São dez da noite de uma quinta-feira e o celular do Conselheiro vibra. A notificação chega fora do grupo de WhatsApp dos Desbravadores da Unidade, direto no privado: um juvenil de 13 anos pergunta se pode conversar um pouco. A intenção dele quase sempre é boa, e a do líder também. Só que aquela janela, que ninguém mais enxerga, funciona como uma sala de porta fechada.
Este guia leva para o celular a regra de ouro do Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, da Divisão Sul-Americana (DSA) da Igreja Adventista do Sétimo Dia: o líder evita ficar a sós com o juvenil. O foco é prevenção, e a proteção vale para os dois lados da tela.
O que o Manual dos Desbravadores diz sobre ficar a sós, e por que isso vale no celular?
O Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, edição de 2020 da DSA, dedica a seção 2.10 à prevenção de abuso, e a definição que abre a seção já inclui a comunicação: abuso envolve qualquer contato indevido, "seja físico, sexual ou qualquer tipo de comunicação", de um adulto que se aproveita da autoridade sobre a criança ou o adolescente. O objetivo é duplo: proteger o juvenil e proteger a direção de falsas acusações. As regras presenciais estão no guia de proteção infantil no Clube de Desbravadores.
O Manual não proíbe o líder de mandar mensagem. Na página 202, ele até sugere enviar mensagens por celular com as novidades do Clube para as crianças. Só não detalha o formato, e este guia aplica ali o princípio da página 61: uma conversa que apenas duas pessoas enxergam equivale a uma sala com a porta fechada. Se o líder não entra nessa sala no sábado, também não abre essa janela na quinta à noite.
A Bíblia registra a mesma prudência. Ao administrar uma oferta das igrejas, o apóstolo Paulo trabalhou ao lado de um companheiro eleito pelas próprias igrejas, justamente para evitar acusações, e explicou em 2 Coríntios 8:21 (ARA): "pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens".
Os líderes deverão evitar ficar a sós com um juvenil. Isso protege ambos de possíveis acusações.Manual Administrativo do Clube de Desbravadores, Divisão Sul-Americana, edição 2020, p. 61
O que a Igreja Adventista recomenda para o contato online com menores?
Não encontramos, nos materiais públicos da DSA, um protocolo específico para mensagens entre líder e Desbravador. A referência adventista mais detalhada vem da Adventist Risk Management (ARM), empresa oficial de seguros e gestão de riscos da Igreja Adventista do Sétimo Dia no mundo. Em 29 de abril de 2020, com as reuniões migrando para a internet na pandemia, o vice-presidente da ARM David Fournier publicou o artigo "Working with Kids Online" (Trabalhando com crianças online), cuja premissa é que as políticas de proteção infantil da Igreja valem também no ambiente digital. Escrito para ministérios dos Estados Unidos e do Canadá, território da Divisão Norte-Americana, o texto entra aqui como referência internacional, sem valor de norma na DSA.
As orientações principais: o grupo tem pelo menos dois adultos supervisores, ambos copiados em toda comunicação; sessões individuais com menores não são permitidas; os pais autorizam o contato e conseguem ver tudo o que é enviado. Voluntários também não se conectam por conta própria com menores nas redes sociais fora do grupo (a exceção são os próprios filhos), sob pena de medidas disciplinares que podem chegar ao afastamento.
Um ponto pede adaptação ao Brasil. A ARM sugere evitar sistemas de conversa privada, citando o Facebook e o WhatsApp pelo nome. Só que, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, citada no guia federal sobre telas, 70% dos usuários de internet de 9 a 17 anos acessam o WhatsApp com frequência elevada. Na nossa leitura, a adaptação mais fiel é usar o aplicativo só em grupo, com dois adultos e os pais por perto.
| Princípio | No Clube (Manual da DSA, 2020) | No celular (referência da ARM, 2020) |
|---|---|---|
| Testemunha | O líder evita ficar a sós com um juvenil | Dois adultos supervisores copiados em toda comunicação |
| Supervisão | Os Desbravadores são supervisionados o tempo todo | Nenhum contato ou sessão individual com o menor |
| Família | O juvenil só é entregue aos pais ou ao guardião legal, salvo permissão escrita | Os pais autorizam o contato e veem tudo o que é enviado |
| Redes sociais | Sem regra específica sobre seguir menores | O voluntário não se conecta sozinho com menores fora do grupo |
Fontes: Manual Administrativo do Clube de Desbravadores (DSA, 2020, p. 61) e Adventist Risk Management, Working with Kids Online (2020).
Desbravador de 10, 11 ou 12 anos pode ter WhatsApp e entrar no grupo do Clube?
O Clube de Desbravadores reúne juvenis de 10 a 15 anos, e parte deles não tem a idade que o WhatsApp exige. Os termos de serviço do aplicativo em português pedem pelo menos 13 anos, ou mais se a lei do país exigir. Abaixo disso, pai, mãe ou responsável pode criar uma conta gerenciada, caso ela esteja disponível no país. E o art. 24 do ECA Digital, que abre o capítulo sobre redes sociais, obriga os provedores a garantir que contas de crianças e adolescentes de até 16 anos estejam vinculadas à conta de um responsável legal.
O guia "Crianças, adolescentes e telas", publicado em 2025 pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), vai na mesma direção: de 6 a 11 anos, evitar redes sociais e aplicativos de mensagens e deixar o smartphone próprio para depois dos 12 anos, no mínimo; de 12 a 17, uso com acompanhamento da família ou de educadores.
Na prática, nenhuma atividade do Clube deveria depender de o juvenil ter celular próprio. Com os mais novos, o canal oficial é o grupo de avisos dos responsáveis, montado como explica o guia de comunicação com os pais no Clube. Grupo com os próprios juvenis cabe nas Unidades em que todos têm a idade mínima e os pais concordaram.
Como montar o grupo de WhatsApp dos Desbravadores da Unidade com segurança?
Comece pelos adultos: pelo menos dois líderes no grupo, como o Conselheiro e outro membro da diretoria, para que nenhuma mensagem de adulto fique sem testemunha. A divisão de tarefas entre os dois está no guia do Conselheiro titular e auxiliar. Os pais sabem que o grupo existe, concordam com a participação do filho e têm acesso ao conteúdo.
Antes de adicionar o primeiro juvenil, configure o básico. Só adultos administram. As mensagens temporárias ficam desligadas, porque o histórico protege o Clube e o próprio líder se algo for questionado depois. O nome do grupo deixa claro que ele é oficial da Unidade, e o líder que deixa o cargo sai do grupo no mesmo dia.
O grupo serve para avisos, lembretes de requisitos de Classe e de Especialidade e fotos das atividades, estas só com autorização dos pais, como detalha o guia do termo de uso de imagem no Clube. Correção de comportamento fica para o encontro presencial. O próprio Manual inclui o bullying virtual, feito pela internet e pelo celular, entre as formas de maus-tratos que o líder precisa combater.
O Desbravador chamou o líder no privado: o que fazer?
Vai acontecer, e o juvenil não faz nada de errado ao escrever. O cuidado está na resposta do adulto:
- Responda com gentileza e sem demora. Ignorar ensina que procurar o líder não adianta.
- Leve o assunto para um lugar visível. Dúvida de horário ou requisito vai para o grupo. Assunto pessoal ganha uma conversa presencial, em local aberto e à vista de outros adultos.
- Inclua outro adulto. Se a conversa precisar continuar por mensagem, crie um grupo com o juvenil, você e o outro líder, ou com um dos pais.
- Preserve o histórico. Não apague nada e conte ao Diretor que o contato aconteceu.
Uma resposta modelo: "Oi! Que bom que você me procurou. Vou chamar a [nome da outra líder] para a gente conversar junto, combinado? Se preferir, falamos no sábado, antes da reunião." Para logística, como horário de saída, ligue para o pai ou a mãe. Áudio segue a regra da mensagem escrita, e videochamada individual fica de fora: a ARM orienta que encontros online incluam os dois adultos supervisores.
Se a mensagem revelar risco ou sinal de violência, siga o Manual: não prometa guardar segredo antes de saber o que vai ser revelado, e lembre que, mesmo na suspeita, a notificação deve ser feita ao Conselho Tutelar. O passo a passo está no guia de proteção infantil.
Líder pode seguir Desbravador no Instagram, no TikTok ou em jogo online?
Pela referência da ARM, não: o voluntário não se conecta sozinho com menores nas redes fora do grupo, nem seguindo nem aceitando pedido, salvo o próprio filho. Quando um Desbravador pedir para seguir você, recuse com carinho: "No Clube, os líderes não seguem os juvenis pelo perfil pessoal. Siga o perfil da nossa Unidade!" A ARM recomenda que os pais também conheçam essa regra.
Para o perfil oficial do Clube, o artigo de 2018 da ARM "How to Safely Use Social Media for Your Ministry", sobre redes sociais no ministério, recomenda pessoas designadas para manter e monitorar os perfis: na prática, senha conhecida por mais de um adulto da diretoria e mensagens diretas lidas por pelo menos dois.
Jogos online com chat seguem a mesma lógica: partida entre líder e juvenil, sozinhos num canal privado, é conversa reservada com outro nome. O lado do próprio Desbravador na internet está no guia de redes sociais com propósito.
Quais regras para grupo de WhatsApp da igreja o Clube deve aprovar?
Regra combinada de boca some na primeira troca de diretoria. Escreva, aprove em reunião da diretoria e entregue às famílias com a ficha de matrícula. O modelo abaixo, para copiar e adaptar, é sugestão do portal; a ARM pede que a política defina horários, conteúdo e destinatários das mensagens privadas.
- Nenhum líder mantém conversa privada e reservada com Desbravador, por mensagem, ligação ou vídeo.
- Todo grupo com juvenis tem pelo menos dois adultos da diretoria, e só adultos administram.
- Os pais sabem de todo grupo de que o filho participa e podem ver o conteúdo.
- Juvenis com menos de 13 anos são contatados pelo celular dos responsáveis.
- Mensagens só em horário combinado, por exemplo das 8h às 21h, salvo emergência.
- Mensagens temporárias desligadas e histórico preservado.
- Líderes não seguem juvenis pelo perfil pessoal; nas redes, vale o perfil oficial do Clube.
- Foto de Desbravador só com autorização dos pais, e mensagem inconveniente de adulto é relatada ao Diretor e ao pastor.
O último item ecoa o Manual, que manda relatar ao pastor ou à administração da Igreja qualquer comportamento que pareça abusivo ou inconveniente. A lei também avançou: o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital, Lei 15.211/2025), em vigor desde 17 de março de 2026, vale para aplicativos e jogos direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por eles, e o que muda em casa está no guia do ECA Digital para a família.