Um menino de doze anos deitado numa cama, sem a perna esquerda, que os médicos precisaram amputar por causa de uma infecção. Aconteceu em 1844, numa casa de fazenda em West Wilton, New Hampshire. Ninguém olharia para aquela cena e adivinharia que ali estava o futuro editor mais influente do adventismo, o homem que escreveria o comentário sobre profecia que gerações inteiras iriam ler.

O nome dele era Uriah Smith. Ele viveu de 1832 a 1903, atravessou o começo da Igreja Adventista do Sétimo Dia e passou quase cinquenta anos à frente da principal revista do movimento. No tempo livre, projetou uma perna artificial melhor que a sua e uma carteira de escola que rendeu dinheiro de verdade. E, no meio de tudo isso, mergulhou nos livros de Daniel e Apocalipse com uma paciência que hoje impressiona.

Se você já sentou numa reunião de Clube tentando entender o que significa uma "besta" no Apocalipse ou por que Daniel viu um carneiro e um bode, você está fazendo o mesmo que Uriah Smith fazia. Esta é a história dele, e ela tem muito a dizer sobre estudo, constância e sobre não deixar uma limitação escrever o final.

O menino de West Wilton

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Uriah Smith nasceu em 3 de maio de 1832, em West Wilton, uma cidadezinha de New Hampshire, nos Estados Unidos. A família dele era religiosa e acabou entrando no movimento millerita, o grupo que esperava a volta de Jesus para uma data específica em 1844. Quando o dia passou e Cristo não voltou, veio o que a história adventista chama de Grande Desapontamento. Uriah tinha só doze anos e viveu aquilo dentro de casa.

No mesmo ano, uma infecção atingiu a perna esquerda dele. Naquela época, sem antibióticos, a única saída que os médicos viam era amputar. E amputaram, acima do joelho. Um menino que gostava de correr e de estudar de repente teve que aprender tudo de novo: andar, se equilibrar, existir com uma perna só.

O que chama atenção é o que ele fez com isso. Uriah não desapareceu. Terminou os estudos, se destacou nas letras e nos números, e chegou a ser aceito numa faculdade tradicional. A vida acadêmica não seguiu adiante, porque em dezembro de 1852 ele aceitou a mensagem dos adventistas guardadores do sábado e decidiu dedicar o tempo à obra da igreja que estava nascendo.

Quase 50 anos à frente da Review

Em 1853, com pouco mais de vinte anos, Uriah começou a trabalhar no escritório da revista Advent Review and Sabbath Herald, hoje conhecida como Adventist Review. Dois anos depois, em 1855, virou editor. E aqui está o número que quase ninguém acredita na primeira vez: ele ocupou esse cargo, com poucas interrupções, por cerca de cinquenta anos.

Pare para pensar no que isso significa. Meio século escrevendo, revisando, escolhendo o que entrava e o que saía, respondendo cartas de leitores, defendendo pontos de doutrina, semana após semana. A revista era o principal meio de comunicação de um movimento espalhado por um país inteiro, sem telefone e sem internet. O que Uriah editava chegava às casas das famílias adventistas e moldava como elas entendiam a fé.

Não foi um trabalho fácil nem sempre tranquilo. Houve debates duros, discordâncias com outros líderes, períodos em que ele saiu e voltou. Mesmo assim, a constância dele deixou marca. Quando você faz a mesma coisa bem feita por décadas, você constrói algo que sobrevive a você.

O inventor que ninguém esperava

Existe um lado de Uriah Smith que quase se perde nas biografias: ele era inventor. E inventava por necessidade concreta do dia a dia, com as mãos resolvendo problemas que a vida colocava na frente dele.

A perna artificial que ele usava não dobrava direito, o que atrapalhava o dia a dia. Então ele mesmo projetou um modelo melhor, com joelho e tornozelo que se movimentavam de verdade, e patenteou a invenção em 1863. Quem convivia com o problema resolveu o problema. Anos depois, em 1874, patenteou também uma carteira escolar com um assento dobrável aprimorado. Essa carteira deu certo comercialmente e rendeu a ele três mil dólares, dinheiro suficiente na época para construir uma casa nova.

Guarde essa imagem: o mesmo homem que passava horas debruçado sobre versículos de Daniel também sabia desenhar dobradiças e mecanismos. Fé e engenhosidade cabiam na mesma pessoa. Para o Desbravador que curte oficina, marcenaria ou robótica tanto quanto gosta do estudo bíblico, Uriah é uma companhia e tanto.

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O livro que atravessou gerações

A obra que tornou Uriah Smith famoso nasceu em partes. Primeiro veio o comentário sobre o Apocalipse, publicado em 1867. Depois, o comentário sobre Daniel. Em 1882 os dois foram reunidos num único volume, que ficou conhecido simplesmente como Pensamentos sobre Daniel e Apocalipse.

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O método dele era paciente ao extremo: pegar o texto bíblico versículo por versículo e explicar o que cada imagem profética poderia significar. As estátuas de metal, os animais estranhos, os números, os selos, as trombetas. Onde muita gente travava e desistia, Uriah organizava tudo numa explicação que um leitor comum conseguia acompanhar. Por décadas, esse foi o livro que os adventistas colocavam na mão de quem queria entender profecia.

Vale um recado honesto: nem toda interpretação de Uriah é aceita hoje sem discussão. A igreja continuou estudando, e alguns pontos foram revistos com o tempo. Isso não diminui o trabalho dele. Mostra que estudar a Bíblia é uma conversa que segue viva de geração em geração, e ele deu um dos primeiros grandes passos.

A irmã que virou hino

Uriah não foi o único talento da família Smith. A irmã mais velha dele, Annie R. Smith, foi uma das primeiras poetas e hineiras do adventismo. Ela escreveu letras que viraram hinos cantados nas igrejas, e alguns permanecem em hinários até hoje.

A vida de Annie foi curta. Ela morreu jovem, ainda na casa dos vinte anos, deixando poemas que falavam de esperança e da volta de Jesus. Enquanto Uriah trabalhava com a palavra escrita em prosa, editando e explicando, Annie trabalhava com a palavra em verso, tocando o coração pela música.

Dois irmãos, dois dons diferentes, a mesma fé. Isso lembra uma verdade simples sobre o seu Clube: numa mesma Unidade cabe quem escreve, quem canta, quem constrói, quem lidera e quem serve em silêncio. Ninguém precisa ter o dom do outro para ter valor. A família Smith é um retrato bonito disso.

Por que isso importa para você, Desbravador

Quando você abre a Bíblia numa reunião e tenta entender uma profecia, você está numa corrente longa de gente que fez o mesmo. Uriah Smith é um dos elos mais fortes dessa corrente. O jeito dele de encarar Daniel e Apocalipse, com calma, texto por texto, sem pressa, é exatamente o tipo de estudo que vale a pena aprender no Clube.

O profeta Daniel escreveu que o conhecimento aumentaria no tempo do fim, e que os sábios brilhariam como estrelas. Uriah levou isso a sério. Passou a vida cavando entendimento e ajudando os outros a enxergar. Você pode fazer a sua parte agora, começando pequeno: um capítulo por semana, uma pergunta anotada, uma dúvida levada ao seu Conselheiro. Se quiser ir mais fundo no tema da luta entre o bem e o mal que atravessa essas profecias, dá para começar por uma leitura sobre o grande conflito explicado para jovens.

E tem aquele detalhe que amarra tudo. As estrelas que Daniel mencionou aparecem de verdade no céu que você observa numa noite de acampamento. Quem gosta de olhar para cima e ainda por cima estuda profecia tem um combo perfeito na Especialidade de Astronomia. Uriah entenderia bem essa mistura de céu observado e céu prometido.