Em 6 de junho de 1877, depois de mais de duas décadas nos Estados Unidos, o pregador John G. Matteson voltou à Dinamarca, sua terra natal, para anunciar a mensagem adventista aos povos do Norte. Nos três anos seguintes, ele esteve na fundação das primeiras igrejas que deram origem à Igreja Adventista na Noruega, na Suécia e na Dinamarca.
Quase um século depois, um acampamento de jovens sueco, Västeräng, entrou para a história dos camporis: em 1971, sediou o primeiro campori de desbravadores da divisão que hoje se chama Transeuropeia, um evento da mesma categoria do Campori da Divisão Sul-Americana (DSA). A Enciclopédia Adventista o descreve como o primeiro campori de divisão, embora, em outro trecho, dê ao de Oaxtepec (México, 1983) o título de primeiro fora da América do Norte. As datas abaixo foram checadas na Enciclopédia Adventista e em relatórios da própria igreja. Quando as fontes discordam, mostramos as duas versões.
Como a mensagem adventista chegou à Escandinávia?
A história começa numa cabana de madeira no Wisconsin, nos Estados Unidos. John Gottlieb Matteson, nascido na ilha dinamarquesa de Langeland, emigrou em 1854 com os pais, duas irmãs e outras 20 pessoas. Virou pastor batista em 1862 e, em 1863, aprendeu sobre o sábado bíblico com um vizinho. Depois de estudar a Bíblia, aceitou a fé adventista, e quase toda a sua congregação foi junto, segundo a Enciclopédia Adventista (ESDA).
Em 1872, ele lançou o Advent Tidende, mensário em dinamarquês-norueguês e primeira publicação adventista numa língua diferente do inglês. Os imigrantes mandavam exemplares aos parentes. Antes de partir, em 1877, Matteson contou a James White que 260 deles seguiam regularmente para a Dinamarca e cerca de 60 para a Noruega.
Leitores dinamarqueses passaram a guardar o sábado e escreveram pedindo um pregador. Matteson relutou, chamou a viagem de grande sacrifício e foi. Em 6 de junho de 1877, voltou como o pioneiro adventista da Escandinávia. Para comparar: J. N. Andrews, o primeiro missionário que a Associação Geral mandou à Europa, tinha chegado à Suíça uns três anos antes.
Como a Igreja Adventista na Dinamarca começou?
A primeira parada foi Vejle, na Jutlândia, onde em duas semanas Matteson mandou imprimir um pequeno hinário com muitas melodias de sua autoria. Os dinamarqueses desconfiavam da religião nova, e o começo foi duro.
A virada veio em Alstrup, no norte da Jutlândia. Gente que mal ia à igreja passou a sair da lavoura no fim do dia para ouvir o dinamarquês recém-chegado da América: durante a semana, nas casas; no fim de semana, em celeiros ainda vazios, com 100 a 200 pessoas, como ele mesmo contou na autobiografia. O primeiro batismo quase terminou mal. Uma turba cercou o lugar querendo que lhe entregassem o pregador, que ficou escondido num quartinho e não foi achado. Em maio de 1878 nasceu ali a igreja de Alstrup, com 27 membros: a primeira igreja adventista do norte da Europa.
Em 30 de maio de 1880, Matteson organizou a Associação Dinamarquesa, com sete igrejas e 91 membros batizados, a primeira Associação adventista criada fora da América do Norte. Hoje, a União Dinamarquesa (Dinamarca, Ilhas Faroé e Groenlândia) tem 37 igrejas, segundo a Divisão Transeuropeia. A Enciclopédia Adventista registra que ela passou a ter diretores de departamento para crianças, adolescentes, Desbravadores, jovens e famílias.
Desde quando tem Igreja Adventista na Noruega?
A Igreja Adventista na Noruega existe desde 11 de janeiro de 1879. Em 1878, depois de uma viagem de reconhecimento em que encontrou noruegueses guardando o sábado, Matteson se mudou para Christiania, o antigo nome de Oslo.
A estreia, em outubro, foi improvisada: o cômodo da casa em que ele se hospedava não deu conta do público, e gente ficou espremida na escada. Matteson passou a alugar salões e chegou a reunir de 800 a 1.200 ouvintes, segundo a Divisão Transeuropeia. Em 11 de janeiro de 1879, 34 pessoas registraram a primeira Igreja Adventista do Sétimo Dia de Christiania, muitas delas mulheres, a maioria da classe trabalhadora. Em 1887, a cidade de Moss recebeu a primeira reunião campal adventista da Europa, com a presença de Ellen White.
Hoje, a União Norueguesa, criada em 1992, reúne três Associações e 59 igrejas. No fim de 2025, a igreja no país somava 4.572 membros, e só naquele ano 100 pessoas foram batizadas ou recebidas por voto, segundo a tedNEWS, serviço de notícias da Divisão Transeuropeia.
Como a Igreja Adventista na Suécia começou?
Na Suécia, o terreno foi preparado de um jeito que encanta qualquer desbravador. Por volta de 1842, pregadores chamados ropare anunciavam a volta de Jesus. Quando os adultos foram calados, crianças tomaram o lugar deles: entre o outono de 1842 e o inverno de 1843, meninos e meninas, alguns de 6 a 8 anos, anunciaram o juízo, e a lei não podia impedi-los por serem menores, segundo o livro Ellen G. White in Europe. Ellen White escreveu que, quando as vozes dos servos de Deus foram silenciadas, Ele pôs o seu Espírito sobre as crianças.
Depois, a mensagem chegou pelo correio, com o Svensk Advent Härold, publicado nos Estados Unidos desde 1874. Em Grythyttan, entre Oslo e Estocolmo, já havia 24 guardadores do sábado quando chegou J. P. Rosquist, um ex-aprendiz de sapateiro. Em agosto de 1880 nasceu ali a primeira igreja adventista sueca, com 47 membros, segundo a Divisão Transeuropeia. As fontes divergem no dia: a Divisão Transeuropeia registra 26 de agosto, e a Enciclopédia Adventista, 28 de agosto, numa cerimônia conduzida por Matteson.
A Associação Sueca veio em 1882, em Örebro. Em Estocolmo, num único inverno de campanhas de Matteson, a igreja passou de 6 para 60 membros. Hoje, a União Sueca tem 32 igrejas.
Leia tambémOs Desbravadores na FrançaPor que Västeräng entrou na história dos camporis?
Em 1931, a União Escandinava foi dividida em União Nórdica Ocidental (Dinamarca e Noruega) e União Nórdica Oriental (Finlândia e Suécia). Na Segunda Guerra Mundial, a Suécia ficou neutra e pôde socorrer as igrejas vizinhas. Em 1944, com a guerra ainda em curso, a igreja conseguiu, contra as probabilidades, comprar uma área para acampamentos de jovens: Västeräng. Terminado o conflito, o lugar virou ponto de encontro e de avivamento para crianças e jovens, um clima que se espalhou depois do Congresso Europeu de Jovens de Paris, em 1951, segundo a Enciclopédia Adventista. A tradição de encontros continentais segue viva, como mostrou o congresso da juventude adventista europeia em Valência, em 2026.
No verão europeu de 1971, Västeräng recebeu o primeiro campori de desbravadores a reunir toda a então Divisão Norte-Europeia e África Ocidental, hoje Divisão Transeuropeia. O tema era Exploring! (Explorando!). Segundo a revista Review and Herald de 25 de novembro de 1971, foram 400 jovens, vindos da Suécia, da Finlândia, da Noruega, da Dinamarca e de outros países, e dez deles foram batizados. O relato era assinado por Leo Ranzolin, brasileiro que dirigiu os Desbravadores em nível mundial de 1970 a 1980.
No verbete sobre o ministério dos Desbravadores, a Enciclopédia Adventista trata aquele acampamento como o começo dos camporis de divisão ao redor do mundo, frase que a própria obra contradiz mais adiante, como mostramos na próxima seção. Existe até um filme em super-8 do evento, remasterizado digitalmente e divulgado pela Divisão Transeuropeia em 2018.
Västeräng foi mesmo o primeiro campori de divisão do mundo?
O primeiro campori registrado aconteceu em 1953, em Massachusetts, como conta o artigo sobre os primeiros camporis dos Desbravadores, mas era de uma Associação. No verbete sobre o ministério dos Desbravadores, a Enciclopédia Adventista põe Västeräng, em 1971, como o primeiro campori de divisão e o começo desse tipo de encontro no mundo. Na lista de datas da mesma obra, ele é de fato o mais antigo: os camporis de divisão das Américas aparecem só a partir de 1983.
A mesma Enciclopédia, porém, se contradiz. Em outro trecho, chama o campori interamericano de Oaxtepec (México, 1983) de primeiro campori de divisão fora da América do Norte, título que não cabe se Västeräng, na Europa, veio doze anos antes. A Review and Herald de 1971 confirma o campori sueco, mas diz apenas que foi o primeiro daquela divisão, sem comparar com o resto do mundo. O que dá para afirmar com segurança é que Västeräng sediou o primeiro campori da atual Divisão Transeuropeia e o campori de divisão mais antigo citado pela Enciclopédia.
| Ano | Local | Alcance do campori |
|---|---|---|
| 1953 | Camp Winnekeag, Ashburnham (Massachusetts, EUA) | Associação do Sul da Nova Inglaterra: primeiro campori registrado |
| 1971 | Västeräng (Suécia) | Divisão Norte-Europeia e África Ocidental, hoje Transeuropeia: primeiro campori da divisão (para a ESDA, o primeiro campori de divisão) |
| 1983 | Oaxtepec (México) | Divisão Interamericana: para a ESDA, o primeiro campori de divisão fora da América do Norte |
| 1983-1984 | Foz do Iguaçu (Paraná, Brasil) | Divisão Sul-Americana |
| 1985 | Camp Hale, Leadville (Colorado, EUA) | Divisão Norte-Americana, com cerca de 15.600 pessoas |
Fontes: Enciclopédia Adventista (ESDA), verbete sobre o ministério do Clube de Desbravadores, e Review and Herald de 25/11/1971.
Quem levou os desbravadores adiante nos países nórdicos?
Não encontramos registro confirmado da data do primeiro Clube de Desbravadores em cada país nórdico, e preferimos não arriscar palpite. Os registros mostram, porém, quem fez o movimento andar. Na Dinamarca, o pastor Helge Andersen ajudou a organizar, entre 1958 e 1964, seis acampamentos de desbravadores, além de acampamentos infantis e de jovens, em lugares da Dinamarca, das Ilhas Faroé, da Noruega, da Suécia, da Alemanha, da Holanda e da Áustria, segundo a biografia dele na Enciclopédia Adventista.
Em 1962, Andersen reuniu voluntários para erguer o centro de jovens Ungdomsgården Kikhavn, perto do mar, na Zelândia do Norte, pronto em junho de 1963. Mais tarde, como presidente da Associação Oeste-Dinamarquesa, levantou recursos para comprar uma antiga instalação da Guarda Nacional dinamarquesa, com mais de 100 acres (mais de 40 hectares) de floresta e urzais, que virou centro de desbravadores e jovens.
Lars Gille e Erik Henriksen estiveram em Västeräng em 1971 e foram a todos os camporis seguintes da divisão, doze ao todo até 2019, segundo a tedNEWS. Naquele ano, aos 72, Henriksen ainda dirigia um clube em Roskilde, na Dinamarca. Depois veio Peter Bo Bohsen, diretor de desbravadores da União Dinamarquesa (2001-2016) e da Divisão Transeuropeia (2015-2020), que ajudou a abrir o trabalho em quatro novos países e comandou o maior campori da história da divisão, em 2019.
As experiências que você tem nos Desbravadores são duradouras. Você não simplesmente esquece; você guarda para a vida toda.Erik Henriksen, à tedNEWS, 2019 (tradução livre)
Como estão os desbravadores na Europa do Norte hoje?
Noruega, Suécia e Dinamarca integram a Divisão Transeuropeia, sediada em St Albans, na Inglaterra, ao lado de Finlândia, Islândia, Reino Unido, países bálticos e outras nações. Para entender esse desenho, veja o mapa das divisões mundiais da Igreja Adventista. Em 2019, o 12º campori da divisão levou cerca de 4 mil pessoas de 26 países a Ardingly, no Reino Unido, como mostra a cobertura do campori da Divisão Transeuropeia de 2019. Em 2023, perto de Sopron, na Hungria, foram 2.600 acampantes.
Nos países nórdicos, líderes de jovens, desbravadores e famílias se reúnem todo ano num conselho consultivo, que em novembro de 2024 foi pela primeira vez à Islândia. Na Dinamarca, a reunião campal anual tem uma área própria para jovens e desbravadores. Em maio de 2022, Västeräng voltou a receber jovens adultos suecos depois de três anos de espera por causa da pandemia.
Para um clube brasileiro, a lição cabe numa mochila. Com comunidades adventistas de poucos milhares de membros por país, como as da Noruega e da Dinamarca, a Escandinávia sediou o campori de divisão mais antigo que a Enciclopédia Adventista registra. A raiz europeia do movimento também aparece na história do adventismo e dos Desbravadores na Alemanha.