Muita gente cresce ouvindo os nomes de James e Ellen White e de Joseph Bates quando o assunto é a origem do adventismo. Poucos sabem que, antes de qualquer um deles guardar o sábado, uma viúva chamada Rachel Oakes Preston já o guardava, e resolveu falar disso a um grupo que esperava a volta de Jesus.
Ela não pregou sermões, não escreveu livros, não fundou igreja. Levou consigo uma pilha de folhetos, uma convicção firme e a coragem de apresentar o quarto mandamento a pessoas que ainda não o conheciam. O resto virou história.
Este artigo foca na pessoa. Se você quer entender o passo a passo de como o sábado entrou no adventismo, veja por que os adventistas guardam o sábado. Aqui, o foco fica na mulher por trás daquele empurrão.
Quem foi Rachel Oakes Preston
Rachel nasceu em 1809, na pequena Vernon, no estado americano de Vermont. Cresceu numa família comum de fazendeiros da Nova Inglaterra, uma região de invernos longos e comunidades religiosas fervorosas. Começou a vida de fé no metodismo, casou-se ainda jovem com Amory Oakes e ficou viúva cedo, criando sozinha a filha, Rachel Delight.
Nada na juventude dela sugeria que seu nome apareceria nos livros de história de um movimento mundial. Era uma mulher de recursos modestos, sem instrução formal avançada, sem cargo, sem palanque. O que ela tinha era uma fé estudiosa e teimosa, do tipo que lê a Bíblia com o dedo no texto e pergunta: por que fazemos assim?
Essa pergunta simples, feita diante do quarto mandamento, mudou o rumo da vida dela. E, sem que ninguém imaginasse na época, ajudou a mudar o rumo de milhares de outras pessoas.
De metodista a batista do sétimo dia
Por volta de 1837, morando em Verona, no estado de Nova York, Rachel entrou em contato com um grupo pequeno e pouco conhecido: os batistas do sétimo dia. Eram cristãos que guardavam o sábado, o sétimo dia da semana, apoiados na leitura direta dos Dez Mandamentos. Para a maioria dos protestantes americanos daquele tempo, isso soava estranho, quase impensável.
Rachel estudou o assunto e se convenceu. Ela e a filha se uniram à congregação batista do sétimo dia de Verona. A base da convicção dela era um texto que qualquer Desbravador conhece de cor no Clube: Êxodo 20:8, na Almeida Revista e Atualizada, diz simplesmente: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar."
Note o detalhe humano aqui. Rachel não guardava o sábado por tradição de família nem por pressão de comunidade. Ela chegou àquela prática por convicção própria, lendo, comparando, decidindo. Esse tipo de fé pensada, do tipo que se conquista lendo e decidindo, é exatamente o que a gente incentiva num adolescente que estuda uma Classe ou uma Especialidade: entender o porquê antes de repetir o gesto.
A mudança para Washington, New Hampshire
Em 1843, já viúva, Rachel se mudou para Washington, uma vila rural de New Hampshire, para ficar perto da filha, que ia lecionar na escola local. Na bagagem, além das coisas de casa, ela levou algo que faria toda a diferença: uma boa quantidade de literatura batista do sétimo dia sobre o sábado bíblico.
Em Washington havia um grupo de crentes conhecidos localmente como "irmãos cristãos". Boa parte deles seguia a pregação de William Miller, o pregador que anunciava a volta iminente de Jesus. Eram os milleritas, gente sincera e entusiasmada, com os olhos voltados para o céu e o coração cheio de expectativa pelo retorno de Cristo, que muitos esperavam para 1843 ou 1844.
Rachel começou a frequentar as reuniões desse grupo junto com a filha. E foi ali, no meio de pessoas concentradas na segunda vinda, que ela percebeu uma peça que faltava no quebra-cabeça da fé daqueles irmãos: eles esperavam obedecer a Jesus em tudo, mas ainda guardavam o domingo, sem terem parado para examinar o mandamento do sábado.
Leia tambémJoseph Bates: o capitão do mar que pregou o sábado1844: o momento em que apresentou o sábado
A cena mais lembrada da vida de Rachel aconteceu naquele grupo. Ela, com a franqueza de quem já tinha estudado o assunto por anos, apresentou aos milleritas a questão do sábado bíblico. O argumento era direto: se aquele grupo esperava guardar todos os mandamentos de Deus até a volta de Jesus, não fazia sentido deixar de lado justamente o quarto, que manda santificar o sétimo dia.
O pregador local, Frederick Wheeler, ficou incomodado e desafiado por aquilo. Reza a tradição que Rachel teria dito, com todas as letras, que ele deveria guardar todos os mandamentos ou nenhum. Wheeler estudou, orou e se rendeu ao texto. Em 16 de março de 1844, ele pregou o que é considerado o primeiro sermão adventista defendendo o sábado do sétimo dia.
O peso do apelo de Rachel vinha da coerência com a Escritura. Ela apoiava tudo em passagens como Isaías 58:13-14, que descreve o valor do dia santo: "Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no Senhor."
A corrente que chegou aos White
A conversa numa vila de New Hampshire poderia ter morrido ali. Não morreu. Ela virou uma corrente de pessoas passando a mesma verdade adiante, uma para a outra, ano após ano.
O caminho ficou registrado assim: a convicção de Frederick Wheeler alcançou o pregador T. M. Preble, que em 1845 publicou um folheto sobre o sábado. Esse folheto chegou às mãos de Joseph Bates, um ex-capitão de navio, que se convenceu e escreveu o próprio material em 1846. E foi justamente o folheto de Bates que levou o sábado a um jovem casal recém-casado: James e Ellen White. Deles em diante, a mensagem se espalhou pelo movimento que viria a se organizar como Igreja Adventista do Sétimo Dia, em 1863.
Anos depois, o próprio James White reconheceu publicamente a dívida. Ele apontou Rachel Oakes como o impulso humano que iniciou tudo aquilo. Uma viúva sem cargo, com uma pilha de folhetos, estava na primeira posição de uma fila que hoje tem milhões de pessoas. Se você quiser ver como essa e outras verdades formam o conjunto da fé adventista, dê uma olhada nas 28 crenças explicadas para jovens.
A vida depois de 1844
A vida de Rachel continuou longe dos holofotes. Nos anos seguintes a 1844, ela se casou de novo, com Nathan T. Preston, e por isso passou a ser conhecida pelo nome composto Rachel Oakes Preston. Seguiu como uma cristã fiel ao sábado, do jeito que aprendera entre os batistas do sétimo dia.
Aqui mora uma das ironias mais bonitas da história dela. Rachel foi quem apresentou o sábado aos futuros adventistas, mas permaneceu batista do sétimo dia pelo resto da vida e nunca se tornou membro batizada da Igreja Adventista, que só se organizaria oficialmente em 1863. Ela morreu em 1º de fevereiro de 1868, ainda ligada à fé batista do sétimo dia em que aprendera a guardar o sábado. Pouco antes, o pastor adventista S. N. Haskell a visitou, e a igreja publicou um obituário reconhecendo o papel dela.
Isso diz muito sobre o caráter dela. Rachel não estava atrás de crédito, de posição nem de fundar um grupo com o próprio nome. Ela defendia uma verdade que julgava bíblica e deixava que ela seguisse o próprio caminho, mesmo quando o movimento que nasceu dali seguiu adiante sem ela no papel de membro.
O legado das pioneiras e o que você aprende com ela
A história do adventismo costuma ser contada pelos grandes nomes que pregavam e escreviam. Rachel Oakes Preston lembra que movimentos também nascem de gente que a maioria nunca vê: a pessoa que faz a pergunta certa, empresta o livro certo, puxa a conversa que ninguém tinha coragem de puxar. No Clube, esse papel existe o tempo todo. É o Conselheiro que conversa em particular, o Desbravador que convida um amigo, o pai que planta uma ideia sem esperar aplauso.
Há também uma lição sobre mulheres na fé. Numa época em que mulheres raramente falavam em público sobre doutrina, Rachel abriu a boca e mudou o curso das coisas. Ellen White, poucos anos depois, se tornaria a voz mais influente do movimento. A história adventista começa com a coragem discreta de uma viúva, e vale lembrar disso quando uma menina do seu Clube pensa que não tem vez ou voz.
Para o adolescente que estuda uma Classe, fica o exemplo mais prático de todos: fé de verdade se constrói lendo a Bíblia com atenção e agindo conforme o que se entende. Rachel não esperou virar líder para fazer o certo. Fez o certo com o que tinha na mão, no lugar onde estava. Esse é um legado que cabe em qualquer Unidade, em qualquer semana, na vida de qualquer Desbravador.