Reunião de Unidade, sábado à tarde. Um Desbravador mostra ao Instrutor a resposta de um requisito: texto limpo, sem um erro de português. O Instrutor faz uma pergunta simples sobre aquilo, e a resposta não vem. Cenas assim podem acontecer em qualquer clube, quase sempre sem má intenção, porque pouca gente parou para combinar como usar a inteligência artificial de forma ética no Clube.

Este guia reúne o que a Igreja Adventista do Sétimo Dia na América do Sul já decidiu, o que o Manual do Clube diz sobre trabalho copiado e a idade mínima dos serviços.

IA na escola ajuda ou atrapalha nos estudos?

Publicidadeprevia

Depende de quem fica com o trabalho de pensar. Um assistente de conversa gera texto a partir dos dados com que foi treinado. Ajuda quando explica um assunto que você vai conferir. Atrapalha quando entrega pronto o que você deveria aprender.

O Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br) publicou em setembro de 2026 um fascículo da Cartilha de Segurança para Internet sobre IA. Ele lembra que a ferramenta não “sabe” a resposta certa, depende dos dados de treinamento e é programada para sempre responder, mesmo errando. Esses erros se chamam alucinações: o texto sai seguro e bem escrito e, ainda assim, pode trazer uma data errada ou um versículo com a referência trocada.

O lema do fascículo serve de regra para o Clube inteiro: “IA é assistente. O responsável é você!”.

O que a Igreja Adventista diz sobre inteligência artificial?

Em novembro de 2023, no Concílio Anual, a Divisão Sul-Americana votou o documento Princípios éticos para o uso da inteligência artificial. Os seis princípios são transparência, justiça e equidade, confiabilidade, responsabilidade, segurança e privacidade, e sustentabilidade. O texto afirma que “a IA não deve substituir a conexão humana e a orientação espiritual individual” e que ela deve ser vista como ferramenta complementar. Na conclusão, reafirma o ser humano “como agente soberano nas decisões finais”. No Clube, isso quer dizer que a máquina ajuda, mas quem decide e responde é uma pessoa.

Em 1º de maio de 2025, a sede sul-americana lançou o 7chat.ai, “a IA Adventista”, em versão beta e treinado com conteúdos oficiais da igreja. O próprio anúncio admite que o assistente pode fornecer informações imprecisas e recomenda checar as respostas em fontes oficiais e consultar pastores ou líderes em dúvidas doutrinárias. Em 6 de outubro de 2026, o endereço 7chat.ai levava para ia.adventistas.org.

A tecnologia é poderosa, mas não pode substituir o toque humano.Pastor Jorge Rampogna, diretor de Comunicação da Igreja Adventista na América do Sul, à Notícias Adventistas, 2025

Desbravador pode usar IA nos requisitos de Classe e Especialidade?

Até 6 de outubro de 2026, não encontramos norma da DSA específica sobre inteligência artificial no cumprimento de requisitos. O documento de 2023 deixa esse detalhamento para cada área: diz que não pretende especificar critérios para todas as formas de uso e pede que as entidades da igreja criem diretrizes próprias. A edição de 2020 do Manual Administrativo do Clube de Desbravadores também não menciona o assunto.

Mas o Manual já tem duas regras que alcançam o problema. Na seção 4.1.4, sobre a avaliação das Classes, pede que o Instrutor analise se o texto foi realmente escrito pelo Desbravador, e não apenas copiado e colado de alguma página da internet ou de um livro, e permite pedir relato oral. Na seção 4.2.2, sobre Especialidades, afirma que “o que NUNCA pode ocorrer é o uso de Especialidades respondidas, principalmente as encontradas na internet”.

Na nossa leitura, sem valor de norma, a resposta gerada por IA e entregue como sua funciona como a especialidade respondida: muda a ferramenta, o atalho continua o mesmo. Os guias sobre especialidades respondidas e sobre classe respondida em PDF explicam por que o gabarito pronto não passa na avaliação.

No começo da Classe ou da Especialidade, pergunte ao Instrutor se a IA pode entrar e em que etapa. Liberar só para revisar ortografia ou pedir tudo à mão são escolhas legítimas enquanto a DSA não publicar orientação própria.

Como usar a inteligência artificial de forma ética: o que pode e o que não pode?

Uma pergunta resolve quase todos os casos: depois de usar a IA, quem aprendeu foi você? Se a ferramenta explicou e você entendeu, houve estudo. Se ela escreveu e você só copiou, o requisito ficou sem dono.

Por trás desse critério está a Lei do Desbravador. O Manual Administrativo explica “Manter a consciência limpa” com o compromisso de não mentir nem enganar, e “Cumprir fielmente a parte que me corresponde” com o dever cumprido de forma honesta. Veja também o guia sobre honestidade e integridade.

O CERT.br sugere uma prática que combina com a transparência votada pela igreja: se você usou IA, indique onde e com que objetivo. Uma linha no fim do trabalho basta, como “usei IA para gerar perguntas de revisão e conferi as respostas no livro da Classe”.

SituaçãoCombina com ética?Por quê
Pedir explicação simples de um conceito difícilSimVocê estuda e confere em outra fonte
Gerar perguntas para treinar a avaliação oralSimA resposta continua sendo sua
Revisar a ortografia de um texto seuDepende do InstrutorCada clube combina o limite
Entregar a resposta da IA como suaNãoEquivale à especialidade respondida
Apresentar como seu um devocional escrito pela IANãoEngana quem ouve
Criar foto, áudio ou vídeo falso de pessoa realNãoEngana e pode humilhar alguém

Orientação a partir do Manual Administrativo (DSA, 2020) e do CERT.br (2026). Não é norma oficial: confirme com o seu Instrutor.

Leia tambémCaiu num golpe ou roubaram sua conta?

Como usar a inteligência artificial para estudar a Bíblia?

Com a Bíblia aberta ao lado. A IA pode sugerir o contexto de um livro, perguntas sobre um capítulo ou passagens sobre o mesmo tema, mas cada referência precisa ser conferida no texto bíblico, porque a ferramenta pode trocar versículos e misturar citações.

Os bereianos são o modelo. Atos 17:11 (NVI) conta que eles receberam a mensagem de Paulo e Silas com grande interesse, “examinando todos os dias as Escrituras, para ver se era verdade o que eles anunciavam”. E 1 Tessalonicenses 5:21 (NVI) resume a atitude: “ponham à prova todas as coisas e retenham o que é bom”.

Em dúvidas de doutrina, o conselho do anúncio do 7chat.ai serve para qualquer ferramenta: confira em fontes oficiais da igreja e converse com o pastor ou com um líder. Para montar um método próprio, veja o guia como estudar a Bíblia aos 10-15 anos.

Publicidadeprevia

No devocional, “Observar a devoção matinal” abre a Lei do Desbravador, e o valor dela está no seu encontro com Deus. A IA pode sugerir uma estrutura, mas a leitura e a oração precisam ser suas.

Que dados nunca colocar na inteligência artificial?

O CERT.br avisa que o que você digita num chatbot geralmente vai para a empresa que mantém a IA e pode ser usado para treinar o modelo, com risco de aparecer em respostas a outras pessoas. Assuma que tudo o que vai para a IA é público: se você não colocaria aquela informação num cartaz na rua, não coloque no prompt.

No Clube, isso significa nunca colar no prompt nome completo, endereço, telefone, CPF, senha, foto de rosto ou ficha médica, sua ou de outro Desbravador. Para organizar uma lista, troque nomes por termos genéricos, como “Desbravador 1”. Para líderes, ficha médica, autorização e fotos de Desbravadores são dados de crianças e adolescentes; as regras de proteção no ambiente digital estão no guia sobre o ECA Digital e o que muda para a família, lei em vigor desde 17 de março de 2026.

Ajuste também a ferramenta: o CERT.br orienta desativar o uso das interações para melhorar o modelo, desligar o histórico de atividades e usar chat temporário quando houver. E alerta: não faça da IA um terapeuta, porque nas interações com IA não há sigilo profissional. Se algo está pesando, converse com seus pais ou com o seu Conselheiro.

Qual é a idade mínima para usar ChatGPT e outras IAs?

Cada serviço define a própria idade mínima nos termos de uso. Os Termos de Uso da OpenAI, empresa do ChatGPT, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, exigem pelo menos 13 anos ou a idade mínima exigida no país, e quem tem menos de 18 anos precisa da permissão dos pais ou do responsável legal. Citamos o caso como exemplo, sem recomendar ferramenta.

Na escola, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou em 1º de setembro de 2026 regras para o uso de IA em escolas e universidades e vetou o uso autônomo por alunos até o 5º ano, com atividades mediadas por profissionais de educação. O texto seguiu para homologação do Ministério da Educação (MEC).

Para o Clube, a conta é direta: Desbravadores de 10 a 12 anos estão abaixo dos 13 anos exigidos nesse exemplo, e os mais velhos dependem da permissão dos pais. Atividade com IA na reunião fica mais segura quando conduzida por um adulto, num aparelho do líder, sem pedir que o Desbravador crie conta própria.

ReferênciaO que diz sobre idadeSituação
Termos de Uso da OpenAIMínimo de 13 anos ou a idade do país; menor de 18 precisa de permissão dos paisEm vigor desde 1º de janeiro de 2026
UnescoLimite de 13 anos para o uso de ferramentas de IA em sala de aula (guia de 2023)Recomendação citada como referência pelo CNE
Conselho Nacional de Educação (CNE)Sem uso autônomo de IA por alunos até o 5º anoAprovado em 1º de setembro de 2026; seguiu para homologação do MEC

Fontes: Termos de Uso da OpenAI (pt-BR), Unesco (2023) e Jornal do Comércio, 01/09/2026. Situação conferida em 6 de outubro de 2026.

Como saber se uma imagem, áudio ou vídeo é feito por IA?

O CERT.br alerta que golpistas usam IA para criar deepfakes, fingindo ser alguém conhecido ou famoso para pedir dinheiro, fazer propaganda enganosa ou espalhar informações falsas. Um áudio com a voz do Diretor pedindo um PIX urgente no grupo da Unidade é exatamente esse tipo de golpe.

Antes de acreditar ou compartilhar, faça as perguntas do fascículo: se a pessoa realmente diria aquilo, se há dinheiro, vantagem ou dados pessoais envolvidos, e se existe urgência, ameaça ou apelo emocional. Confirme por outro canal. Na dúvida, diz o CERT.br, considere que é falso. Provérbios 14:15 (NVI) já avisava: “O ingênuo acredita em qualquer coisa, mas o prudente presta atenção onde pisa”.

Na Unidade, o Conselheiro pode montar um jogo com notícias verdadeiras e montagens, sem usar rostos da turma. Quem quiser ir além encontra na AdventSource, nos Estados Unidos, uma especialidade de Inteligência Artificial de nível 2, criada em 2014; confirme com o seu Regional se ela consta no Manual de Especialidades da DSA. No catálogo sul-americano, o tema aparece na família de especialidades de Computação e Internet: a Computação V pede um relatório sobre a evolução da computação em áreas como a inteligência artificial.