Em 1869, um ex-padre polonês começou a pregar a mensagem adventista no território da atual Romênia. No ano seguinte, em Pitești, Michael Belina Czechowski passou a reunir um pequeno grupo em torno da família Aslan, comerciantes de origem armênia, que adotou a guarda do sábado. Em poucas décadas a igreja cresceu a ponto de a Enciclopédia dos Adventistas do Sétimo Dia descrevê-la como a maior comunidade adventista da Europa, e depois de 1989 ela abriu espaço para os Desbravadores na Romênia, conhecidos no país como Exploratori.

No caminho houve perseguição, escolas missionárias, décadas de fé vivida com discrição no período comunista e um recomeço acelerado depois de dezembro de 1989. Esta é a história de como os clubes floresceram num país de maioria ortodoxa.

Quem foi Michael Belina Czechowski, o pioneiro adventista da Romênia?

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A história começa com um missionário que ninguém enviou. Michael Belina Czechowski era um ex-padre católico polonês que tinha abraçado a fé adventista nos Estados Unidos e voltado à Europa por conta própria, sem nomeação oficial da igreja. Segundo a Enciclopédia dos Adventistas do Sétimo Dia (ESDA), publicada pela Associação Geral, foi ele quem anunciou pela primeira vez a mensagem adventista em território romeno, entre 1869 e 1870.

A primeira parada foi a Transilvânia, mas ali a passagem dele durou pouco e, até onde se sabe, não deixou um grupo estável. O pregador seguiu então para Pitești, na Valáquia, onde morou até 1875. Nesse tempo batizou os primeiros convertidos e consolidou uma pequena congregação formada por membros da família Aslan, comerciantes de origem armênia. Quem leu a história dos Desbravadores na Alemanha já cruzou com o mesmo pioneiro.

Depois da partida de Czechowski, o grupo de Pitești continuou guardando o sábado sem pastor. Em 1879, recebeu a visita de dois pioneiros adventistas vindos da Itália, Bertola e Ribton. Pelo relato deles, aquelas famílias recebiam e liam com regularidade a revista francesa Les Signes des Temps.

Como a Igreja Adventista na Romênia se organizou?

A década de 1880 deu voz ao grupo de Pitești. Em 1881, Toma Aslan mandou duas cartas com notícias à redação da revista francesa e, por causa delas, foi convidado para o conselho dos adventistas europeus de 1883. Em 1884, ajudou a lançar a primeira publicação adventista em romeno, a revista trimestral Adevărulu Prezentu (A Verdade Presente). No mesmo ano, o presidente da Associação Geral, George I. Butler, esteve com os crentes de Pitești, e o missionário A. C. Bourdeau, enviado logo depois, organizou ali a igreja.

O começo foi frágil. Depois de 1887 e 1888, sob hostilidade e perseguição, a igreja de Pitești se desfez: a maior parte dos membros emigrou ou se mudou para Bucareste. A mensagem voltou a criar raízes por outro caminho. Em 1890, famílias de origem alemã que guardavam o sábado tiveram de deixar a Crimeia e receberam terras na Dobruja, onde parte delas organizou a igreja de Viile-Noi, perto de Constanța. Segundo a ESDA, é a igreja adventista mais antiga ainda em atividade no país. Em 1902, o missionário alemão Gerhard Perk, primeiro pastor ordenado a chegar como missionário, instalou-se em Bucareste, e em outubro daquele ano houve um batismo no lago Floreasca.

A organização veio em 1913. Numa reunião em Bucareste, a primeira dos adventistas no país feita em público com aprovação das autoridades, os delegados votaram a criação da Associação Romena, com 442 membros, e elegeram Petre P. Paulini como primeiro presidente. Em julho de 1920, logo depois da Primeira Guerra Mundial, nasceu a União Romena, com três associações e um campo missionário, somando quase 2.500 membros em 99 igrejas. Paulini também foi eleito o primeiro presidente da União.

1869
Czechowski prega na Transilvânia; no ano seguinte, segue para Pitești.
1884
Sai a primeira publicação adventista em romeno.
1913
É criada a Associação Romena, com 442 membros.
1920
Nasce a União Romena, com quase 2.500 membros.
1989
Depois de dezembro, cerca de 300 igrejas são reabertas ou abertas em poucas semanas.
1993
A igreja romena realiza mais de 7 mil batismos, o maior número registrado no país.
1999
Cerca de 630 alunos adventistas faltam a uma prova marcada para o sábado.
2023
Equipes romenas participam pela primeira vez da final da Bible Experience da Divisão Transeuropeia.

Onde os jovens adventistas romenos se formavam?

A preocupação com a formação dos jovens aparece cedo. Ștefan Demetrescu, um dos primeiros pastores romenos, abriu em Focșani, entre 1923 e 1924, a primeira escola missionária, que começou com um curso de seis meses. A escola mudou duas vezes de endereço: funcionou em Diciosânmartin de 1926 a 1932 e em Stupini de 1932 a 1948, onde ganhou um prédio moderno construído para ela. Pelas contas da ESDA, centenas de alunos, moças e rapazes, passaram por suas salas, e foram esses formados que atenderam às igrejas como pastores durante muitos anos.

A igreja romena também mandou gente para longe. Constantin Tolici trabalhou em Madagascar de 1930 a 1936, Ieremie Florea partiu em 1938 para atender imigrantes romenos nos Estados Unidos, e Ilie Curmătureanu seguiu para Camarões em 1939. Os relatórios que eles enviavam viraram leitura inspiradora nas igrejas, e muitos jovens começaram a se preparar para o mesmo tipo de chamado, segundo a ESDA.

Qual a maior religião da Romênia e onde entram os adventistas?

A maior religião da Romênia é o cristianismo ortodoxo. No censo de 2021, do Instituto Nacional de Estatística (INS), 14.025.064 pessoas, ou 73,6% da população residente, se declararam ortodoxas, e cerca de 14% não tiveram a religião informada. Os adventistas do sétimo dia somaram 65.861 pessoas, a sétima religião mais declarada, atrás de ortodoxos, católicos romanos, reformados, pentecostais, greco-católicos e batistas. No censo anterior, de 2011, citado pela ESDA, os ortodoxos eram 86,5% e os adventistas, 0,4%.

A fatia pequena esconde uma história de crescimento rápido. No censo nacional de 1930, mais de 16 mil pessoas se declararam adventistas; em 1948, a igreja contava oficialmente 25.800 membros, 551 igrejas e 79 pastores ordenados. A ESDA credita boa parte desse avanço aos colportores, pastores e membros que levavam literatura às cidades e aldeias, e à leitura dos livros de Ellen White, a ponto de a Romênia se tornar a maior comunidade adventista da Europa.

AnoMarcoNúmeros
1903Igrejas da Transilvânia162 membros em 8 igrejas
1910Associação da Transilvânia561 membros em 30 igrejas
1913Associação Romena442 membros
1920União Romenaquase 2.500 membros em 99 igrejas
1930Censo nacionalmais de 16 mil adventistas declarados
1948Relatório oficial da igreja25.800 membros, 551 igrejas e 79 pastores
2021Censo nacional (INS)65.861 adventistas declarados

Fontes: Enciclopédia dos Adventistas do Sétimo Dia (ESDA), verbete Romania (2020), de 1903 a 1948; Instituto Nacional de Estatística da Romênia, censo de 2021.

Leia tambémComo os Desbravadores chegaram à Espanha

Como crianças e jovens viveram a fé no período comunista?

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Romênia passou a ter um governo comunista. A partir de 1949, a igreja perdeu boa parte da estrutura que sustentava sua vida normal: a editora de Bucareste e o Instituto Missionário de Stupini foram confiscados, e as atividades religiosas ficaram limitadas ao interior dos templos.

Para as famílias adventistas, o ponto mais sensível era o sábado, porque a semana de trabalho ia de segunda a sábado e também havia aula nesse dia. Segundo a ESDA, as classes da Escola Sabatina para crianças eram desencorajadas ou proibidas, e crianças e jovens recebiam de forma sistemática uma formação oficial ateia. No serviço militar, centenas de jovens adventistas foram processados por não se apresentarem aos sábados.

Mesmo assim, as igrejas continuaram cheias. A ESDA descreve dezenas de milhares de adventistas que, toda sexta à noite e todo sábado, levavam os filhos aos cultos nas cidades e nas aldeias. Muitos alunos adventistas simplesmente não iam à aula no sábado. Alguns pagaram com a expulsão da escola ou da universidade, e houve ocasiões em que a turma inteira ficou de pé para apoiar os colegas.

A ESDA chama de milagre o que se conseguiu fazer naquelas condições, incluindo atividades educativas semiclandestinas para crianças e jovens. Depois de 1965, e mais ainda depois de 1980, parte das restrições foi aliviada. Conhecer por que os adventistas guardam o sábado ajuda a entender o peso daquela escolha.

Quando surgiram os Desbravadores na Romênia?

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Em dezembro de 1989, a mudança de regime abriu as portas de uma vez. A pregação passou dos templos para salões públicos, e em poucas semanas cerca de 300 igrejas foram reabertas ou abertas em lugares novos. Em 1993, a igreja romena realizou mais de 7 mil batismos, o maior número registrado no país, segundo a ESDA.

É nesse momento que os Desbravadores entram na história do país. Segundo a ESDA, ramos de trabalho que o regime anterior havia suprimido voltaram a funcionar ou foram criados pela primeira vez, como as várias etapas de formação de crianças e jovens. A enciclopédia destaca os Desbravadores, que ajudaram milhares de jovens a crescer espiritual e moralmente. Na Romênia, o clube se chama Exploratori, plural romeno de explorador. A data do primeiro clube depois de 1989 não aparece nas fontes oficiais consultadas, por isso não a afirmamos.

Dez anos depois, adolescentes adventistas viveram o próprio teste. Em 1999, o Ministério da Educação criou o primeiro exame nacional ao fim dos oito primeiros anos de escola e marcou uma das provas para um sábado. As negociações para mudar a data fracassaram, e cerca de 800 alunos adventistas tiveram de escolher. Perto de 630 faltaram à prova, mesmo sabendo que, pela regra, ficariam ao menos um ano fora de qualquer instituição de ensino. O caso chegou à Suprema Corte, que declarou o ministério culpado de discriminar essas crianças na educação e determinou uma prova especial para elas. Leia também como viver a fé na escola no dia a dia.

Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.1 Timóteo 4:12, Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Como funcionam os Exploratori hoje?

Hoje, o Departamento de Jovens da União Romena trabalha com as equipes de jovens das associações para coordenar programas de várias idades, entre eles Exploratori, Companioni e AMiCUS, a rede de estudantes adventistas nas universidades. O departamento tem um diretor associado dedicado aos programas Licurici (palavra romena para vaga-lumes) e Exploratori, e organiza ou coordena convenções, acampamentos, congressos e projetos nacionais.

No dia a dia, o clube lembra muito o que você conhece no Brasil. Segundo o site Exploratori România, os encontros semanais duram cerca de 90 minutos e misturam jogos, cânticos, habilidades e dinâmicas de equipe. O clube é voltado a alunos do 5º ao 8º ano da escola romena, e o site afirma que há clubes na maioria das grandes cidades do país. A mesma página apresenta os Exploratori como parte de uma organização internacional com mais de dois milhões de membros.

A Bíblia ocupa o centro. O relatório do pastor Aurel Neațu, presidente da União Romena, sobre o período de 2019 a 2024 cita a Bible Experience em 2023 e 2024, o Bible Game em 2024 e pelo menos 2 mil participantes nas etapas locais dos programas de estudo bíblico para crianças e jovens. Em 2021, 5 mil crianças ganharam a Bíblia do adolescente como prêmio por lerem a Bíblia pela primeira vez.

A Divisão Transeuropeia (TED) adotou oficialmente a Pathfinder Bible Experience (PBE) em 2019: a cada ano, equipes de seis membros de clube estudam livros da Bíblia e passam por etapas de provas. Segundo a TED, desde 2023 equipes da Romênia, que pertence à Divisão Intereuropeia (EUD), participam da final da TED. Veja como é uma dessas finais na cobertura da Bible Experience da Transeuropeia em Budapeste.

AnoFinal da Bible Experience da TED
2023Atenas, Grécia (primeiro ano com equipes romenas)
2024Schiedam, Países Baixos
2025Budapeste, Hungria
2026Katowice, Polônia

Fonte: TED Youth Ministries, página da Pathfinder Bible Experience (consultada em outubro de 2026).

Desbravadores na Europa: por que há tantos adventistas romenos fora da Romênia?

A liberdade de circulação aberta depois de 1989 levou milhares de adventistas romenos, em sua maioria jovens, a procurar uma vida melhor em outros países europeus. Os destinos principais foram Espanha, Itália, França e Bélgica. Fiéis de língua húngara da Transilvânia se mudaram para a Hungria, e praticamente toda a comunidade adventista de língua alemã foi para a Alemanha. Segundo estimativa citada pela ESDA, cerca de 5,6 milhões de romenos viviam fora do país em 2020.

Para a enciclopédia, esses imigrantes deram nova energia à Igreja Adventista nos países onde chegaram, tanto em congregações que falam romeno quanto em igrejas locais que usam o idioma do país. A União Romena promove conferências missionárias periódicas para apoiar essa diáspora. Quem estuda a história dos Desbravadores na Espanha conhece um dos principais destinos desses imigrantes.

Na Romênia, a partida teve um custo: igrejas perderam gente justamente quando mais precisavam de mãos para construir templos e evangelizar, e o número de membros no país diminuiu. Da Romênia à Espanha, os clubes fazem parte do mesmo movimento mundial cuja oficialização pela Associação Geral em 1950 o portal já contou.