Quando um grupo de crianças se reúne num sábado à tarde para aprender a dar um nó, montar uma barraca ou cuidar da natureza, poucos imaginam que esse encontro faz parte de um movimento que atravessou continentes. A história de como os Desbravadores chegaram ao Brasil começa bem longe daqui — e levou pouco mais de uma década para cruzar o mundo.

A origem mundial 1907 – 1950

A semente do movimento está no trabalho da juventude da Igreja Adventista do Sétimo Dia, organizado oficialmente em 1907 sob o nome de Missionary Volunteer (Voluntários Missionários). Durante décadas, igrejas espalhadas pelos Estados Unidos experimentaram acampamentos e atividades ao ar livre para os mais jovens, mas faltava um modelo único que unisse tudo num só programa.

Esse modelo nasceu em 1946. O pastor John H. Hancock, então diretor de jovens da Associação do Sudeste da Califórnia, organizou em Riverside o primeiro Clube de Desbravadores patrocinado por uma associação. Foi ele também quem desenhou o famoso emblema triangular, que até hoje identifica o movimento no mundo inteiro.

"Em 1950, a ideia que começou na Califórnia foi adotada pela Associação Geral e se tornou um programa oficial da igreja em escala mundial."Origem Histórica dos Desbravadores — Igreja Adventista do Sétimo Dia

A partir dali, o crescimento foi rápido. Com manual, uniforme, classes progressivas e especialidades padronizadas, o Clube de Desbravadores passou a se espalhar para fora dos Estados Unidos.

A América do Sul entra em marcha 1955

O primeiro clube sul-americano foi organizado em 4 de abril de 1955, na igreja de Miraflores, em Lima, no Peru. À frente dele estava Nercida de Ruiz, apontada como a primeira diretora da região, ao lado do esposo, Armando Ruiz, e de um grupo de voluntários pioneiros.

O exemplo peruano abriu caminho. Nos anos seguintes, o movimento alcançou o Chile (1956), a Argentina e o Uruguai — e bateu à porta do Brasil.

EUA1946 · RiversidePeru1955 · LimaBrasil1959 · Lajeado Baixo
A rota do movimento até o Brasil — dos Estados Unidos (1946) ao Peru (1955) e, enfim, a Santa Catarina (1959).

A chegada ao Brasil 1958

No fim da década de 1950, o pastor Jairo T. Araújo, líder da juventude da Divisão Sul-Americana — então com sede no Uruguai —, preparou um pequeno manual ensinando como organizar um Clube de Desbravadores. Era o empurrão que faltava.

No fim de 1958, o pastor Cláudio Chagas Belz recebeu dos Estados Unidos um pacote com materiais sobre o movimento. Na mesma época chegava ao país o missionário Henry Feyerabend, de origem canadense, que trazia consigo a experiência dos clubes norte-americanos.

Por que as datas variam? A história dos primeiros anos dos Desbravadores no Brasil tem poucos registros formais — atas, revistas e jornais da época são escassos. Por isso, fontes confiáveis costumam situar o início entre 1958 e 1959, e não numa única data fechada.

Os primeiros clubes brasileiros 1959

Foi em 1959 que tudo se concretizou. Os primeiros clubes do Brasil surgiram em Santa Catarina e São Paulo. Em Santa Catarina, o missionário Henry Feyerabend ajudou a fundar vários clubes na região — e dali saiu aquele que é lembrado como o primeiro do país:

1959 · Santa Catarina
Clube "Vigilantes" — Lajeado Baixo
Apontado como o primeiro Clube de Desbravadores do Brasil, tendo Haroldo Fuckner como diretor pioneiro.
1959 · São Paulo
Clube "Pioneiros" — Ribeirão Preto
Um dos primeiros do estado de São Paulo, dirigido por Luiz Roberto Freitas.
1961 · São Paulo
Estrutura formalizada
O pastor Wilson Sarli ajudou a organizar e formalizar o trabalho dos clubes em Ribeirão Preto.

Do primeiro clube ao maior movimento juvenil do país 1983 →

O que começou com punhados de crianças no interior catarinense não parou mais de crescer. Décadas depois, o Brasil se tornaria o país com o maior número de Desbravadores do mundo. Um marco dessa força foi o I Campori da Divisão Sul-Americana, realizado de 28 de dezembro de 1983 a 4 de janeiro de 1984, em Foz do Iguaçu, sob a organização do pastor Cláudio Belz — o mesmo que, anos antes, abrira aquele pacote vindo dos Estados Unidos.

Hoje, cada lenço amarrado no pescoço de um desbravador carrega essa herança: a de um movimento que ensina fé, serviço e amor à natureza — e que, no Brasil, começou com pouco mais do que um manual, um pacote de materiais e a vontade de algumas pessoas de fazer a diferença.