A história dos Desbravadores não começou num grande estádio nem com um plano de marketing. Começou com dois adolescentes, em 1879, querendo ajudar os amigos a se aproximarem de Deus. Desse começo simples nasceu um movimento que hoje reúne milhões de meninos e meninas pelo mundo todo. Neste guia, você vai percorrer a linha do tempo completa: as raízes na juventude adventista, as primeiras classes e especialidades, o nome e o emblema Pathfinder em 1946, a oficialização mundial em 1950 e a viagem do clube até a América do Sul e o Brasil. Tudo verificado em fontes oficiais.
As raízes: dois adolescentes e um sonho
Muito antes de existir o nome Desbravadores, já havia o sonho. Em 1879, na pequena cidade de Hazelton, Michigan (Estados Unidos), dois adolescentes adventistas decidiram fazer algo pelos amigos que pareciam se afastar de Deus. Eles se chamavam Luther Warren e Harry Fenner.
Os dois caminharam por uma estrada de terra, conversaram e oraram. Daí saiu a ideia de organizar a primeira sociedade de jovens da Igreja Adventista. O primeiro encontro reuniu um pequeno grupo de meninos no quarto de cima da casa de Luther. Elegeram líderes, recolheram uma oferta para comprar literatura missionária e assinaram um compromisso de temperança. Pouco depois, as meninas também passaram a ser convidadas.
Era um começo modesto, quase invisível. Mas ali estava a semente de tudo o que viria depois: jovens cuidando de jovens, com fé e serviço no centro de tudo.
"Dois adolescentes, preocupados com os amigos, ajoelharam-se num campo e entregaram seus planos a Deus."História da juventude adventista, registros oficiais
A igreja organiza o trabalho com a juventude
Por quase três décadas, essas sociedades de jovens cresceram de forma espontânea, igreja por igreja. Até que a Igreja Adventista decidiu dar uma estrutura oficial a esse trabalho.
Em 1907, a Associação Geral (a liderança mundial da igreja) criou o Departamento de Missionários Voluntários, em inglês, Missionary Volunteer, ou simplesmente MV. A partir dali, o trabalho com adolescentes e jovens passou a ter coordenação, materiais e objetivos comuns no mundo inteiro.
Esse passo foi decisivo. Sem o departamento MV, dificilmente teriam surgido as classes, as especialidades e, mais tarde, o próprio Clube de Desbravadores como o conhecemos.
Classes e especialidades: o coração do programa
Foi dentro do departamento MV que nasceram duas ideias que até hoje são a alma do clube: as classes progressivas e as especialidades.
Por volta de 1922, surgiram as primeiras classes progressivas, começando por Amigo (Friend) e Companheiro (Companion). A ideia era simples e genial: o jovem avança por etapas, aprendendo sobre a Bíblia, a natureza, a vida prática e o serviço ao próximo, sempre um degrau de cada vez.
Poucos anos depois, em 1928, foi criado o primeiro conjunto de especialidades (em inglês, Vocational Honors). Esse trabalho é creditado a C. Lester Bond, com colaboração de outros líderes do departamento. As especialidades permitiam que cada jovem explorasse áreas de interesse, de primeiros socorros a estudo de aves, recebendo um distintivo ao concluir. É o mesmo princípio das centenas de especialidades que existem hoje.
Nasce o nome e o emblema Pathfinder
Durante a década de 1920, já existiam clubes locais para crianças e adolescentes na Califórnia. O primeiro clube de que se tem registro funcionou em Anaheim, no fim dos anos 1920, dirigido por John McKim e Willa Steen. Mas faltava algo que unisse tudo: um nome, uma identidade visual e um programa comum.
Esse momento chegou em 1946. O pastor John H. Hancock, então diretor de jovens da Associação do Sudeste da Califórnia, ajudou a organizar um clube em Riverside, Califórnia. Foi ele quem desenhou o emblema triangular do Pathfinder, em que cada lado e cada cor carrega um significado, símbolo que os Desbravadores usam no braço até hoje.
O nome Pathfinder (em português, algo como desbravador, aquele que abre caminho) e o emblema deram ao movimento um rosto reconhecível. A partir dali, o que era um conjunto de iniciativas locais começou a virar um único grande clube.
"Em 1946, John H. Hancock organizou um clube em Riverside, na Califórnia, e desenhou o emblema triangular do Pathfinder."Pathfinders History, Club Ministries, Divisão Norte-Americana
Leia tambémComo os Desbravadores chegaram ao Brasil1950: a Associação Geral torna o clube oficial no mundo todo
Com nome, emblema e bons resultados na Califórnia, faltava o passo final: levar o programa para o mundo inteiro, de forma organizada. Vários líderes trabalharam para montar um pacote completo que pudesse ser usado em qualquer país.
Em 1950, durante a sessão da Associação Geral, foi votado adotar o Clube de Desbravadores como um programa oficial mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O pastor Laurence Skinner é lembrado como o primeiro diretor mundial dos Desbravadores.
A partir desse marco, o nome mudou conforme o idioma, Pathfinder em inglês, Conquistadores em espanhol, Desbravadores em português, mas os símbolos, os ideais e o programa passaram a ser os mesmos em qualquer parte do planeta.
A chegada à América do Sul e ao Brasil
Depois de 1950, os clubes se multiplicaram pelo mundo. Na América do Sul, o pioneiro foi o Peru: em 4 de abril de 1955, na Igreja de Miraflores, em Lima, foi organizado o primeiro Clube de Conquistadores de todo o continente, tendo Nercida de Ruiz como primeira diretora.
No Brasil, os primeiros Clubes de Desbravadores nasceram em 1959, nos estados de Santa Catarina e São Paulo. (Algumas fontes locais também citam clubes pioneiros por volta de 1960, como o de Ribeirão Preto, por isso, onde há pequenas variações de data, vale consultar a fonte de cada região.)
De Lima e do sul do Brasil, o movimento se espalhou para todos os países sul-americanos. O que começou com dois adolescentes em 1879 e ganhou nome em 1946 chegou, enfim, perto de casa, e segue crescendo a cada geração.
De onde veio a palavra "Pathfinder"?
O nome e o emblema ganharam forma com John Hancock em 1946, mas a palavra Pathfinder já rondava o movimento antes disso. Ela nasceu de uma história contada ao redor de uma fogueira.
Num acampamento de verão em 1928, o líder adventista Arthur W. Spalding contou aos meninos a história de John C. Frémont, um explorador norte-americano que ficou conhecido pelo apelido "The Pathfinder", "o desbravador", aquele que encontra e abre o caminho. Os garotos adoraram, e o apelido pegou.
Em 1929, o apelido foi usado quando o antigo escoteiro adventista John McKim assumiu a direção do primeiro clube conhecido a usar o nome "Pathfinder". Ou seja: quando Hancock desenhou o emblema em 1946, ele deu forma visual a um nome que já carregava quase vinte anos de história e um significado perfeito, Desbravador é, literalmente, quem abre a trilha para os outros.
O Voto e a Lei: as palavras que os Desbravadores decoram até hoje
Todo Desbravador aprende de cor o Voto e a Lei do clube. Mas poucos sabem que esses textos são mais antigos que o próprio nome Pathfinder.
A raiz está em 1919, quando Arthur W. Spalding organizou no Tennessee um pequeno grupo chamado Mission Scouts ("escoteiros missionários"), com trabalhos manuais, caminhadas e acampamentos. Foi para esse grupo que ele adotou um voto e uma lei, e essas palavras viraram a base do que usamos até hoje.
Esse texto deu origem ao Voto e à Lei dos Juniores (JMV, Junior Missionary Volunteer), que apareceu impresso pela primeira vez em 1923. Quando o Clube de Desbravadores foi oficializado, em 1950, ele não precisou inventar um voto novo: herdou esse, já testado por gerações de jovens.
O que cada parte do emblema quer dizer
O emblema triangular que John Hancock desenhou em 1946 não é só bonito, cada linha e cada cor tem um recado. Vale a pena aprender, porque ele fica no seu braço.
O triângulo lembra as três pessoas da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e, ao mesmo tempo, os três lados do desenvolvimento de cada Desbravador: mental (aprender, com as especialidades), físico (acampar, servir, cuidar da saúde) e espiritual (crescer com Deus e ajudar o próximo). As cores completam a mensagem: o vermelho lembra o sacrifício de Cristo; o dourado, o alto padrão e a excelência de caráter; o branco, a pureza; e o azul, a lealdade a Deus, aos pais e à igreja.
No centro estão o escudo e a espada. O escudo é a proteção de Deus, na Bíblia, Ele é muitas vezes chamado de "escudo do seu povo". A espada representa a própria Bíblia, a Palavra de Deus. Por fim, repare que o triângulo aponta para baixo: esse formato invertido representa a lição de Jesus de colocar o outro em primeiro lugar, ao contrário do que o mundo costuma ensinar.
Onde a história continua: os Campóris Internacionais
A história dos Desbravadores não parou em 1950, ela vira festa a cada cinco anos. É o Campóri Internacional de Desbravadores, o maior encontro do movimento, que reúne dezenas de milhares de jovens acampando juntos.
Por muitos anos o palco foi Oshkosh, uma cidade no estado de Wisconsin (Estados Unidos). Em 2019, o campóri Chosen ("Escolhido") bateu recorde: mais de 55 mil Desbravadores de 105 países num só lugar. Foram formados até recordes mundiais, como a maior "cruz humana" já feita.
É a prova viva de que aquela semente plantada lá no começo virou uma floresta. Hoje, meninos e meninas do mundo inteiro, inclusive do Brasil, montam a mesma barraca, usam o mesmo emblema no braço e recitam o mesmo voto, cada um no seu idioma.