A busca é honesta e a frustração também: você quer colocar as regras do clube no papel, procura um estatuto do clube de desbravadores e não encontra nada oficial. Não é falha da sua pesquisa. Esse documento não existe, e o motivo é simples: o clube não é uma entidade separada. Ele é uma organização da igreja local, do mesmo jeito que a Escola Sabatina ou o Ministério da Criança.

Estatuto é a certidão de nascimento de uma pessoa jurídica: registro em cartório, CNPJ, assembleia, mandato, patrimônio próprio. O clube não tem nada disso. O que ele tem, e o Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, da Divisão Sul-Americana, manda ter, é um regimento interno (o manual usa a expressão “Regulamento Interno”): as regras de funcionamento do clube, escritas, conversadas com as famílias e entregues no ato da inscrição.

Aqui você vê a diferença entre os dois documentos, o que a norma oficial já decidiu e o seu regimento não pode contrariar, quem aprova o texto dentro da sua igreja e um modelo capítulo por capítulo para adaptar. Se o seu clube ainda está nascendo, comece por como abrir um clube.

Estatuto ou regimento interno: qual é o documento certo?

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São coisas diferentes, e a confusão é justíssima. No Brasil, quase toda organização que a gente conhece de perto, time de bairro, associação de moradores, ONG, nasce com estatuto. Estatuto é o ato constitutivo de uma pessoa jurídica: vai a cartório, gera CNPJ, define assembleia, mandato e patrimônio próprio. Regimento interno (ou regulamento interno) é outra categoria de documento: é a norma de funcionamento de um órgão que já existe dentro de uma entidade maior.

O Clube de Desbravadores está firmemente na segunda categoria. Ele funciona dentro da igreja local, e a igreja local funciona dentro da Associação ou Missão, o Campo, que é a pessoa jurídica de verdade. Quem quiser ver essa escada inteira, do clube até a Divisão, ela está em estrutura da organização.

ComparaçãoEstatutoRegimento interno do clube
O que éAto constitutivo de uma pessoa jurídicaNorma de funcionamento interno
Gera CNPJ?SimNão
Registro em cartórioObrigatórioNão se aplica
Quem aprovaAssembleia de associadosComissão Executiva do clube; a ratificação pela Comissão da Igreja local é prática consolidada, não texto de manual
PatrimônioDa própria entidadeDo clube, registrado e votado pela Comissão da Igreja
O clube de Desbravadores tem?NãoSim, o Manual Administrativo exige

O Manual Administrativo do Clube de Desbravadores (Divisão Sul-Americana, edição 2020, PDF gratuito) é direto no capítulo 2.5, sobre o comportamento do desbravador (p. 45-46): o clube deve elaborar um Regulamento Interno, ele deve ser analisado com os pais e as famílias devem ter acesso a ele no ato da inscrição do desbravador. Não está escrito como sugestão. Está escrito como dever. Todos os manuais estão reunidos em manuais oficiais dos Desbravadores.

Por que o clube não tem CNPJ próprio?

Porque ele nunca foi pensado como entidade autônoma. O Manual da Igreja, edição 2025, lista o Clube de Desbravadores no capítulo das organizações e oficiais da igreja local (p. 121, item 117) e resolve a questão do comando numa frase: o diretor e os diretores associados do clube são eleitos pela igreja. O diretor do clube também aparece na composição da Comissão Diretiva da igreja (p. 144, item 141), ele tem assento e voz lá dentro.

O Manual Administrativo detalha o mesmo desenho no capítulo 3.3.1: a indicação do diretor e dos associados é feita anualmente pela Comissão de Nomeações da igreja local, e eventuais substitutos são definidos pela Comissão da Igreja. Já os demais cargos, conselheiros, instrutores, tesoureiro e capelão, são nomeados pela Comissão Executiva do próprio clube (capítulo 3.3.6). Ou seja: quem nomeia a diretoria é a igreja; quem monta o time é o clube.

E há uma regra explícita, que quase ninguém conhece. O Suplemento da Divisão Sul-Americana do Manual da Igreja registra que uniões, associações, instituições e igrejas locais “não estão autorizadas a constituir uma pessoa jurídica” para abrigar atividades de clubes de desbravadores (e de outras frentes, como universitários, saúde ou assistência social) sem aprovação prévia da Comissão Diretiva da Divisão Sul-Americana. A referência normativa citada é o item B 115 dos Regulamentos Eclesiástico-Administrativos da DSA.

Agora a nuance honesta: se você pesquisar bases públicas de CNPJ, vai encontrar registros com “Clube de Desbravadores” no nome. Isso existe, mas não vira regra. Pela norma, a criação de pessoa jurídica depende daquela autorização prévia. Se o seu clube acredita que precisa de CNPJ para um convênio municipal, uma emenda, uma prestação de contas ou uma doação específica, o caminho é conversar com a tesouraria do Campo antes, nunca abrir por conta própria e avisar depois.

Sem CNPJ próprio, como o clube movimenta dinheiro e emite nota?

Pela tesouraria da igreja. O Manual Administrativo é categórico no capítulo 3.6: todo movimento financeiro do clube passa pela tesouraria da igreja local, e manter “caixa dois” é inaceitável. O tesoureiro do clube controla, registra e presta contas, mas não é ele quem guarda o dinheiro. Toda receita (mensalidade, subsídio da igreja, patrocínio, campanha) é repassada à tesouraria da igreja, que a mantém reservada para uso exclusivo do clube.

Nas compras, o capítulo 3.6.3 responde exatamente à dúvida que gera a busca por CNPJ: notas fiscais e contratações do clube devem sair no CNPJ do Campo local, nunca no CPF de um membro, e o número a ser usado deve ser consultado na tesouraria do Campo. Para acessar o dinheiro, o manual aceita dois caminhos: alguém paga e é reembolsado mediante nota, ou o tesoureiro da igreja adianta o valor e recebe a nota depois. O que não pode é combinar na hora e gerar desentendimento.

O patrimônio segue a mesma lógica (capítulo 3.6.5): a lista de bens do clube deve ser registrada e votada anualmente pela Comissão da Igreja local. Isso não é burocracia decorativa, é o que permite o seguro patrimonial da igreja ressarcir o clube em caso de furto. Barraca, fogão, bandeira e até itens sem valor comercial, como livro de atas e troféus, entram na lista. O passo a passo do dinheiro está em tesouraria do clube.

O que o seu regimento pode (e deve) fazer aqui: fixar o valor e a data da mensalidade, dizer como funciona o padrinho de quem não tem condições de pagar, e combinar que a cobrança de atraso é sempre em particular, nunca em público. O que ele não pode: criar conta paralela, caixa próprio ou qualquer arranjo que tire o dinheiro da tesouraria da igreja.

Leia tambémDocumentos obrigatórios do clube

O que o regimento do seu clube não pode contrariar?

Existe uma hierarquia, e ela é curta de decorar. Em primeiro lugar vem a lei brasileira, com destaque para o ECA. Depois o Manual da Igreja. Depois os documentos do ministério: Manual Administrativo, RUD (o Regulamento de Uniformes), as OMDs (Orientações do Ministério de Desbravadores) e as NEs (Notas Explicativas), o próprio Manual Administrativo, no capítulo 3.9, define OMD e NE como veículos oficiais da Divisão para regulamentar procedimentos e resolver casos omissos, e diz que o conteúdo delas tem efeito normativo. Só então vem o regimento do seu clube. Ele preenche o que está em aberto, nunca reescreve o que já foi decidido acima.

AssuntoQuem decideO regimento local pode mudar?
Faixa etária de 10 a 15 anosManual da Igreja e Manual AdministrativoNão
Nome oficial do clubeCampo aprova, entre três sugestões enviadas pela igrejaNão
Diretor e diretores associadosIgreja local (Comissão de Nomeações e voto da igreja)Não
Conselheiros, instrutores, tesoureiro e capelãoComissão Executiva do clubeSim, o rito pode estar escrito no regimento
Caixa do clube na tesouraria da igrejaManual Administrativo, cap. 3.6Não
Seguro anualDivisão Sul-Americana, obrigatório desde 2010Não
Uniformes e posição dos distintivosRUD, o Regulamento de UniformesNão
Bingo, rifa e aposta como fonte de recursoProibidos pelo Manual Administrativo, cap. 3.6.2Não
Castigo físico, humilhação ou constrangimentoProibidos pelo ECA (arts. 18-A e 232)Não
Mensalidade, horário, sistema de pontos, combinados da unidadeClube, via Comissão ExecutivaSim, é para isso que o regimento existe

A parte legal merece atenção redobrada, porque é onde regimentos caseiros costumam escorregar. O art. 18-A do ECA (Lei 8.069/1990), incluído pela Lei 13.010, de 26 de junho de 2014, garante à criança e ao adolescente o direito de ser educado e cuidado sem castigo físico e sem tratamento cruel ou degradante, e a própria lei define tratamento cruel ou degradante como a conduta que humilha, ameaça gravemente ou ridiculariza. O art. 232 vai além e tipifica como crime submeter criança ou adolescente sob autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou constrangimento.

Traduzindo para o texto do seu regimento: nada de flexão como castigo, nada de deixar o juvenil de pé na frente do clube, nada de apelido corretivo, nada de “exemplo” público. O Manual Administrativo já antecipa isso ao exigir que as implicações previstas no regulamento estejam de acordo com o ECA. Como escrever a parte disciplinar sem cair nessa armadilha está em disciplina positiva.

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Modelo de regimento interno: o que precisa ter, capítulo por capítulo

Primeiro, uma informação que economiza a sua tarde: até a apuração deste guia, em 12/07/2026, não localizamos no portal oficial de downloads da Divisão Sul-Americana um modelo obrigatório de regimento interno para Clube de Desbravadores. O que a norma exige é que o clube tenha o seu. O conteúdo é responsabilidade da diretoria, dentro dos limites da seção anterior.

Segundo, um aviso de irmão mais velho: não baixe o PDF de outro clube e troque o nome. Além de o texto refletir uma realidade que não é a sua, ele pode carregar cláusulas que contrariam o manual ou a orientação do seu Campo, e você só vai descobrir no dia em que precisar aplicar. Use a estrutura abaixo como esqueleto e escreva o seu.

CapítuloO que entra
I, Identidade e vinculaçãoNome oficial aprovado pelo Campo, igreja local a que o clube pertence, Associação ou Missão, data de fundação e a frase que declara o clube como organização da igreja local, subordinada ao Manual Administrativo da DSA
II, ObjetivosOs objetivos do clube alinhados ao Manual Administrativo, escritos em linguagem que qualquer pai entenda na primeira leitura
III, Quadro de membrosFaixa etária, ficha de inscrição, documentos exigidos, ficha médica, critérios de transferência e de desligamento
IV, Direitos e deveresO que o desbravador pode esperar do clube e o que o clube espera dele e da família: frequência, pontualidade, uniforme, cuidado com o material
V, Direção e comissõesCargos existentes, quem nomeia cada um, com que frequência se reúnem a Comissão Executiva e a Comissão Regular
VI, Reuniões, calendário e eventosDia, horário e local das reuniões, o que conta como presença, regras de saída, acampamento e transporte
VII, Vida financeiraValor e vencimento da mensalidade, padrinho para quem não pode pagar, tratamento reservado do atraso e o registro de que o caixa fica na tesouraria da igreja
VIII, UniformeQuando usar cada uniforme, remetendo ao RUD em vez de reescrever o RUD (que muda sem avisar o seu documento)
IX, Convivência e medidas educativasCombinados, gradação das medidas (conversa, comunicação à família, afastamento temporário de uma atividade), quem decide cada uma e a menção expressa ao ECA
X, Autorizações e proteçãoAutorização dos responsáveis para saídas, uso de imagem, tratamento de dados pessoais e as regras de proteção infantil adotadas pelo clube
XI, Vigência, aprovação e revisãoData de aprovação, número da ata, quem aprovou e a data da próxima revisão, o ideal é revisar uma vez por ano

Três escolhas de redação que fazem diferença na hora de aplicar: use medida educativa no lugar de “punição”; escreva a gradação (o que acontece na primeira, na segunda e na terceira vez) para que ninguém dependa do humor do dia; e inclua um capítulo curto dizendo que o que vale para o desbravador vale para a diretoria, uniforme, pontualidade e linguagem inclusive.

Quem aprova o regimento e como colocá-lo em vigor?

Aqui é preciso separar o que a norma escreve do que a prática consolidou. O Manual Administrativo não descreve um rito único para aprovar o regimento interno. O que ele diz, no capítulo 3.3.6, é que todos os processos administrativos do clube passam pela Comissão Executiva e só têm valor se aprovados por ela. Como o clube é uma organização da igreja local, e como é a Comissão da Igreja que vota patrimônio, nomes e atividades, o caminho adotado pela maioria dos clubes é votar na Comissão Executiva e levar à Comissão da Igreja para ratificar. Confirme o rito da sua região com o Regional ou o Distrital antes de imprimir.

  • 1. Escreva o rascunho com a Comissão Executiva, usando a estrutura da seção anterior.
  • 2. Vote na Comissão Executiva e registre a decisão em ata numerada, o livro de atas da secretaria é justamente onde os votos ficam de pé.
  • 3. Leve à Comissão da Igreja local para ratificação, junto com o pastor distrital ou o ancião que acompanha o clube.
  • 4. Apresente aos pais. O Manual Administrativo pede que o documento seja analisado com as famílias e que elas tenham acesso a ele no ato da inscrição.
  • 5. Colha a assinatura do desbravador e dos responsáveis num termo de compromisso declarando ciência das cláusulas.
  • 6. Marque a revisão para antes do início do próximo ano do clube.

O melhor momento para revisar é quando a diretoria monta o planejamento do ano, o regimento e o calendário nascem da mesma conversa. Uma diretoria que revisa o texto todo ano evita o clássico: descobrir, no meio de um conflito, que a regra citada já não existia mais.

Regimento no papel, registro no sistema: o que é o quê

Vale separar duas coisas que costumam se misturar na cabeça de quem está começando. O SGC, Sistema de Gerenciamento de Clubes é a plataforma oficial da Divisão Sul-Americana, no ar desde janeiro de 2015, com acesso em seis níveis (DSA, Uniões, Campos, Regionais, Distritais e clubes). É nele que o membro é cadastrado, que ficha médica, classes, especialidades, patrimônio e transferências ficam registrados, e é por ele que se contrata o seguro anual obrigatório. Como entrar está em SGC: o que é e como entrar.

Isso é insubstituível, e é bom dizer com todas as letras: nenhuma ferramenta particular registra membro na Associação, emite documento oficial ou contrata seguro. Se o desbravador não está no SGC, ele não está segurado, ponto. O regimento interno também não substitui esse registro: ele é a norma de convivência, não o cadastro.

O Desbravai fica no outro lado da mesa, e a comparação honesta é essa: ele ajuda no dia a dia, comunicação com as famílias, agenda, presença, e a distribuição de documentos como o próprio regimento, para que nenhum pai diga que nunca recebeu. É complemento, não troca. Quem faz o registro oficial e o seguro é o SGC, e continua sendo.