontos cada: seguro anual, cantinho da unidade (ranking de unidades) e ranking do Campo. Dois deles são exatamente o que você organiza nos primeiros 90 dias; o terceiro depende da avaliação do seu Campo. Logo abaixo vêm cartões de classe (até 100) e ficha médica (até 75). As regras dessa classificação foram atualizadas em 1º de janeiro de 2024; confirme a versão vigente no portal oficial de clubes antes de traçar meta.