Quem procura os Desbravadores na França encontra outro nome no uniforme: Explorateurs. É assim que a Jeunesse Adventiste (Juventude Adventista), ministério da Igreja Adventista do Sétimo Dia na União Franco-Belga, chama a seção de 12 a 15 anos, a que mais se parece com o Clube de Desbravadores que você conhece. Os registros de evangelismo adventista no país remontam à década de 1870, e a França recebeu dois encontros que entraram para a memória da juventude adventista europeia: um congresso de jovens em Paris, em julho de 1951, com mais de 5 mil participantes, e um jamboree num pinheiral à beira-mar, em 1961.
Este artigo percorre essa trilha com base na Enciclopédia Adventista (ESDA) e nos registros oficiais da juventude franco-belga.
Como a Igreja Adventista chegou à França?
O trabalho adventista oficial na Europa começou em 1874, com John N. Andrews, o primeiro missionário que a denominação enviou ao exterior. Logo veio reforçá-lo Daniel T. Bourdeau, de família batista franco-canadense do norte de Vermont (Estados Unidos), que já pregava em francês no Canadá e no Meio-Oeste americano.
A primeira passagem de Bourdeau pela Europa, que a Enciclopédia Adventista data de 1875-1876, juntou redação e campo: artigos para a recém-lançada revista Les Signes des Temps e evangelismo na Suíça e na França. Na segunda, de 1883 a 1887, as campanhas dele geraram congregações novas na Suíça, na França, na Itália e na Romênia.
Energia não faltava ao pioneiro, nem temperamento impulsivo. Ellen G. White valorizou o trabalho dele e da esposa, Marion, entre os franceses do Meio-Oeste americano e, mais tarde, pediu por carta que ele tivesse paciência, descansasse e pregasse com mansidão, sem provocar antagonismo com pastores de outras igrejas. O conselho serve a qualquer líder de clube que conversa sobre fé com quem pensa diferente.
Eu gostaria que houvesse mais franceses que pudessem trabalhar onde os americanos nada conseguem fazer.Ellen G. White, Carta 49, 1875, a George I. Butler, sobre o casal Bourdeau (tradução livre)
Quando nasceu a União Franco-Belga?
Numa reunião em Darmstadt, na Alemanha, a Divisão Europeia decidiu se dividir em quatro. Uma das novas divisões, a do Sul da Europa, extinguiu a União Latina e juntou França e Bélgica numa estrutura própria: a União Franco-Belga, organizada em 30 de julho de 1928, na assembleia de Dammarie-les-Lys (Seine-et-Marne), e em vigor desde 1º de janeiro de 1929.
Os números de partida eram modestos: 1.660 membros, 50 deles obreiros, num território com uns 50 milhões de habitantes. Em compensação, a nova união herdou duas instituições sólidas: o Seminário Adventista de Collonges-sous-Salève, na Alta Saboia, aberto em 1921, e a editora Les Signes des Temps, instalada desde 1922 em Dammarie-les-Lys.
Em 1931, Paris ganhou um prédio no Boulevard de l'Hôpital, no 13º distrito, que reunia a igreja local e a sede administrativa. Hoje a União Franco-Belga coordena a Igreja Adventista do Sétimo Dia na Bélgica, na França (incluindo a Córsega), em Luxemburgo e em Mônaco, com três federações (Belgo-Luxemburguesa, França-Norte e França-Sul), e faz parte da Divisão Intereuropeia (EUD).
| Data | Membros | Igrejas |
|---|---|---|
| 1928 (organização) | 1.660 | sem dado |
| Fim de 1935 | 2.160 | sem dado |
| Fim de 1939 | 2.494 | 70 |
| Fim de 1946 | 2.876 | 57 |
| 31/12/1969 | 6.290 | 107 |
| Fim de 1987 | 10.253 | 138 |
| 31/12/2018 | 16.350 | 164 (e 46 grupos) |
| 30/06/2020 | 18.940 | 174 |
Membros e igrejas de todo o território da União Franco-Belga, não só da França. Fonte: Enciclopédia Adventista (ESDA), verbete Franco-Belgian Union Conference.
Como a juventude adventista francesa se organizou antes de 1950?
Muito antes das seções de hoje, os jovens adventistas franceses se reuniam no movimento dos Missionários Voluntários (MV), o mesmo das raízes dos Jovens Missionários Voluntários. A Divisão do Sul da Europa promoveu pelo menos dois congressos MV: em julho de 1935, com 425 participantes, e em julho de 1938, no campus do seminário de Collonges-sous-Salève.
A Segunda Guerra Mundial quebrou esse ritmo. A sede da União funcionou até 10 de junho de 1940, e a equipe se abrigou em Anduze, no Gard. Houve vítimas: Gabrielle Weidner, secretária do presidente da União, foi detida em pleno culto na igreja adventista de Paris, em 26 de fevereiro de 1944, e morreu num campo de concentração; o pastor Paul Meyer, de Lyon, morreu em Dachau, para onde fora deportado.
A vida normal da igreja voltou com a assembleia geral de agosto de 1946, em Paris. No ano seguinte, a editora Les Signes des Temps lançou a revista Jeunesse (Juventude); em 1958, o departamento MV assumiu a publicação, sob o pastor Jean Surel, e ela passou de 12 para 32 páginas, circulando até 1969.
O que foi o congresso de jovens de Paris em 1951?
Entre 24 e 29 de julho de 1951, o Parc des Expositions da Porte de Versailles, em Paris, recebeu mais de 5 mil jovens adventistas. A direção coube a dois pastores: J. J. Aitken, diretor MV da Divisão do Sul da Europa, e Paul Tièche, que tinha a mesma função na União Franco-Belga.
O nome do evento muda conforme a fonte: Congresso Mundial MV no verbete da União Franco-Belga na Enciclopédia Adventista, congresso de jovens de toda a Europa no da União Nórdica Oriental e congresso internacional na cronologia da Jeunesse Adventiste. Seguimos o verbete principal (congresso mundial de jovens), com a ressalva de que as fontes descrevem um público sobretudo europeu.
Segundo a Enciclopédia Adventista, o congresso de Paris espalhou um espírito de reavivamento que chegou à União Nórdica Oriental (Suécia e Finlândia), onde a juventude sueca tinha desde 1944 o acampamento de Västeräng. Essa outra ponta da história está em Desbravadores na Escandinávia.
O congresso aconteceu um ano depois de a Associação Geral oficializar o Clube de Desbravadores no mundo inteiro, marco que você conhece em 1950, o ano da oficialização dos Desbravadores.
Leia tambémOs Desbravadores em PortugalO que foi o Jamboree de Les Aresquiers, em 1961?
Dez anos depois de Paris, foi a vez do litoral. Em 1961, o pastor Paul Steiner, diretor MV da Divisão do Sul da Europa, organizou um Jamboree Europeu MV no pinheiral de Les Aresquiers, em Vic-la-Gardiole (Hérault), à beira-mar. Jamboree é a palavra que o escotismo usa para grandes acampamentos internacionais.
O terreno, alugado pela União Franco-Belga, virou a base dos acampamentos MV da União por quase duas décadas. A cronologia oficial da juventude franco-belga marca 1979 como o ano do fim dos acampamentos em Les Aresquiers.
A montanha entrou no mapa em 1963. Pastor em Grenoble na época, Paul Tièche comprou e equipou o chalé de Alpe du Grand Serre, em Le Villard (Isère), usado para esqui no inverno, iniciação à montanha no verão e formação de líderes. Com capacidade oficial para 30 pessoas, o chalé foi vendido em 2005.
Como se chamam os Desbravadores na França?
Na União Franco-Belga, a juventude adventista se divide em seções por idade, e a que mais se aproxima do Clube de Desbravadores se chama Explorateurs (exploradores). Segundo o site oficial da Jeunesse Adventiste, o Explorateur tem entre 12 e 15 anos, autorização escrita dos pais, uniforme e um compromisso pessoal. O lema vem de 2 Coríntios 5:14, que na Almeida Revista e Atualizada começa assim: "Pois o amor de Cristo nos constrange".
Os Explorateurs trabalham com quatro pontos de referência: Deus, o outro, eu mesmo e a natureza. O site oficial também oferece fichas de spécialisations, parecidas com as Especialidades do Brasil, em temas como anfíbios, fósseis, serviço comunitário e resposta a catástrofes.
O desenho atual tem raízes nos anos 1960. Em 1963, o pastor Jean Surel criou os Tisons (tições, em francês), um programa infantil no estilo escoteiro, depois adotado por muitos territórios de língua francesa. Nos anos 1980, a União oferecia acampamentos de verão para Tisons (7 a 11 anos) e Explorateurs (12 a 15 anos), e em 1992 surgiu um ciclo próprio de manuais para os Explorateurs.
O nome Tisons durou 60 anos: em 2023, a seção Aventurier tomou o seu lugar. No topo da escada fica a qualificação Chef-Guide, a última etapa de formação de um animador JA. Entre os requisitos estão construir uma mesa de fogo em froissartage, técnica escoteira francesa de unir madeira por encaixes e cavilhas, sem pregos, e conduzir uma oficina de construção com amarras (brelage) ou encaixes, assunto que você pode treinar no guia de nós e amarras para Desbravadores.
| Seção | Faixa etária | Marco histórico |
|---|---|---|
| Bourgeons | 4 a 6 anos | Seção criada em 2004 |
| Tisons, hoje Aventuriers | 7 a 11 anos (Tisons, anos 1980) | Tisons em 1963; Aventurier em 2023 |
| Explorateurs | 12 a 15 anos | Ciclo de estudos e manuais em 1992 |
| Compagnons e Ambassadeurs | 16 a 21 anos | Congresso anual para maiores de 16 anos a partir de 1984 |
| Chef-Guide | Animadores JA | Última etapa de formação |
Seções da Jeunesse Adventiste na União Franco-Belga. Fontes: jeunesse.adventiste.org e ESDA.
Onde acontecem os camporis dos Explorateurs na França?
Dois anos depois do fim dos acampamentos em Les Aresquiers, a juventude do sul ganhou um novo endereço. Em 1981, a Federação França-Sul comprou a propriedade do Moulin de l'Ayrolle, em Saint-Félix-de-Pallières, no Gard, perto de Anduze, para acampamentos de verão. Segundo a Enciclopédia Adventista, o lugar passou a receber camporis internacionais de Explorateurs de 12 a 16 anos.
Segundo a cronologia oficial da juventude franco-belga, o 4º Camporee da EUD (sigla da antiga Divisão Euro-Africana, hoje Divisão Intereuropeia) aconteceu ali em 1981, e o 5º, em 1986, reuniu 715 jovens. Em 2016, o Moulin recebeu o primeiro campori conjunto da União com a federação da Suíça romanda e do Ticino (FSRT); a terceira edição, em 2025, teve o tema de Daniel, como mostra a cobertura do camporê da União Franco-Belga de 2025.
Fora do Gard, a França sediou o 10º Camporee da EUD, em 2007, em Fontainebleau. O mais recente, o 14º, aconteceu em 2023 na Alemanha e está no 14º Campori da Divisão Intereuropeia em Friedensau; para 2028, a mesma cronologia já lista o 15º, na Espanha.
O que a história dos Desbravadores na França ensina ao seu clube?
A trajetória francesa mostra um movimento que trocou de nome sem perder o fio: os Missionários Voluntários dos anos 1950 hoje atendem por Jeunesse Adventiste, e os acampamentos saíram da praia de Les Aresquiers para o interior do Gard.
Para quem vive no Brasil, ficam duas lições. A história de um movimento raramente depende de um herói só: em cada década aparece um nome, de Daniel Bourdeau a Jean Surel. E lugares fixos de acampamento criam memória: Les Aresquiers durou quase 20 anos, e o Moulin de l'Ayrolle já passou dos 40.
A linha do tempo abaixo junta os marcos confirmados e serve de roteiro para uma reunião de clube.