Em 25 de junho de 1908, desembarcaram em Port Moresby o casal Septimus e Edith Carr e um fijiano de cerca de 20 anos, Peni Tavodi. Ali começava a Igreja Adventista em Papua-Nova Guiné, braço da Igreja Adventista do Sétimo Dia num país com cerca de 700 línguas indígenas. O sustento de Peni tinha sido prometido por crianças e jovens adventistas da Austrália e da Nova Zelândia.

Em 1964, a juventude fez de novo: suas ofertas pagaram um barco-clínica para o rio Sepik, batizado de Pathfinder em reconhecimento aos jovens doadores. Hoje, os camporis do país reúnem milhares de Desbravadores. Esta é a história, com datas conferidas na Enciclopédia Adventista, no site oficial da igreja no país e na imprensa adventista, inclusive edições da época.

Como a Igreja Adventista chegou a Papua-Nova Guiné?

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A primeira tentativa nem saiu do papel. Em 1895, a sede mundial da igreja planejou mandar o estudante de medicina Albert Read abrir uma missão em Papua, mas o médico John Kellogg escreveu a Ellen White preocupado com a saúde e o preparo de Read, e o plano foi cancelado, segundo a Enciclopédia Adventista (ESDA).

Depois de visitas de líderes adventistas à costa entre 1902 e 1905, a igreja reservou para o novo campo as ofertas da Escola Sabatina do terceiro trimestre de 1906. Em 1907, Septimus e Edith Carr, professores da escola missionária de Buresala, em Fiji, foram indicados para abrir o trabalho e levaram um aluno: Penisimani Tavodi, o Peni, um dos dez primeiros estudantes da escola.

O sustento de Peni ficou por conta da juventude. Sociedades de jovens da Nova Zelândia, da Austrália do Sul e de Queensland arrecadaram o dinheiro, e a ESDA registra que crianças e jovens dessas três Associações se comprometeram com a causa. Eram grupos da mesma família das sociedades que formam as raízes JMV dos Desbravadores. O grupo partiu em 5 de junho de 1908 e desembarcou em Port Moresby no dia 25.

Quem foi Peni Tavodi, o missionário sustentado pelos jovens?

Papua cobrou caro desde o começo. Três meses depois de chegar, Peni pegou uma malária grave. Carr encontrou no planalto de Sogeri, no interior, terra boa, clima mais ameno e nenhuma outra denominação trabalhando. Em novembro de 1909, Peni se mudou para a propriedade, chamada Bisiatabu, a cerca de 45 quilômetros do porto, e ajudou a abrir roças de taro, banana e seringueira.

A propriedade foi dedicada em 28 de fevereiro de 1910. Em 11 de julho do mesmo ano, numa escala de um dia em Port Moresby, John Fulton, presidente da União Australasiana, organizou a primeira igreja adventista de Papua, com seis membros fundadores. Ela levava o nome de Bisiatabu, mas se reunia no porto.

Em 1912, Peni casou-se com a fijiana Aliti Rainima. No fim de 1913, subiu as montanhas pela trilha hoje conhecida como Kokoda, pregando em aldeias como Efogi e Kagi, até as encostas do monte Victoria. A língua motu, aprendida no litoral, não servia lá em cima, e ele se comunicou por sinais. Certa vez, foi buscar o colega fijiano Mitieli, abandonado com malária numa aldeia, e o carregou sozinho por dois dias de trilha. Em 1917, mesmo ganhando pouco, o casal deu um mês inteiro de salário na Oferta de Sacrifício.

Por que a primeira década da missão parecia um fracasso?

Os números daqueles anos são duros. Até Septimus Carr voltar para a Austrália, o único batizado era um rapaz chamado Taito, que logo retomou os costumes da aldeia e só voltou à igreja uma década depois. Arthur Lawson, que ficou à frente de Bisiatabu, reconheceu que dez anos de trabalho, de 1908 a 1918, não tinham deixado fruto visível.

Em 9 de outubro de 1918, Peni trabalhava na horta quando foi picado na perna por uma cobra negra, uma das mais venenosas da região. Ele mesmo tratou a picada e voltou ao trabalho; quando sentiu o veneno agir, preferiu passar as últimas horas com os amigos a arriscar a viagem até o hospital de Port Moresby. Antes de morrer, às 23 horas, fez um último apelo aos trabalhadores da missão. Dois deles, Baigani e Orira, responderam e mais tarde foram batizados.

Aliti ficou um tempo para continuar o trabalho do marido; depois de voltar a Fiji e casar-se de novo, retornou em 1930 para dirigir, com o segundo marido, a estação de Efogi. Em 13 de junho de 2008, no centenário da igreja no país, celebrado em Bisiatabu, um clã do povo koiari pediu perdão pela morte de Peni numa cerimônia tradicional. Um feiticeiro aparentado ao clã afirmava ter causado aquela morte, e os koiari, a maioria já adventista, carregavam uma culpa coletiva. Em 2017, a aldeia natal de Peni, em Fiji, ganhou a Igreja Adventista Memorial Peni Tavodi.

Um verdadeiro missionário, um trabalhador fiel e um cristão humilde e coerente.Septimus Carr sobre Peni Tavodi, citado pela Enciclopédia Adventista (tradução livre)

Como a missão se espalhou pelas montanhas e ilhas?

A virada veio nos anos 1920. Em 25 de outubro de 1924, William Lock batizou em Bisiatabu 11 rapazes e 3 moças, alunos da escola da missão, e no dia seguinte partiu com a família para a nova estação de Efogi, no alto da cordilheira Owen Stanley. Missionários das Ilhas Salomão, como Oti e Salau, levaram a mensagem a Rabaul, em 1929, e às ilhas de Mussau e Emirau, a partir de 1931.

Na Segunda Guerra Mundial, líderes papuásios e neoguineenses cuidaram das igrejas enquanto a maioria dos missionários estrangeiros estava fora. Em 26 de agosto de 1950, diante de cerca de 1.200 moradores das Terras Altas reunidos em Bena Bena, Taula e Guibau se tornaram os primeiros pastores do país ordenados pela igreja.

A organização acompanhou o crescimento, como mostra a tabela. O país ficou independente da Austrália em 1975, três anos depois de a igreja criar ali uma União própria. Segundo a ESDA, no fim de 2018 a União Missão de Papua-Nova Guiné, com sede em Lae e parte da Divisão do Pacífico Sul (SPD), tinha 333.854 membros. Em 2026, o site oficial da União fala em mais de 600 mil membros, em 1.339 igrejas organizadas.

AnoO que mudou na organização da igreja
1908Os Carr e Peni Tavodi chegam a Port Moresby
1928Organizada a Missão de Papua, com sede em Bisiatabu
1949Criada a União Missão do Mar de Coral (Coral Sea Union Mission), com quatro missões
1972Nasce a União Missão de Papua-Nova Guiné, com dez missões locais
20181 Associação e 9 Missões, 1.070 igrejas, 3.206 grupos e 333.854 membros
20269 Missões e 1 Associação, 1.339 igrejas organizadas e mais de 600 mil membros

Fonte: Enciclopédia Adventista (ESDA), verbetes Papua New Guinea e Papua New Guinea Union Mission; linha de 2026: site oficial da União Missão de Papua-Nova Guiné.

Leia tambémOs Desbravadores e a história adventista na Coreia do Sul

Por que um barco-clínica do rio Sepik se chamava Pathfinder?

Quando a igreja começou o trabalho médico no rio Sepik, em parceria com o governo, a equipe dispunha só de uma canoa de tronco com motor de popa e de uma lancha a diesel pouco confiável, e as distâncias tornavam as visitas quase inviáveis. Segundo a ESDA, em 1964 a juventude adventista da então Divisão Australasiana juntou cerca de 6 mil libras para construir um barco-casa que servisse de clínica flutuante.

O barco, de 36 pés (cerca de 11 metros), levou oito ou nove meses para ficar pronto em Wewak e subiu o rio até Ambunti, sua base. Em 13 de agosto de 1965, durante a assembleia da Missão do Sepik, o presidente da União Missão do Mar de Coral, pastor O. D. F. McCutcheon, dedicou a embarcação e lhe deu o nome de Pathfinder, em reconhecimento ao papel da juventude da Australásia, conforme a reportagem da Australasian Record de 4 de outubro de 1965. Enfermeiras passaram a atender aldeias ao longo de uns 400 quilômetros do rio, vacinando bebês e acompanhando gestantes.

A mesma reportagem, assinada pelo secretário MV da União, J. R. Lee, diz de onde veio o dinheiro: das ofertas das Sociedades MV (Missionários Voluntários) da Divisão Australasiana, o movimento jovem da igreja de onde também saíram os JMV, e de amigos dos Estados Unidos. Nenhuma fonte consultada atribui a oferta a Clubes de Desbravadores, embora Pathfinder, aquele que encontra o caminho, seja o nome em inglês do Clube de Desbravadores, oficializado pela Associação Geral em 1950 (conheça a origem do nome Desbravadores).

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O primeiro barco não deu certo. Nas cheias, os cascos abertos enchiam de água, e o jato empurrava só um deles, o que tornava a navegação arriscada para as enfermeiras sozinhas. Ficou em terra durante 1968 e não voltou a servir. Em 18 de maio de 1972, foi dedicado o Pathfinder II, de alumínio naval e 52 pés (cerca de 16 metros), construído em Ambunti. As equipes vacinavam contra difteria, tétano, coqueluche, tuberculose e poliomielite, e no começo dos anos 1980 o barco já estava nas mãos de enfermeiras e de um capitão papuásios.

Parado do começo dos anos 2000 até 2013 por causa do custo da manutenção, o Pathfinder II passou por grandes reparos em julho de 2013. O verbete da ESDA, publicado em 2020, registra que ele continua operando, ainda que com desafios.

Atenção: o Pathfinder do Sepik era um barco, e o nome homenageia os jovens que pagaram a construção. A data de fundação do primeiro Clube de Desbravadores de Papua-Nova Guiné não aparece nas fontes oficiais consultadas para este artigo.

Quando surgiram os Desbravadores em Papua-Nova Guiné?

O nome e a data do primeiro clube não aparecem nas fontes consultadas, e por isso este artigo não arrisca um ano. O registro mais antigo de clubes no país que encontramos é de 1977: a Australasian Record de 14 de novembro daquele ano descreveu a primeira Feira de Desbravadores da Missão das Terras Altas Ocidentais, numa pista de pouso em Togoba, a cerca de 1.800 metros de altitude, com 300 Desbravadores de nove clubes disputando dez provas.

Em 1989, Malcolm Allen, diretor de Desbravadores da Associação Geral de 1986 a 1996, esteve num campori na ilha de Mussau, segundo texto dele republicado pela Adventist Record. Para encontrá-lo em Milne Bay, um pastor e sete Desbravadores caminharam sete dias pelas montanhas; para outro campori, 55 Desbravadores viajaram três dias numa enorme canoa escavada, desde Kikori, no golfo de Papua.

Em dezembro de 2017, o distrito de Ambunti, base dos barcos-clínica Pathfinder, fez um campori inteiro sobre uma plataforma flutuante de 50 por 40 metros, numa lagoa ligada ao Sepik, com 350 Desbravadores e líderes e 47 batismos, segundo a Adventist Record. De 7 a 13 de janeiro de 2018, mais de 5 mil Desbravadores de todo o país acamparam em Bautama no campori da União, Chosen to Serve (Escolhidos para servir), que abriu com uma encenação da chegada dos primeiros missionários e terminou com 80 batismos, segundo a Adventist News Network (ANN).

Em 2024, um campori regional em Mohuveto passou de 12 mil participantes, como mostra a cobertura do campori de Papua-Nova Guiné em 2024. Em julho de 2026, Desbravadores do país cruzaram a fronteira, alguns depois de dias de caminhada, para o Campori Internacional Arafura, na Indonésia.

1977
Primeira Feira de Desbravadores da Missão das Terras Altas Ocidentais, em Togoba, com nove clubes
1989
Encontros com o diretor mundial de Desbravadores em Mussau e em Milne Bay
2017
Campori flutuante no distrito de Ambunti, com 47 batismos
2018
Campori da União em Bautama, com mais de 5 mil Desbravadores
2019
148 Desbravadores do país no Campori Internacional de Oshkosh
2024
Campori regional em Mohuveto passa de 12 mil participantes
2025
Caminhada de investidura de três dias a partir de Bisiatabu
2026
Delegação de 191 Desbravadores no Campori Internacional Arafura

O que a história de Papua-Nova Guiné ensina ao seu clube?

Em dezembro de 2025, a Adventist Record contou que mais de 60 Desbravadores e instrutores de duas igrejas da Associação de Papua Central caminharam três dias de Bisiatabu até Furimuti, pela serra de Yamagi, para cumprir requisitos de investidura. A trilha partiu da terra que Peni Tavodi ajudou a limpar em 1909. No mesmo ano, a revista noticiou a primeira investidura da Igreja Fifteen Mile.

Duas vezes, no começo do século XX e em 1964, o dinheiro de crianças e jovens abriu caminho para a missão em Papua. Em abril de 1908, dois meses antes do embarque de Peni, a sociedade de jovens de Brisbane fez uma noite de programa na igreja: as crianças cantaram e recitaram, e duas delas passaram entre o público recolhendo o que cada um tinha ganhado com pequenos negócios, 4 libras, 12 xelins e 6 pence, segundo a revista da igreja na Austrália. Quando a sua Unidade junta moedas para um projeto missionário, repete esse gesto.

Peni tinha cerca de 20 anos ao desembarcar em Port Moresby e morreu sem ver a igreja crescer: o primeiro batismo coletivo em Bisiatabu veio seis anos depois. O conselho de Paulo a Timóteo cabe bem na história dele: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1 Timóteo 4:12, ARA).

Na próxima reunião, localize no mapa Port Moresby, Bisiatabu e o rio Sepik e conte à Unidade a viagem da canoa de Kikori. O lado australiano da mesma história está na história dos Desbravadores na Austrália.